Luta contra feminicídio ganha reforço com delegacia na Estação da Lapa

Vítimas podem registrar ocorrência, receber acolhimento e obter orientações

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Serviço - 16/03/2026, 06:00 - Dara Medeiros- Atualizado em 16/03/2026, 07:01

O crescimento avassalador no número de feminicídios e demais violências contra as mulheres no Brasil, nos últimos anos, pede medidas rápidas e eficazes dos órgãos competentes e de toda a sociedade. O cenário na Bahia também é alarmante, já que o estado registrou a morte de 17 mulheres nesse contexto apenas nos três primeiros meses de 2026. Para reforçar a luta contra essa onda de casos, a Polícia Civil instalou um posto na Lapa, no centro de Salvador.

Batizada como Projeto de Prevenção e Garantia de Direitos, a iniciativa tem como propósito promover ações informativas, realizar atendimento humanizado, registrar ocorrências com facilidade, oferecer orientações sobre direitos e canais de denúncia e, se necessário, direcionar para outras instituições.

A delegacia funciona nos dias de terça-feira e quinta-feira, entre às 9h e 15h, e fica localizada no 2ª piso da Estação da Lapa, em frente a redação do Jornal MASSA!, próximo aos quiosques de sorvete e pouco antes da entrada do Shopping Piedade.

Posto da Polícia Civil foi inaugurado na Estação da Lapa
Posto da Polícia Civil foi inaugurado na Estação da Lapa | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Para a delegada Juliana Fontes, que tem 25 anos de atuação na área, a presença da Polícia Civil em um local tão estratégico da capital baiana é de muita importância para alcançar ainda mais pessoas em situação de vulnerabilidade, que muitas vezes não conseguem buscar as delegacias nos bairros ou ter acesso aos canais de denúncia.

“A Polícia Civil, através do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV), fez esse projeto para ficar mais perto da população, para chegar mais perto de cada mulher, de cada vulnerável que está sendo vítima nesse momento. Então a Estação da Lapa é um local estratégico, porque é onde passam milhares de pessoas por dia”, explicou.

Como registrar uma denúncia na delegacia da Lapa?

A delegada Juliana Fontes, que também é diretora do DPMCV, detalhou o que é necessário para registrar uma denúncia na delegacia da Polícia Civil na Lapa.

“É sempre importante que a pessoa esteja com o seu documento, mas se não estiver com o documento, a gente tem maneiras também de fazer a nossa pesquisa policial e conseguir aquela identificação da vítima e não vai impedir o registro. Também é importante trazer o nome de testemunhas, se houver alguma prova já traz logo, sejam mensagens, vídeos, fotos, prontuário médico de atendimento, enfim, o que você tiver”, disse ela.

Denúncias podem ser registradas diretamente da Lapa, com atendimento humanizado
Denúncias podem ser registradas diretamente da Lapa, com atendimento humanizado | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Outra ação indicada é compartilhar os registros de agressão, ameaça e outras formas de violência com uma pessoa de confiança, seja familiar ou um amigo, para garantir que o material não será perdido ou destruído pelo agressor e possa ser incluído no inquérito policial, facilitando que o criminoso seja penalizado corretamente.

Aspas

Muitas mulheres sofrem sozinhas durante 7 a 10 anos, que é o período para sair de um ciclo de violência, e outras até uma vida toda

Após a denúncia ou a orientação, é possível ser direcionada para o atendimento especializado para receber auxílio psicológico e social. Como muitas mulheres vítimas de violência doméstica dependem financeiramente e emocionalmente dos parceiros, além de temerem o processo de recomeçar a vida sozinhas ou cuidando dos filhos, esse apoio faz total diferença para elas.

“Eu digo todos os dias que não basta apenas a polícia fazer a repressão, porque a gente pune um agressor, prende o agressor, e aquela mulher, em que situação ela vai ficar? Então a gente encaminha para a rede, para que ela possa ter um atendimento jurídico, um atendimento social e psicológico, a questão da empregabilidade. A rede toda precisa funcionar de uma forma conjunta e é esse trabalho que a gente pretende fazer aqui”, declarou Dra. Juliana Fontes.

Outros tipos de vulnerabilidade também podem ser denunciados no posto

Delegada Juliana Fontes, diretora do DPMCV
Delegada Juliana Fontes, diretora do DPMCV | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Além do atendimento para mulheres, o Projeto de Prevenção e Garantia de Direitos também atende outras pessoas em situação de vulnerabilidade. Sendo assim, casos envolvendo preconceito racial, religioso e de gênero, violência contra grupos minoritários, exploração infantil, abandono ou maltrato de idosos e situações semelhantes podem ser acolhidos no local.

“O nosso departamento, como diz o nome, é Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis. Nós atendemos as mulheres, as crianças, adolescentes, idosos, casos de racismo, intolerância racial, população LGBTQIAPN+, enfim, todos os vulnerabilizados”, informou a delegada.

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Por que temos tantos casos de feminicídio?

Durante o ano passado, o Brasil registrou 4.755 tentativas de feminicídio e 2.149 assassinatos consumados. Os dados, que foram divulgados pelo Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), apontam que quase seis mulheres foram mortas por dia no país.

Casos de feminicídio preocupam o Brasil
Casos de feminicídio preocupam o Brasil | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Segundo a delegada Juliana Fontes, os casos de feminicídio na Bahia reduziram em comparação aos anos de 2023 e 2024, mas o número de mortes continua sendo alarmante. Além disso, ela revelou que a Casa da Mulher Brasileira registrou aproximadamente mil ocorrências somente em janeiro deste ano, então outras violências estão ocorrendo com alta frequência.

“Quando a gente fala em feminicídio, a Bahia diminuiu os números. Em 2023 tivemos 115, em 2024 nós tivemos 110 feminicídios, mas esse ano nós já estamos com 17 feminicídios. Então, embora tenhamos reduzido, são números ainda que precisam cair, que mexem conosco em todos os momentos e que demandam uma ação da Polícia Civil e da sociedade, de todos”, destacou.

Confira o gráfico ilustrativo:

Imagem ilustrativa da imagem Luta contra feminicídio ganha reforço com delegacia na Estação da Lapa
Foto: Dara Medeiros/Portal Massa!

Para a diretora do DPMCV, o aumento significativo nos registros não está ligado apenas ao crescimento da violência e à dificuldade de romper com a cultura machista, mas ao próprio acesso das vítimas aos seus direitos, aos serviços de segurança e também ao conhecimento de que agressões verbais, patrimoniais e psicológicas são tão graves quanto as agressões físicas.

“O número de registros tem aumentado porque as mulheres hoje estão sabendo mais o que é a violência, estão sabendo a ter confiança também na nossa Polícia Civil, estão procurando mais a instituição e fazendo seus registros”, opinou ela.

Onde pedir socorro?

Em caso de situações de emergência, o correto é ligar para a polícia, no número 190. Em outros tipos de violência, o indicado é discar 180 para falar com a Central de Atendimento à Mulher ou 181, que é o Disque Denúncia geral.

Também é possível receber ajuda pessoalmente indo para uma Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, um Núcleo Especializado ou, caso não haja na localidade em que a vítima mora, é possível registrar a ocorrência em uma Delegacia Territorial (DT).

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