Violência contra a mulher: saiba sinais de alerta, como reagir e mais

Delegada compartilha informações para auxiliar vítimas e prevenir novos casos

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Se ligue! - 19/03/2026, 08:00 - Dara Medeiros

Os índices de violência contra a mulher na Bahia são preocupantes. Em 2025, o estado registrou milhares de ocorrências nesse contexto, desde lesão corporal e ameaça ao próprio feminicídio. Para além das medidas dos órgãos de segurança pública e da necessidade de mudança da sociedade como um todo, algumas ações das próprias vítimas podem impedir que elas se tornem mais um número nas estatísticas.

Segundo a delegada Juliana Fontes, a atual diretora do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV), é preciso estar alerta para notar os primeiros sinais de que um relacionamento pode caminhar para um cenário abusivo. Quanto antes uma pessoa identificar que há algo de errado, mais rápido ela poderá escapar das garras de um possível agressor.

Milhares de mulheres não conseguiram se livrar dessa situação. Apenas no ano passado, a Polícia Civil da Bahia (PC-BA) registrou 102 feminicídios, sendo 11 deles em Salvador. Os principais tipos de ocorrências são: ameaça, com 25.251 registros; tentativa de feminicídio, com 260; importunação sexual, com 436; injúria, com 10.392; descumprimento de medida protetiva de urgência, com 4.396, e lesão corporal, com 14.570.

Confira o gráfico:

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Foto: Dara Medeiros

Os principais sinais de uma relação abusiva

A delegada Juliana Fontes orienta que as atitudes do parceiro devem ser analisadas desde o começo da relação. “Quando existe um controle, muitas vezes é um sinal de cuidado e para você tomar um alerta. Quando ele não permite você sair e quer saber para onde vai, que horas, com quem, não permite sair com a família e com os amigos, já é um sinal amarelo”, indica em entrevista exclusiva ao MASSA!.

Delegada Juliana Fontes atua há 25 anos na área
Delegada Juliana Fontes atua há 25 anos na área | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Um modo muito comum de agir entre homens abusivos é afastar as mulheres da rede de pessoas que poderia ajudá-las: “A pessoa costuma isolar a vítima para que ela fique somente ali com ele e não tenha contato com outros, e o ciúmes é excessivo também, de modo que você não pode vestir uma roupa, você não pode ir para um determinado lugar".

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Muitas mulheres sequer sabem que estão vivendo um relacionamento abusivo

“O medo é um fator também que já demonstra que precisa de ajuda, porque o relacionamento é para você ter paz, para ter amor, e quando tem um medo. Se você vive naquela situação de medo constante, não é para ficar na relação. E se teve uma agressão é sinal vermelho, porque as agressões tendem a se repetir, a serem cada vez mais graves, e fulminar com o feminicídio, que é o ápice, que é a ponta do iceberg da violência contra a mulher”, pontua ela.

Como reagir sendo vítima?

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Foto: Henrique Chendes/SES-MG

Não existe uma fórmula ou um padrão de reação da vítima que se sente presa em um relacionamento abusivo, mas é possível se preparar para romper o ciclo de violência e tomar as rédeas da própria vida.

“O conselho que eu dou é se acalmar. No caso de emergência, ligue 190 para que a polícia chegue lá de imediato no local. Ou então, se não for emergência, disque 180 ou 181 para denúncias ou procure uma delegacia especializada no atendimento à mulher, um núcleo especializado ou até uma delegacia territorial. Nós estamos prontos para acolher, para ouvir, para registrar e apurar o fato”, orientou a policial.

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Outro ponto importante é ter conhecimento sobre os tipos de violência, até para poder compreender se está sofrendo alguma. Muitas pessoas pensam que apenas agressões físicas podem ser denunciadas, mas violências psicológicas, sexuais, emocionais e patrimoniais também são crime.

“Antes a gente associava uma violência contra a mulher simplesmente com uma mancha roxa na pele e uma maquiagem que disfarçava, e a gente sabe que hoje está sendo muito difundido que a violência não é apenas a física, é a psicológica, que há um dano emocional, inclusive também a perícia de dano emocional, violência psicológica, violência sexual e violência patrimonial”, exemplifca a delegada.

Existem vários tipos de violência contra a mulher
Existem vários tipos de violência contra a mulher | Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Juliana ainda reflete que, nesses casos, o término é a solução mais indicada, ainda que haja sentimentos por parte da vítima ou até dependência financeira ou emocional. Um relacionamento não deve ser tratado como mais precioso do que a própria vida. É possível recomeçar:

“É melhor terminar para não ser mais um número, para não ser mais uma estatística, e entender que o fim da relação é um ciclo. Você tem que ter amor próprio, assim como o homem também tem que ter, para se amar e saber que aquele ciclo está encerrado. A vida tem amplas possibilidades, então não podemos atrelar apenas uma pessoa à nossa vida, à nossa existência”.

A luta contra essa onda de violência é um dever de todos

Todos devem ajudar o combate da violência contra a mulher
Todos devem ajudar o combate da violência contra a mulher | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Apesar dos números recentes sobre violência contra a mulher terem diminuído em comparação aos índices de anos anteriores, eles continuam altos. Para a diretora do CPMCV, um fator que tem chamado atenção nesses casos é que os crimes estão cada vez mais violentos e com aspectos de crueldade.

“O que a gente está vendo hoje em dia é que os atos que estão sendo praticados pelos autores com mais requintes de crueldade. A gente vê cada dia uma mulher morrendo, sendo assassinada, e cada vez de uma forma mais comovente socialmente, com facadas, pauladas. As nossas mulheres estão morrendo e nós precisamos nos aliarmos para combater”, declara a Dra. Juliana.

Ainda de acordo com a delegada, já não há um perfil de agressor relacionado a condições financeiras, bairro ou cor, pois a violência já se espalhou por todas as esferas da sociedade: “A violência contra a mulher é muito democrática, porque acontece em todas as classes sociais, a gente não tem como definir um padrão específico”.

Diante desse cenário, ela orienta que a população se una para apoiar as mulheres em situação de vulnerabilidade. O ideal é denunciar à polícia sendo ou não uma pessoa próxima da vítima. “Qualquer pessoa que ver uma situação de agressão já deve denunciar e qualquer mulher que for agredida deve sim comunicar o fato”, reforçou.

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A gente chama toda a sociedade, chama todos os homens, inclusive, para participarem assumirem esse compromisso no combate à violência contra a mulher e feminicídio

Ao fim da entrevista, a Dra. Juliana Fontes sugere que as pessoas não julguem as mulheres que não conseguem sair de relações tóxicas, porque isso complica ainda mais a situação delas enquanto vítimas. O certo é acolher dentro da sua possibilidade.

“Eu digo todos os dias que quem está do lado de fora é muito fácil julgar, apontar o dedo, falar que aquela mulher não deveria estar ali, que deveria sair, mas quando a gente julga, a gente cala muitas mulheres. Quando a gente estende a mão, a gente, sem dúvida, a gente salva vidas”, conclui.

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