
Da “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) ao Banco Master, passando por negócios imobiliários, uma loja de chocolates, homenagens a um homem posteriormente apontado como chefe de milícia e até uma tentativa de sociedade envolvendo uma fábrica de sabão em pó de Feira de Santana. A trajetória de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, acumula episódios que ganharam as páginas policiais e políticas do país ao longo dos últimos anos.
Um levantamento feito pelo MASSA! mostra que parte dessas histórias terminou arquivada, outras segue cercada de questionamentos e há ainda denúncias recentes que chegaram no meio da campanha presidencial de 2026.
O caso das “rachadinhas”
A história explodiu após movimentações financeiras de Fabrício Queiroz, antigo assessor de Flávio na Alerj, entrarem na mira dos órgãos de controle. Em 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio sob acusação de liderar uma organização criada para recolher parte dos salários de funcionários do gabinete enquanto ele era deputado estadual.
Na denúncia, o MP atribuiu ao parlamentar crimes como peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e apropriação indébita. Segundo os promotores, dinheiro recolhido de assessores teria sido usado para bancar despesas pessoais e movimentações patrimoniais. Flávio sempre negou envolvimento no esquema.
O processo, entretanto, não chegou a um julgamento de mérito. Em 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) anularam provas consideradas obtidas de maneira irregular. No ano seguinte, a própria Procuradoria pediu o encerramento da denúncia diante da impossibilidade de usar parte do material, e o Tribunal de Justiça do Rio arquivou o caso.
Dinheiro vivo, imóveis e chocolate
Dentro daquela investigação, outro ponto chamou bastante atenção: a movimentação patrimonial do então deputado.
Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo em março deste ano com base nos documentos da investigação, a Procuradoria identificou ao menos R$ 977 mil em despesas sem origem comprovada no período analisado entre 2010 e 2014. Também foram encontrados depósitos em espécie nas proximidades de pagamentos relacionados à aquisição de imóveis.
Uma das operações envolveu dois apartamentos em Copacabana. Eles haviam sido comprados pelos antigos proprietários por R$ 440 mil, vendidos a Flávio por R$ 310 mil e, aproximadamente dois anos depois, revendidos pelo parlamentar por R$ 1,12 milhão. A movimentação foi investigada pelo MP-RJ sob suspeita de pagamentos não registrados oficialmente.
Outra frente da investigação chegou à Bolsotini Chocolates e Café, empresa de Flávio e Alexandre Santini que administrava uma franquia da Kopenhagen no Rio. O MP chegou a apontar indícios de que recursos em dinheiro vivo poderiam ter sido inseridos no faturamento da loja para dar aparência lícita aos valores.
Essas suspeitas faziam parte do conjunto investigativo posteriormente afetado pelas decisões que anularam provas do caso da “rachadinha”.

Homenagem e empregos para família de miliciano
Outro capítulo que persegue Flávio envolve Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope posteriormente apontado pelo Ministério Público como uma das lideranças do grupo conhecido como Escritório do Crime.
Quando ainda era deputado estadual, Flávio apresentou uma proposta para conceder a Adriano a Medalha Tiradentes, maior honraria da Alerj. O detalhe que tornou a história nacionalmente conhecida é que Adriano estava preso, acusado de homicídio, quando recebeu a medalha em 2005. Ele seria absolvido posteriormente daquele processo. Anos depois, passou a ser investigado por suspeita de comandar uma milícia na zona oeste do Rio.
A relação não parou na homenagem. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, mãe e esposa de Adriano, respectivamente, foram empregadas no gabinete de Flávio.
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Danielle trabalhou para o parlamentar de 2007 a 2018. Raimunda entrou no gabinete em 2016 e também permaneceu até 2018. Segundo a investigação do MP-RJ, as duas apareceram nas apurações sobre o suposto esquema de devolução de salários.
Flávio negou participação em qualquer esquema e afirmou neste ano que Fabrício Queiroz tinha autonomia sobre parte da equipe do gabinete e que jamais autorizou cobrança de salários dos funcionários.
Polêmica na Bahia
No meio desse histórico existe uma conexão pouco lembrada com a Bahia, mais precisamente com Feira de Santana.
A Espumil é uma indústria de sabões e detergentes instalada no bairro do Subaé, às margens da BR-324. A empresa, cuja razão social é JFM Indústria e Comércio Ltda., está ativa desde 1997 e continua sediada em Feira.
O elo entre a Espumil com Flávio surgiu através de outra empresa. Em junho de 2019, já senador, ele passou a integrar a Kryafs Participações, Empreendimentos e Investimentos Ltda. A sociedade foi criada com a intenção de instalar no Rio de Janeiro uma fábrica de sabão em pó ligada à Espumil.
No contrato da Kryafs, Flávio não apareceu apenas como investidor. Ele declarou possuir direitos de representação comercial da Espumil e atribuiu R$ 500 mil a essa participação no negócio.
No entanto, o então sócio-diretor da Espumil, João Paulo Dantas, deu uma versão bem diferente.
Em entrevista à Folha na época, Dantas afirmou que nunca assinou contrato dando a Flávio poderes para representar comercialmente a fabricante de Feira. Segundo ele, quem já atuava como representante da Espumil no Rio era o empresário Fábio Mariz, amigo de Flávio e também integrante do projeto.
Dantas relatou ainda ter sofrido pressão de Mariz para aceitar a entrada do senador no empreendimento. Diante da situação e das investigações que atingiam Flávio naquele momento, decidiu abandonar as negociações.
“Não quero meu nome nem minha marca envolvida com político que tenha alguma coisa de errado”, afirmou Dantas à época.
Flávio declarou, por meio de nota, que o projeto da sociedade não havia se concretizado e que a empresa seria encerrada. A Kryafs acabou baixada posteriormente.

Banco Master e o “Dark Horse”
Décadas depois do começo das polêmicas na Alerj, Flávio voltou ao centro de polêmicas em 2026 por causa de sua proximidade com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Conversas divulgadas durante o ano indicaram que Flávio participou diretamente das tratativas para conseguir dinheiro de Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
O valor negociado com Vorcaro chegaria a R$ 134 milhões. Cerca de R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos à produção. Mensagens mostraram Flávio cobrando parcelas do empresário.
O caso ganhou ainda mais peso político porque Flávio passou a usar o escândalo do Banco Master para atacar adversários e chegou a classificá-lo como um dos maiores esquemas bancários do país, ao mesmo tempo em que evitava mencionar publicamente sua própria relação com Vorcaro.
Em maio, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou uma apuração preliminar sobre emendas parlamentares destinadas a organizações ligadas à produtora responsável pelo filme. A investigação trata da possível utilização irregular de dinheiro público, sem significar, por si só, responsabilização criminal de Flávio Bolsonaro.
Rolex, festas e ex-sócio
Às vésperas do primeiro turno, outra bomba atingiu a campanha. Documentos, fotos e mensagens guardados pelo empresário Alexandre Santini, antigo sócio de Flávio na loja de chocolates, foram divulgados pelo site PlatôBR.
O material indica que pessoas próximas a Flávio teriam bancado despesas pessoais e presentes de alto valor. Entre eles estaria um Rolex Submariner Date de ouro branco de R$ 305 mil, adquirido pelo advogado Alan Belaciano. Também aparecem registros de equipamentos de academia avaliados em cerca de R$ 90 mil.
O acervo também contém mensagens e fotografias que, segundo as reportagens, associam Flávio a festas com garotas de programa e mencionam uma suposta interlocução do senador com o ministro Kassio Nunes Marques, do STF, em interesse de um cliente ligado ao grupo.

