
Com foco na prevenção da cegueira e no incentivo ao diagnóstico precoce de doenças oculares, a campanha Abril Marrom ganha destaque neste mês em todo o país. Criada para conscientizar a população sobre a importância dos cuidados com a visão ao longo de toda a vida, a iniciativa tem como pano de fundo dados preocupantes: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 2,2 bilhões de pessoas em todo o mundo vivem com algum grau de deficiência visual ou cegueira, sendo que em pelo menos 1 bilhão desses casos o problema poderia ter sido evitado com o tratamento adequado. No Brasil, mais de 6,5 milhões de pessoas enfrentam algum tipo de deficiência visual, de acordo com o IBGE.
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De acordo com o oftalmologista César Sampaio, coordenador do serviço de oftalmologia do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS) e membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, os cuidados com a visão devem começar logo nos primeiros dias de vida. “A visão é um dos sentidos mais essenciais à autonomia, à saúde física e ao bem-estar emocional. Qualquer perda, mesmo que parcial, pode comprometer profundamente a qualidade de vida de uma pessoa”, explica.
O especialista destaca a importância do teste do olhinho, exame realizado ainda na maternidade e capaz de identificar doenças graves como catarata congênita, glaucoma e retinoblastoma. “Mesmo que o exame esteja normal, é indicado que o bebê seja levado ao oftalmologista com 30 dias de vida. Depois disso, o ideal é manter o acompanhamento a cada seis meses até os dois anos de idade e, em seguida, anualmente até os dez”, orienta Sampaio.
Entre as doenças mais comuns na infância estão a ceratoconjuntivite alérgica e o ceratocone. Os pais devem estar atentos a sinais como olhos vermelhos, coceira frequente, desinteresse por brinquedos próximos, dificuldade escolar, desvio ocular ou aproximação excessiva de objetos como a TV ou o quadro da sala de aula.
Na adolescência e juventude, erros de refração, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, continuam sendo as principais causas de deficiência visual, que podem ser facilmente corrigidas com o uso de óculos adequados, desde que prescritos com base em exames detalhados. O ceratocone e doenças alérgicas que afetam a córnea também merecem atenção, além dos traumas oculares, que são frequentes e podem comprometer a visão permanentemente.

A partir dos 40 anos, a presbiopia, conhecida popularmente como “vista cansada”, passa a incomodar muitas pessoas. Nesta fase da vida também aumenta a incidência do glaucoma, doença silenciosa e progressiva que pode levar à cegueira irreversível se não for tratada. “Quando diagnosticado precocemente, o glaucoma pode ser controlado com colírios ou procedimentos cirúrgicos”, explica o oftalmologista.
Nos idosos, a catarata é a principal causa de cegueira reversível. A boa notícia é que o procedimento cirúrgico para sua correção tem altos índices de sucesso e está amplamente disponível. A degeneração macular relacionada à idade (DMRI), especialmente na forma úmida, também preocupa: afeta cerca de 30% da população com mais de 80 anos e requer tratamento contínuo. Já a retinopatia diabética, decorrente do diabetes mellitus, pode ser evitada ou controlada com diagnóstico precoce, controle glicêmico e, em casos mais avançados, com laser ou injeções intraoculares.
“A boa notícia é que os avanços tecnológicos estão transformando o cuidado oftalmológico. O uso da inteligência artificial tem proporcionado diagnósticos mais rápidos e eficientes, inclusive em ações de triagem populacional. Cirurgias de catarata estão mais precisas, e novas medicações ampliam o alcance do tratamento para retinopatia diabética e degeneração macular, inclusive em regiões mais afastadas”, afirma Sampaio.
O médico também alerta para sinais que pais e responsáveis devem observar em bebês e crianças, como reflexo branco nos olhos, especialmente visível em fotos; desvio ocular a partir dos três meses de idade ou antes, se for muito evidente; dificuldades na escola ou para enxergar objetos à distância; falta de interesse por brinquedos próximos ou dificuldade em localizar objetos pequenos; coceira e vermelhidão nos olhos, principalmente em crianças alérgicas; além da presença de doenças como asma, rinite ou enfermidades reumáticas, que podem afetar os olhos.
Por fim, o especialista reforça a importância de campanhas como o Abril Marrom para promover o acesso ao diagnóstico e estimular a prevenção. “Preservar a visão é preservar a independência, a saúde e a dignidade. A visão é a maior fonte de informação do ser humano, e sua perda compromete não só a saúde individual, mas também o desempenho econômico da sociedade”, finaliza.
A campanha também destaca o simbolismo do mês: abril é o mês do Dia Nacional do Braille, e a cor marrom foi escolhida por representar a tonalidade mais comum da íris entre os brasileiros.