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Entre cargos e fugitivos, entenda modus operandi da família Bolsonaro

Com décadas de atuação em cargos públicos, clã Bolsonaro acumula ataques às instituições

Família Bolsonaro acumula décadas em cargos políticos
Família Bolsonaro acumula décadas em cargos políticos |  Foto: Reprodução/Redes sociais

O discurso de enfrentamento ao sistema político acompanha a família Bolsonaro há anos. Mas, enquanto atacam instituições, questionam eleições e acusam o Judiciário de perseguição, Jair Bolsonaro e seus filhos construíram carreiras que somam décadas ocupando cargos públicos. Agora, com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixando o Brasil após a derrota presidencial, a trajetória da família volta aos holofotes.

Nesta terça-feira (27), a agência Reuters confirmou, por meio de um aliado e de uma fonte do governo norte-americano, que Flávio seguiu para os Estados Unidos. A saída aconteceu após o senador descumprir uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que ordenou a entrega de seus passaportes e o proibiu de deixar o país.

O episódio não é o primeiro envolvendo a ida de um Bolsonaro aos Estados Unidos em um momento de crise política. Jair e Eduardo Bolsonaro também deixaram o Brasil, embora em circunstâncias jurídicas diferentes. Entre derrotas eleitorais, investigações e condenações, os três passaram a protagonizar episódios que colocaram suas relações com a Justiça no centro do debate público.

De pai para filho

A história remete a dezembro de 2022, quando Jair Bolsonaro, derrotado por Lula (PT) na disputa pela reeleição, embarcou para os Estados Unidos dois dias antes de terminar seu mandato. O então presidente deixou o país sem participar da posse do sucessor e sem realizar a tradicional passagem da faixa presidencial.

Bolsonaro permaneceu em território norte-americano por três meses e só retornou ao Brasil em 30 de março de 2023. Naquele momento, a viagem não descumpria uma proibição judicial de saída do país, diferentemente do que ocorre agora com Flávio.

Jair Bolsonaro é o líder do clã Bolsonaro
Jair Bolsonaro é o líder do clã Bolsonaro | Foto: Joedson Alves/Agência Brasil

Durante depoimento ao STF, em junho de 2025, o ex-presidente explicou por que se recusou a entregar a faixa a Lula:

“Eu não ia me submeter à maior vaia da história do Brasil. Não passei porque não ia me submeter a passar a faixa para esse atual mandatário aí do Brasil”.

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A trajetória de Jair, no entanto, acabou marcada por uma condenação criminal. Em setembro de 2025, o STF o condenou a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à trama golpista, incluindo tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Atualmente, ele cumpre pena em prisão domiciliar humanitária.

Eduardo saiu do país e acabou perdendo o mandato

Outro integrante da família que seguiu para os Estados Unidos foi Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Em março de 2025, o então deputado federal deixou o Brasil e passou a atuar politicamente no exterior, defendendo sanções norte-americanas contra autoridades brasileiras.

A permanência fora do país teve consequências para sua carreira. Em dezembro de 2025, Eduardo perdeu o mandato de deputado federal por excesso de faltas às sessões da Câmara.

Em junho de 2026, o STF o condenou a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, devido à articulação de sanções contra o Brasil para pressionar o Judiciário no julgamento do pai. Em outubro, Moraes determinou a expedição de um mandado de prisão contra o ex-parlamentar, que continua nos Estados Unidos.

Poucos dias antes do segundo turno de 2026, Eduardo já defendia que o irmão seguisse o mesmo caminho caso fosse derrotado por Lula.

“Se meu irmão não vencer, sou favorável a que ele deixe o país”, declarou, em entrevista ao comentarista norte-americano Steven Crowder, no dia 23 de outubro.

Eduardo Bolsonaro está ‘autoexilado’ nos Estados Unidos
Eduardo Bolsonaro está ‘autoexilado’ nos Estados Unidos | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Flávio repete caminho após derrota eleitoral

A situação de Flávio ganhou força depois do resultado das eleições de domingo (25). Derrotado por Lula, o senador anunciou que não reconheceria o resultado e que buscaria a anulação da votação, alegando irregularidades na prorrogação do horário de funcionamento de algumas seções eleitorais.

“É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições”, afirmou.

A decisão de ampliar o horário, entretanto, havia atendido a pedidos apresentados pelas duas campanhas, inclusive a de Flávio. Na segunda-feira (26), o próprio PL, presidido por Valdemar Costa Neto, reconheceu oficialmente a vitória de Lula.

No mesmo dia, Flávio foi intimado a entregar os passaportes em uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O senador negou irregularidades, classificou a decisão como uma tentativa de intimidação e afirmou que permaneceria no Brasil.

“Vou entregar os meus passaportes e me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar. Mas ninguém vai me calar”, declarou.

Menos de 24 horas depois, a Polícia Federal cancelou os documentos porque a determinação não havia sido cumprida. Apesar da confirmação jornalística de sua saída do Brasil, Flávio ainda não era considerado juridicamente foragido até a última atualização, pois não havia mandado de prisão expedido contra ele.

Flávio Bolsonaro fugiu do país e está a caminho dos Estados Unidos
Flávio Bolsonaro fugiu do país e está a caminho dos Estados Unidos | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Contra o sistema, mas há décadas dentro dele

A relação da família com a política institucional também chama atenção pela longevidade. Jair Bolsonaro iniciou sua carreira como vereador do Rio de Janeiro, em 1989. Depois, passou 28 anos como deputado federal, entre 1991 e 2018, antes de assumir a Presidência da República, em 2019.

Flávio seguiu os passos do pai. Desde 2003, ocupa cargos eletivos, tendo exercido quatro mandatos de deputado estadual no Rio de Janeiro antes de ser eleito senador em 2018. Com a derrota presidencial e o fim de seu mandato no Senado, em janeiro de 2027, ficará sem cargo eletivo pela primeira vez em 24 anos.

A presença da família na política não termina nos dois. Eduardo foi deputado federal entre 2015 e 2025, enquanto Carlos Bolsonaro exerceu sete mandatos consecutivos como vereador do Rio, de 2001 a 2025. Em outubro deste ano, Carlos foi eleito senador por Santa Catarina, com posse prevista para fevereiro de 2027.

Carlos Bolsonaro se tornou senador por Santa Catarina
Carlos Bolsonaro se tornou senador por Santa Catarina | Foto: Renan Olaz/CMRJ

Já Jair Renan Bolsonaro ocupa uma cadeira na Câmara Municipal de Balneário Camboriú, também em Santa Catarina, desde 2025.

Jair Renan é vereador em Balneário Camboriú
Jair Renan é vereador em Balneário Camboriú | Foto: Reprodução/Instagram

Ataques às instituições e condenação por golpe

Apesar da longa trajetória em cargos públicos, os confrontos de Jair Bolsonaro com o Judiciário e o sistema eleitoral não começaram recentemente. Em 7 de setembro de 2021, quando ainda era presidente, ele fez um discurso na Avenida Paulista em que atacou Alexandre de Moraes e anunciou que deixaria de cumprir suas decisões.

“Dizer a vocês que qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou”, declarou diante dos apoiadores.

Em 2022, Bolsonaro voltou a questionar a segurança das urnas eletrônicas, sem apresentar provas de fraudes. No ano seguinte, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o declarou inelegível por oito anos, após reconhecer abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em uma reunião com embaixadores estrangeiros.

Os episódios ajudam a contextualizar uma contradição frequentemente apontada no debate político: integrantes da família fazem críticas recorrentes ao funcionamento das instituições, mas construíram suas carreiras por meio de eleições e mandatos garantidos por essas mesmas instituições.

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