Cordões com quebra-cabeça, girassol, hiperfoco, seletividade alimentar… Nos últimos anos, esses termos dominaram a internet quando o assunto é Transtorno do Espectro Autista (TEA). O tema ganhou visibilidade, mas a realidade de adultos autistas ainda passa longe das estatísticas mais comentadas.
Segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, mais de dois milhões de brasileiros declararam já ter recebido diagnóstico, o que corresponde a 1,2% da população.
Quando se olha para a faixa etária, o recorte é ainda mais revelador: há mais diagnósticos entre crianças de 5 a 9 anos (2,6%), seguidas por 0 a 4 anos (2,1%), 10 a 14 anos (1,9%) e 15 a 19 anos (1,3%). São 1,1 milhão de pessoas. O desafio aparece justamente no que fica fora desse número: adultos que passaram décadas sem nomear o que sentiam.
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A terapeuta transpessoal sistêmica Marcela Santana explica, no mês dedicado a conscientização do espectro, que o autismo na vida adulta segue invisível e muitas vezes confundido com “jeito de ser” ou questões emocionais isoladas:
“O diagnóstico tardio não apaga uma vida inteira de tentativas de se encaixar em um mundo que pouco compreende as diferenças", explica.

O quebra-cabeça que nunca encaixou
Izabel Barbosa, de 51 anos, conta, em entrevista ao MASSA!, que viveu a vida inteira na tentativa de entender por que tudo parecia mais difícil para ela. O diagnóstico só chegou em 2025:
“Recebi o diagnóstico há um ano, exatamente 5 dias antes dos meus 51 anos. Já vinha investigando vários outros transtornos há mais de 12 anos. Na verdade, já lutava com a depressão e ansiedade há mais de 20 anos, conscientemente, mas convivi com esses sintomas a minha vida inteira sem nenhum tipo de acompanhamento até então”, relata.
Tal sentimento é comum entre autistas, é o que reforça Marcela: “Mesmo em ambientes íntimos, como família, amigos ou relações afetivas, é comum que pessoas autistas relatem um distanciamento interno, como se estivessem sempre ‘fora do lugar’".
Izabel, que é mãe de quatro filhos, incluindo um adolescente de 16 anos diagnosticado com TEA, carrega esse sentimento desde cedo.
"Foi muito difícil a minha vida inteira. Até por ser de origem pentecostal, minha mãe sempre foi muito rígida com a nossa educação, e passei a infância inteira apanhando pra corrigir qualquer coisa considerada inadequada. Era muito tímida e medrosa", diz.

Ela ainda lembra das inúmeras suspeitas clínicas que recebeu ao longo da vida:
"Eu tinha sugestões psiquiátricas de bipolaridade, borderline, depressão, TAG, mas nunca pensaram no autismo. A partir do diagnóstico do meu filho, eu mesma comecei a ver o quanto tínhamos comportamentos parecidos, sendo nele mais acentuados. Desde então, comecei a luta pra saber o que de fato eu tinha e, passando por neurologistas, neuropsicóloga e psiquiatras, finalmente, chegaram a um diagnóstico."
A dificuldade de socializar era marcante, já que diferente dos outros adolescentes, Izabel não gostava de ir às festas, o que segundo ela, era um ponto de desentendimento com a família, e foi taxada como a 'criança que ficava de cara feia'.
O diagnóstico foi libertador. Consegui me perdoar, compreender e entender porque sempre me achei diferente.
Atuante na área da saúde Izabel Barbosa da Silva Araújo
Quando o diagnóstico só chega na vida adulta
O autismo não é sinônimo de incapacidade, mas influencia a forma como a pessoa vive, aprende e se relaciona. Formada em Relações Públicas, Júlia Rodt recebeu o diagnóstico aos 22 anos — e foi justamente no período da entrega de conclusão de curso, o TCC, que tudo fez sentido.
"Nesse período, algumas dificuldades ficaram ainda mais evidentes, como lapsos de memória, dificuldade de concentração prolongada, sobrecarga mental, além de questões relacionadas à organização e processamento de informações. Paralelamente, eu estava em um relacionamento com uma psicóloga, o que também contribuiu para ampliar meu olhar sobre esses sinais e me incentivou a procurar uma avaliação profissional", conta.
Segundo a terapeuta, o cansaço social é um dos reflexos mais intensos de quem vive tanto tempo sem o diagnóstico correto. Entre os sintomas mais comuns nessa fase estão:
➡️ Esgotamento extremo;
➡️ Introversão e timidez acentuadas;
➡️ Padrões repetitivos;
➡️ Desconforto diante de mudanças.
TEA não é incapacidade
Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicados em 2017, estimam que uma em cada 100 pessoas está dentro do espectro. Entre elas, muitas são como Júlia e Izabel: trabalham, estudam, criam filhos e lidam com toda a carga emocional que o dia a dia exige.
Perguntadas sobre o que o mundo ainda precisa entender sobre o autismo na vida adulta, ambas são unânimes: é preciso aceitar o que foge da expectativa de “normal”.
"Muitos adultos autistas trabalham, estudam, se comunicam, constroem relações — e, por isso, acabam sendo vistos como pessoas que ‘não precisam de apoio’. Mas essa é uma leitura muito superficial. O fato de conseguir sustentar uma rotina não elimina o esforço que existe por trás dela", ressalta Júlia.

Já Izabel compartilha um pouco de sua jornada profissional, marcada por alguns obstáculos.: "Sou uma profissional dedicada, porém não consigo fazer a mesma coisa por muito tempo. Trabalhei 16 anos na área da saúde e todos os anos pedia pra me mandarem embora, pois não conseguia render o que eu achava que poderia."
"Trocavam-me de função e eu sossegava um pouco. Com isso, fui aprendendo tudo de todas as áreas, mas tinham momentos em que eu não conseguia sair de casa", explica Izabel.
O TEA não tem rosto, não existe um “tipo” de pessoa autista. E isso não significa ausência. Para Júlia, que atualmente é coordenadora de vendas na BIC, o entendimento da condição ajudou a trilhar sua trajetória profissional até o momento.
"Apesar dos desafios, o autismo nunca foi um fator limitante para mim — principalmente no trabalho. Pelo contrário, sempre tive um perfil muito ativo, de liderança e protagonismo", conclui.
O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é essencialmente clínico e deve ser realizado por médicos. Os profissionais mais indicados são o neuropediatra (para crianças), o psiquiatra infantil ou o psiquiatra geral (para adultos), além de pediatras com experiência na área.
Psicólogos capacitados podem realizar a avaliação inicial e aplicar testes, mas o laudo final deve ser emitido e validado por um médico.
*Sob a supervisão do editor Pedro Moraes