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Escala 6x1: o que outras viradas trabalhistas fizeram com o Brasil

Do corte de horas em 1988 à Reforma Trabalhista, país já passou por grandes mudanças

Mudanças trabalhistas já impactaram profundamente o país
Mudanças trabalhistas já impactaram profundamente o país |  Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Mudanças na rotina dos trabalhadores já existem desde a Constituição de 1988. Nesta quarta-feira (14), o Senado aprovou o fim da escala 6x1 e a redução da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem corte no salário.

A proposta prevê dois dias de descanso por semana e uma transição gradual na carga horária. A mudança reacendeu um velho debate no país: o que acontece com emprego, salários e economia quando as regras trabalhistas mudam?

Essa não é a primeira vez que o Brasil passa por uma transformação desse tamanho. Da redução da jornada em 1988 à Reforma Trabalhista de 2017, outras mudanças também vieram cercadas de previsões sobre demissões, custos e criação de vagas.

O que muda com o fim da 6x1?

Atualmente, a Constituição permite uma jornada de até oito horas por dia e 44 horas semanais. Na prática, isso permite que trabalhadores cumpram expediente durante seis dias e tenham apenas um de folga.

Com a mudança aprovada pelo Senado, o trabalhador passa a ter direito a dois dias de repouso remunerado por semana, sendo um deles preferencialmente aos domingos.

A jornada também será reduzida gradualmente. Primeiro, o teto cairá para 42 horas semanais. Depois, chegará às 40 horas, mantendo o salário.

Dados do Ministério do Trabalho apontam que cerca de 14,8 milhões de trabalhadores formais estavam em jornadas de seis dias por semana em 2025. Comércio, alimentação, hospedagem e serviços estão entre os setores mais atingidos.

Brasil já reduziu jornada antes

A Constituição de 1988 promoveu uma mudança parecida. Na época, a jornada máxima semanal caiu de 48 para 44 horas.

A nova Carta também estabeleceu limite de oito horas diárias, ampliou a licença-maternidade, aumentou o adicional de hora extra e fortaleceu uma série de outros direitos trabalhistas.

Um estudo dos economistas Gustavo Gonzaga, Naércio Menezes Filho e José Márcio Camargo analisou os efeitos da redução da jornada sobre os trabalhadores atingidos pela mudança.

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Nos 12 meses seguintes, houve queda nas horas efetivamente trabalhadas e aumento do salário real por hora, sem crescimento significativo do desemprego entre o grupo analisado.

PEC das Domésticas ampliou direitos

Outra grande mudança veio em 2013, com a chamada PEC das Domésticas. A medida aproximou os direitos das trabalhadoras domésticas daqueles já garantidos a outras categorias.

A jornada passou a ser limitada a oito horas diárias e 44 semanais, além do direito ao pagamento de hora extra.

Dois anos depois, a regulamentação também tornou obrigatório o FGTS e garantiu direitos como adicional noturno e seguro-desemprego.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) encontrou aumento da formalização entre empregadas domésticas mensalistas e redução da jornada depois da mudança.

Mesmo assim, a informalidade continuou sendo um problema forte no setor, principalmente com o avanço do trabalho como diarista.

Informalidade seguiu predominando no setor, mesmo com a PEC das Domésticas
Informalidade seguiu predominando no setor, mesmo com a PEC das Domésticas | Foto: Pedro França/Agência Senado

Reforma Trabalhista mudou as regras em 2017

Se algumas mudanças anteriores ampliaram direitos, a Reforma Trabalhista de 2017 teve como principal foco flexibilizar as relações de trabalho.

A legislação criou o trabalho intermitente, ampliou possibilidades de negociação entre empresas e trabalhadores, alterou regras de banco de horas e acabou com a contribuição sindical obrigatória.

Naquele ano, o Brasil enfrentava uma taxa média de desemprego de 12,7%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O índice caiu para 12,3% em 2018 e 11,9% em 2019. No mesmo período, porém, a informalidade chegou a 41,1% dos trabalhadores ocupados.

A mudança foi mais evidente na Justiça do Trabalho. O número de novas ações caiu de cerca de 2,6 milhões, em 2017, para aproximadamente 1,7 milhão em 2018.

O trabalho intermitente também ganhou espaço. Dados da Rais mostram que o Brasil terminou 2025 com quase 540 mil vínculos desse tipo.

Reforma Trabalhista foi sancionada em 2017, no então governo de Michel Temer
Reforma Trabalhista foi sancionada em 2017, no então governo de Michel Temer | Foto: Beto Barata/Presidência da República

Novo cenário tem desemprego baixo

O fim da escala 6x1 chega em um momento diferente daquele vivido durante a Reforma Trabalhista.

No trimestre encerrado em agosto de 2026, a taxa de desemprego ficou em 5,3%, segundo o IBGE, uma das menores da série histórica da Pnad Contínua.

O rendimento médio real chegou a R$ 3.777.

O emprego formal também cresceu. Entre janeiro e agosto, o país abriu saldo superior a 1,1 milhão de vagas com carteira assinada e alcançou cerca de 48,2 milhões de vínculos, segundo o Novo Caged.

A produtividade, entretanto, ainda avança em ritmo mais lento. Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) apontaram crescimento de 1% da produtividade por hora trabalhada no segundo trimestre de 2026.

Trabalhadores apoiam; empresas demonstram preocupação

A proposta tem forte apoio popular. Pesquisa Nexus divulgada em fevereiro mostrou que 73% dos brasileiros eram favoráveis ao fim da escala 6x1, desde que não houvesse redução dos salários.

Entre os empresários, a avaliação é diferente.

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que 73% das empresas industriais entrevistadas eram contrárias à redução obrigatória da jornada para 40 horas.

Entre as empresas contrárias, 85% afirmaram esperar aumento nos custos com funcionários.

A própria CNI estima que a redução da jornada pode aumentar os gastos das empresas caso seja necessário ampliar equipes ou pagar mais horas extras.

Os setores que funcionam durante praticamente toda a semana, como supermercados, bares, restaurantes, hotéis e parte do comércio, estão entre os que devem enfrentar maior reorganização das escalas.

O que aconteceu depois das outras mudanças?

O histórico brasileiro mostra efeitos diferentes em cada mudança.

A redução da jornada em 1988 diminuiu as horas trabalhadas sem provocar aumento significativo do desemprego.

A PEC das Domésticas ampliou direitos e aumentou a formalização entre mensalistas, mas não resolveu a alta informalidade do setor.

Já a Reforma Trabalhista alterou contratos, fortaleceu novas modalidades de contratação e derrubou o número de ações na Justiça, além de uma queda no número de desempregados.

Agora, o impacto do fim da escala 6x1 dependerá principalmente da adaptação das empresas, das novas contratações e do comportamento da produtividade e dos preços nos próximos anos.

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