Autismo na vida adulta: histórias de diagnóstico tardio e invisibilidade

Adultos com TEA seguem invisibilizados, mesmo com avanços nos diagnósticos na infância

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abril azul - 14/04/2026, 08:00 - Laís Machado*

Cordões com quebra-cabeça, girassol, hiperfoco, seletividade alimentar… Nos últimos anos, esses termos dominaram a internet quando o assunto é Transtorno do Espectro Autista (TEA). O tema ganhou visibilidade, mas a realidade de adultos autistas ainda passa longe das estatísticas mais comentadas.

Segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, mais de dois milhões de brasileiros declararam já ter recebido diagnóstico, o que corresponde a 1,2% da população.

Quando se olha para a faixa etária, o recorte é ainda mais revelador: há mais diagnósticos entre crianças de 5 a 9 anos (2,6%), seguidas por 0 a 4 anos (2,1%), 10 a 14 anos (1,9%) e 15 a 19 anos (1,3%). São 1,1 milhão de pessoas. O desafio aparece justamente no que fica fora desse número: adultos que passaram décadas sem nomear o que sentiam.

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A terapeuta transpessoal sistêmica Marcela Santana explica, no mês dedicado a conscientização do espectro, que o autismo na vida adulta segue invisível e muitas vezes confundido com “jeito de ser” ou questões emocionais isoladas:

“O diagnóstico tardio não apaga uma vida inteira de tentativas de se encaixar em um mundo que pouco compreende as diferenças", explica.

Terapeuta transpessoal sistêmica, Marcela Santana
Terapeuta transpessoal sistêmica, Marcela Santana | Foto: Divulgação/ Ana Trancoso

O quebra-cabeça que nunca encaixou

Izabel Barbosa, de 51 anos, conta, em entrevista ao MASSA!, que viveu a vida inteira na tentativa de entender por que tudo parecia mais difícil para ela. O diagnóstico só chegou em 2025:

“Recebi o diagnóstico há um ano, exatamente 5 dias antes dos meus 51 anos. Já vinha investigando vários outros transtornos há mais de 12 anos. Na verdade, já lutava com a depressão e ansiedade há mais de 20 anos, conscientemente, mas convivi com esses sintomas a minha vida inteira sem nenhum tipo de acompanhamento até então”, relata.

Tal sentimento é comum entre autistas, é o que reforça Marcela: “Mesmo em ambientes íntimos, como família, amigos ou relações afetivas, é comum que pessoas autistas relatem um distanciamento interno, como se estivessem sempre ‘fora do lugar’".

Izabel, que é mãe de quatro filhos, incluindo um adolescente de 16 anos diagnosticado com TEA, carrega esse sentimento desde cedo.

"Foi muito difícil a minha vida inteira. Até por ser de origem pentecostal, minha mãe sempre foi muito rígida com a nossa educação, e passei a infância inteira apanhando pra corrigir qualquer coisa considerada inadequada. Era muito tímida e medrosa", diz.

Izabel Barbosa da Silva Araújo
Izabel Barbosa da Silva Araújo | Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

Ela ainda lembra das inúmeras suspeitas clínicas que recebeu ao longo da vida:

"Eu tinha sugestões psiquiátricas de bipolaridade, borderline, depressão, TAG, mas nunca pensaram no autismo. A partir do diagnóstico do meu filho, eu mesma comecei a ver o quanto tínhamos comportamentos parecidos, sendo nele mais acentuados. Desde então, comecei a luta pra saber o que de fato eu tinha e, passando por neurologistas, neuropsicóloga e psiquiatras, finalmente, chegaram a um diagnóstico."

A dificuldade de socializar era marcante, já que diferente dos outros adolescentes, Izabel não gostava de ir às festas, o que segundo ela, era um ponto de desentendimento com a família, e foi taxada como a 'criança que ficava de cara feia'.

Aspas

O diagnóstico foi libertador. Consegui me perdoar, compreender e entender porque sempre me achei diferente.

Atuante na área da saúde Izabel Barbosa da Silva Araújo

Quando o diagnóstico só chega na vida adulta

O autismo não é sinônimo de incapacidade, mas influencia a forma como a pessoa vive, aprende e se relaciona. Formada em Relações Públicas, Júlia Rodt recebeu o diagnóstico aos 22 anos — e foi justamente no período da entrega de conclusão de curso, o TCC, que tudo fez sentido.

"Nesse período, algumas dificuldades ficaram ainda mais evidentes, como lapsos de memória, dificuldade de concentração prolongada, sobrecarga mental, além de questões relacionadas à organização e processamento de informações. Paralelamente, eu estava em um relacionamento com uma psicóloga, o que também contribuiu para ampliar meu olhar sobre esses sinais e me incentivou a procurar uma avaliação profissional", conta.

Segundo a terapeuta, o cansaço social é um dos reflexos mais intensos de quem vive tanto tempo sem o diagnóstico correto. Entre os sintomas mais comuns nessa fase estão:

➡️ Esgotamento extremo;

➡️ Introversão e timidez acentuadas;

➡️ Padrões repetitivos;

➡️ Desconforto diante de mudanças.

TEA não é incapacidade

Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicados em 2017, estimam que uma em cada 100 pessoas está dentro do espectro. Entre elas, muitas são como Júlia e Izabel: trabalham, estudam, criam filhos e lidam com toda a carga emocional que o dia a dia exige.

Perguntadas sobre o que o mundo ainda precisa entender sobre o autismo na vida adulta, ambas são unânimes: é preciso aceitar o que foge da expectativa de “normal”.

"Muitos adultos autistas trabalham, estudam, se comunicam, constroem relações — e, por isso, acabam sendo vistos como pessoas que ‘não precisam de apoio’. Mas essa é uma leitura muito superficial. O fato de conseguir sustentar uma rotina não elimina o esforço que existe por trás dela", ressalta Júlia.

Júlia Rodt, Relações Públicas
Júlia Rodt, Relações Públicas | Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

Já Izabel compartilha um pouco de sua jornada profissional, marcada por alguns obstáculos.: "Sou uma profissional dedicada, porém não consigo fazer a mesma coisa por muito tempo. Trabalhei 16 anos na área da saúde e todos os anos pedia pra me mandarem embora, pois não conseguia render o que eu achava que poderia."

"Trocavam-me de função e eu sossegava um pouco. Com isso, fui aprendendo tudo de todas as áreas, mas tinham momentos em que eu não conseguia sair de casa", explica Izabel.

O TEA não tem rosto, não existe um “tipo” de pessoa autista. E isso não significa ausência. Para Júlia, que atualmente é coordenadora de vendas na BIC, o entendimento da condição ajudou a trilhar sua trajetória profissional até o momento.

"Apesar dos desafios, o autismo nunca foi um fator limitante para mim — principalmente no trabalho. Pelo contrário, sempre tive um perfil muito ativo, de liderança e protagonismo", conclui.

O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é essencialmente clínico e deve ser realizado por médicos. Os profissionais mais indicados são o neuropediatra (para crianças), o psiquiatra infantil ou o psiquiatra geral (para adultos), além de pediatras com experiência na área.

Psicólogos capacitados podem realizar a avaliação inicial e aplicar testes, mas o laudo final deve ser emitido e validado por um médico.

*Sob a supervisão do editor Pedro Moraes

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