
“Em uma tarde onde atendo dez mulheres, ao menos duas que se queixam de Candidíase de repetição”. A afirmação é de Eudilma Magalhães (COREN-BA 44667), enfermeira com mais 30 anos de atuação e mestre em saúde da mulher, sobre uma das infecções mais comuns entre o público feminino, seja adolescente, jovem, adulta ou idosa: a candidíase de repetição.
Muitas mulheres acham que qualquer atipicidade na região íntima é sinônimo de uma doença ou infecção sexualmente transmitida (IST e DST). Qualquer corrimento com texturas ou cores diferentes, além de cheiro e incômodo de maneira geral, despertam o medo.
Graças a isso, muitas delas acreditam que a candidíase se encaixa nessas enfermidades, mas não é bem assim. A candidíase é provocada pela modificação da flora vaginal e tem como um dos principais fatores a qualidade de vida (ou falta disso).
A médica ginecologista Maria Fernanda Gagliano Xisto (CRM 18819), especialista em patologia do trato genital inferior, explica que um dos principais desafios no tratamento da candidíase recorrente é fazer com que a paciente compreenda que a infecção não está relacionada apenas ao ambiente vaginal.
“Essas recorrências têm forte ligação com o desequilíbrio do microambiente vaginal e também com outros fatores do organismo, baixa imunidade, estresse e até mesmo privação de sono”, destaca a especialista.
A candidíase é uma infecção fúngica, que ocorre de forma repetida, entre 3 a 4 episódios
Maria Fernanda Gagliano Xisto

Em sua grande maioria, as mulheres que têm candidíase possuem um perfil recorrente: vivem sob grande estresse diário. Muitas são mães solo, com 3 a 4 filho,s e possuem sobrecarga paternal. As jovens, em sua grande maioria, conciliam trabalho com estudo; enquanto as com idade mais avançada possuem problemas com os filhos, já adultos, ou com sobrecarga criando seus netos.
Uma paciente relatou que teve candidíase duas vezes esse ano. Ela é mãe solo de quatro filhos, e no meio da consulta teve que sair correndo, para levá-los à escola e depois retornar para mim
Eudilma Magalhães

Higiene é fundamental
Muitas vezes o dia inteiro da paciente é o estressante e desconfortável. E dentro desse cenário, a higiene das roupas, até mesmo peças íntimas, é ignorada.
Ao despertar às 5 da manhã e seguir a rotina automática de recolher as roupas do varal, escolher a farda e a calça jeans para sair de casa, não há atenção nem para passar o ferro quente na calcinha, peça que está em contato frequente com a área atingida.

A enfermeira Eudilma adverte: a higiene íntima também é importantíssima. "Evite usar roupas muito apertadas. Lave bem suas calcinhas e para secar, coloque numa área arejada ou no sol. Além de passar ferro no fundo das calcinhas.”
Quando devo procurar um médico?
A ginecologista Maria Fernanda aponta para a importância da busca por um especialista, "É importante que essa mulher não vá a farmácia e peçam para o balconista te indica uma pomada. Candidíase requer diagnostico preciso", conclui, afirmando que há infecções que possuem sintomas similares a cândida, mas que o tratamento é completamente diferente.
Os principais sintomas são:
- Coceira intensa na vagina
- Vermelhidão
- Ardência, acentuada no momento se secar após urinar
- Fluxo vaginal parecido com leite talhado ou mucoso
- Sensação de acidez
A mulher pode ter esporadicamente, uma vez ao ano, algum episódio de candidíase, e não se considera de repetição. O que classifica como candidíase recorrente ou de repetição, são três a quatro episódios no ano.
Como é feito o tratamento?
“Se a gente não muda esse microambiente, se a gente não muda esse estilo de vida, a gente pode tratar aquela cândida de repetição por um período e esse desequilíbrio retornar'', reitera Maria Fernanda. A médica traz que o tratamento permeia o uso de medicação, mas são tratamentos farmacológicos pontuais.
A mudança, deve vir da base: no estilo de vida paciente. Da higiene íntima, passando pela limpeza adequada das vestes, até mesmo o funcionamento intestinal dessa paciente, que permeia a qualidade da alimentação, que também altera o pH da flora vaginal.
“O cuidado é contínuo”, aponta Fernanda. Manter um hábito de vida saudável, dormir cedo, controle de estresse e ter alimentação adequada, mesmo após o início do episódio de candidíase de repetição, combate a recorrência da infecção.
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Mas e o sexo, será que pode? Eudilma esclarece que devido a grande irritação vaginal, muitas mulheres não conseguem ter uma relação sexual. "Coça muito. Não é agradável. Deixa de ser prazeroso".

Fatores de riscos
Algumas comorbidades, alterações hormonais, estresse crônico, falta de higiene e uso de antibióticos contribuem para a diminuição do pH vaginal, e consequentemente, para a maior possibilidade de contração de candidíase.
São os principais fatores de riscos:
- Mulheres que possuem diabetes desregulada
- Uso contínuo de antibiótico, um tratamento longo de antibiótico.
- Estresse crônico
- Pacientes com privação de sono
Homem também pode ter candidíase, sabia?
A candidíase não é exclusiva das mulheres: também acomete homens, embora o diagnóstico seja mais difícil, muitas vezes pela resistência deles em buscar acompanhamento médico. Os sintomas podem ser semelhantes, como vermelhidão, descamação e coceira, e o estresse também pode afetar a imunidade e favorecer o surgimento do problema.
Além disso, a falta de higiene íntima adequada agrava esse cenário e está associada, inclusive, ao aumento de casos de câncer de pênis no Brasil. Por isso, o alerta também é para o público masculino: hábitos simples, como higienizar corretamente a região com água e sabão e o uso de preservativo, são fundamentais para prevenção e cuidado com a saúde.
*Sob a supervisão da editora Amanda Souza
