
O candidato Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno da eleição presidencial na liderança, com 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos. Lula (PT) ficou em segundo, com 45,16%. Os dois voltam às urnas no dia 25 de outubro para decidir quem comandará o Brasil pelos próximos quatro anos.
Apesar da força eleitoral de Flávio, o histórico de entregas nacionais, porém, está longe de acompanhar os mais de 56 milhões de votos conquistados neste domingo (4).
Aos 45 anos, Flávio acumula 23 anos de vida política. Foram 16 anos como deputado estadual no Rio de Janeiro e quase oito no Senado. Apesar do longo currículo, nunca ocupou um cargo no Executivo e chega à reta final da disputa pelo Palácio do Planalto sem experiência na administração de uma prefeitura, governo estadual ou ministério.
Pouca entrega em Brasília
O Senado foi a primeira oportunidade de Flávio para apresentar projetos diretamente voltados para todo o país. Os resultados, no entanto, foram modestos.
Levantamento feito pelo MASSA! com dados oficiais da Casa identificou 62 propostas apresentadas pelo parlamentar como autor principal durante sete anos de mandato. Até maio deste ano, apenas duas haviam sido aprovadas pelo Senado e nenhuma tinha virado lei.
Entre 54 senadores que começaram seus mandatos em 2019, Flávio apareceu apenas na 47ª posição em número de projetos próprios aprovados.
O contraste ganha peso porque o senador agora pede ao eleitor o comando de toda a máquina federal.
Das duas propostas aprovadas no Senado, uma destina recursos de loterias a uma instituição de reabilitação e outra trata da reciclagem de baterias de carros elétricos. Ambas ainda dependiam da Câmara para se transformar em norma.
As leis nacionais que tiveram participação de Flávio como coautor também são poucas. Duas propostas assinadas por ele entraram em vigor: a isenção de IPVA para veículos com mais de 20 anos e uma medida de estímulo ao microcrédito. Em nenhum dos dois casos ele foi o autor principal.
Nem na principal bandeira
Segurança pública acompanha Flávio desde o início da carreira e ocupa o centro de sua campanha presidencial.
Mesmo assim, das 62 propostas próprias analisadas em seu mandato no Senado, 32 eram ligadas à segurança e nenhuma havia sido aprovada até maio.
Entre elas estavam projetos para aumento de penas, mudanças na maioridade penal e ampliação de hipóteses de exclusão de ilicitude.
Ou seja, em mais de sete anos no Congresso, Flávio não conseguiu aprovar um projeto próprio sequer justamente na área que apresenta como sua principal especialidade política.
O senador teve atuação como relator e articulador em outras pautas, incluindo a lei que restringiu as chamadas “saidinhas” de presos. A atuação, no entanto, não muda o dado sobre sua produção legislativa própria.

Dinheiro mostra prioridades
O destino das emendas parlamentares também ajuda a revelar quais setores receberam atenção de Flávio quando ele teve recursos para distribuir. Desde 2020, o senador indicou aproximadamente R$ 364 milhões em emendas.
Segurança pública recebeu R$ 70,9 milhões e defesa nacional ficou com R$ 79,5 milhões. Flávio foi o senador que mais indicou recursos para defesa e o segundo que mais direcionou verba para segurança pública no período analisado.
Para educação, porém, foram apenas R$ 2,9 milhões, o equivalente a 0,8% do total.
Agricultura não recebeu emenda. Ciência e tecnologia também não. O mesmo aconteceu com habitação, transporte, cultura e energia.
A diferença chama atenção porque todas essas áreas aparecem agora entre os temas que Flávio pretende administrar como presidente.
Até a saúde, que recebeu R$ 185,5 milhões, ficou praticamente no piso obrigatório. O senador destinou 50,8% das emendas à área, enquanto a legislação exige pelo menos 50%.
Na prática, fora segurança e defesa, o histórico de distribuição de recursos mostra pouca prioridade para uma série de setores fundamentais para o desenvolvimento nacional.
23 anos, mas sem gestão pública
Outro ponto pesa quando a comparação deixa o Legislativo e chega ao cargo que Flávio pretende assumir.
Em mais de duas décadas na política, ele nunca administrou diretamente uma estrutura pública do Executivo.
Nunca foi prefeito. Nunca foi governador. Nunca comandou ministério.
Sua trajetória se resume a quatro mandatos como deputado estadual e um mandato no Senado.
Caso vença no dia 25, portanto, sua primeira experiência no Executivo será justamente à frente da Presidência da República.
Leia Também:
O cargo envolve administrar orçamento de trilhões de reais, ministérios, políticas de saúde, educação, infraestrutura, defesa, relações exteriores, programas sociais e milhares de órgãos e estruturas federais.
Para quem está na política desde 2003, Flávio chega perto do Planalto com bastante experiência eleitoral, mas nenhuma experiência direta comandando uma administração pública.
Promessas aumentaram; histórico não acompanhou
O plano apresentado nesta eleição é muito mais amplo que a atuação construída pelo senador nas últimas duas décadas.
Flávio promete mudanças na educação, saúde, economia, agricultura, infraestrutura, habitação, ciência, segurança e gestão pública.
Entre as propostas estão corte de pelo menos dez ministérios, redução de cargos comissionados, nova regra fiscal, privatizações, ampliação do ensino técnico, mudanças no financiamento estudantil, escolas cívico-militares, endurecimento de penas e redução da maioridade penal.
Na economia, por exemplo, promete um forte ajuste das contas públicas. A questão é que candidatos, incluindo Flávio, chegaram ao fim do primeiro turno defendendo cortes e mudanças fiscais sem explicar integralmente como pretendem fazer a conta fechar. O salto entre histórico e promessa é considerável.
Na educação, Flávio agora apresenta um projeto nacional após destinar somente 0,8% de suas emendas ao setor.
Defende inovação e inteligência artificial depois de não direcionar emendas individuais para ciência e tecnologia no levantamento analisado.
Promete políticas para o campo após não destinar recursos de suas emendas à agricultura.
E coloca segurança no centro da campanha depois de passar sete anos no Senado sem conseguir aprovar um dos 32 projetos próprios apresentados sobre o tema.
Voto não apaga currículo
Flávio saiu das urnas neste domingo maior do que entrou. Venceu o primeiro turno, colocou o PL no centro da política nacional e chega ao dia 25 com chances reais de assumir a Presidência.
Mas os 56 milhões de votos não alteram os números dos últimos 23 anos.
O candidato que hoje promete administrar praticamente todas as áreas do país construiu uma carreira concentrada principalmente na segurança pública, não conseguiu transformar projeto próprio em lei federal durante os primeiros sete anos no Senado, aparece entre os últimos colocados na comparação de propostas próprias aprovadas e nunca administrou diretamente uma estrutura do Executivo.
Em setores como educação, ciência, agricultura, habitação e transporte, seu histórico parlamentar oferece poucos exemplos concretos das prioridades que agora aparecem no plano de governo.

