23º Salvador, Bahia
previsao diaria
Facebook Instagram
WHATSAPP
Receba notícias no WhatsApp Entre no grupo do MASSA!
Home / Polícia

Ao ar livre - 09/07/2026, 06:00 - Jaísa de Almeida

'Sexta do Ifode': Parque da Cidade, em Salvador, vira ponto de sexo entre homens

Conversas em aplicativo revelam como participantes articulam encontros

Conversas obtidas pelo MASSA! mostram troca de conteúdos íntimos
Conversas obtidas pelo MASSA! mostram troca de conteúdos íntimos |  Foto: Uendel Galter/Ag. A Tarde

Gemidos abafados entre a vegetação, movimentação fora do habitual na trilha e encontros combinados pela internet. Com as chamadas “Segunda Hot” e “Sexta do Ifode”, um grupo de WhatsApp passou a reunir homens interessados em manter relações sexuais ao ar livre em plena luz do dia e transformar o Parque da Cidade Joventino Silva, na Avenida Antônio Carlos Magalhães (ACM), no bairro do Itaigara, em Salvador, no principal ponto de encontro íntimo.

Segundo a denúncia enviada ao MASSA!, os encontros passaram a acontecer também em áreas frequentadas por crianças que brincam no local, ciclistas e pessoas que utilizam o parque para lazer, caminhadas e atividades físicas. Antes restritos a pontos mais isolados, os episódios agora também são registrados em um trecho próximo à pista de skate, em uma área cercada por mato.

O relato foi narrado por uma fonte que trabalha nas proximidades e frequenta o Parque da Cidade regularmente. Conforme descreve, embora os encontros ocorram ao longo de toda a semana, há dias em que a movimentação é mais intensa, ou seja, com número maior de participantes.

Localidade é utilizada para sexo entre homens
Localidade é utilizada para sexo entre homens | Foto: Uendel Galter/Ag. A Tarde

"Tem segunda e sexta como principais dias de encontros, mas durante os demais também acontece [...] Alguns se concentram na pista e sobem para a trilha, mas não fazem só no mato 'escondido', fazem na ladeira que dá acesso à trilha e à pista de skate", conta à reportagem.

Além do impacto para quem utiliza o espaço público, a situação também pode ter consequências legais. A advogada criminalista Daniela Portugal explica à reportagem que, mesmo quando há consentimento entre os envolvidos, a prática de relações sexuais em locais públicos pode caracterizar o crime de ato obsceno. Nesses casos, a pena prevista varia de multa a detenção de três meses a um ano, muitas vezes em regime aberto ou semiaberto.

Daniela é advogada criminalista
Daniela é advogada criminalista | Foto: Arquivo pessoal

"É um crime que tutela o pudor público, né? Ele está inserido no Capítulo VI do título referente aos crimes contra a dignidade sexual, que cuida do ultraje público ao pudor. O ato obsceno é um crime que consiste na conduta de praticar um ato obsceno em um local público, em um local aberto ou em um local exposto ao público", esclarece.

Enquanto a legislação prevê punição para esse tipo de conduta, nas palavras do denunciante, a presença de outros visitantes não impede que as relações ocorram. Conforme o relato, a movimentação costuma aumentar a partir das 16h, mas as cenas podem ser presenciadas em diferentes horários, situação que tem levado parte do público a evitar o local.

"Em qualquer horário acontece, mas principalmente a partir das 16h. Quem corre, malha ali, já viu cenas. Já estamos deixando de subir e usar a área porque sempre é possível flagrar alguém fazendo. E não se sentem incomodados ao perceber pessoas próximas.", narra.

Leia Também:

O desconforto provocado pela situação também é compartilhado por quem passa boa parte do dia no local. Durante a apuração, a reportagem conversou com um ambulante que trabalha no parque há 36 anos. Para ele, episódios que antes eram vistos como casos raros, agora, fazem parte da rotina de quem convive diariamente no espaço.

“Faz até nojo, causa vergonha. Eu também tenho filho. E a gente fica vendo essas cenas aqui. Eles deviam ir para um lugar mais próprio, para ficar à vontade. Mas fica tudo aqui, no meio aberto, sabe como é? Aí passa criança, fica vendo aquelas cenas, e fica uma coisa assim desagradável”, afirma.

Preservativos espalhados pela trilha

Os relatos levaram a reportagem até o ponto indicado pelos frequentadores para verificar o que acontecia na prática. Para chegar ao local, é preciso percorrer praticamente toda a extensão do parque até a pista de skate. Ao lado dela, existe uma pequena trilha que leva à área de mata.

Foi nesse trecho que a reportagem encontrou outro indício citado nas denúncias: lubrificantes; lenços umedecidos; além de dezenas de embalagens de preservativos descartadas no chão — a maioria da marca TEX — modelo texturizado, que possui relevos ou estrias para aumentar a estimulação e o prazer sexual.

Preservativos ficam espalhados pelo local
Preservativos ficam espalhados pelo local | Foto: Jaísa de Almeida/Ag.A Tarde

Segundo o denunciante, este cenário não foi observado apenas uma vez. Ele reforça que encontrou preservativos descartados pela trilha quando levou amigos do interior da Bahia para conhecer o parque e diz acreditar que o "point da pegação" reúne homens de diferentes faixas etárias.

"Tem idosos, mas têm rostos jovens também. O chão fica repleto de preservativos. No dia em que fui com amigos do interior, que queriam conhecer a área, andando, a gente viu", complementa.

Preservativos foram encontrados no local pela equipe de reportagem
Preservativos foram encontrados no local pela equipe de reportagem | Foto: Jaísa de Almeida/Ag.A Tarde

Grupo reúne 99 integrantes

As evidências encontradas no local foram acompanhadas de outra descoberta durante a apuração: a existência de um grupo nas redes sociais usado para combinar os encontros. Intitulado “Pegação no Parque”, o espaço reúne participantes que compartilham informações sobre a presença no local e articulam as ocasiões em que pretendem se encontrar.

Até a publicação desta matéria, o grupo contava com cerca de 99 integrantes. Nas conversas, os participantes avisam quando estão no parque, indicam horários e apontam locais onde podem ser encontrados. Na descrição do grupo, os administradores deixam registradas algumas regras de convivência:

"SEJA BEM-VINDO AO PEGAÇÃO PARQUE DA CIDADE 💦 Sem preconceito, sem discriminação, sem desrespeito. Seja racial, sexual, corporal, religioso ou qualquer outro.", detalham.

Regras são expostas na descrição do grupo
Regras são expostas na descrição do grupo | Foto: Jaísa de Almeida

E o conteúdo das mensagens? É dos mais variados. O histórico de conversas revela uma movimentação constante entre os integrantes, com troca de conteúdos íntimos, envio de imagens onde estão completamente nus, vídeos de relações sexuais entre homens e avisos sobre os momentos em que participantes estão disponíveis para encontros.

Veja:

Galera marca encontro pelo grupo no whatsapp
Galera marca encontro pelo grupo no whatsapp | Foto: Arquivo pessoal
Conversas entre os membros do grupo
Conversas entre os membros do grupo | Foto: Arquivo pessoal

As conversas também indicam uma preocupação constante em manter a discrição. Em uma das mensagens, o administrador do grupo reforça: o intuito do espaço é apenas para pegação sem compromisso.

“Nem todo mundo que vai está buscando amizade ou trocar contato. Tem gente que só quer curtir o momento e ir embora, de forma discreta. Então não espere que todo mundo chegue, se apresente ou fique puxando conversa. Cada um tem seu jeito e sua intenção ali. Respeitar isso faz o ambiente ficar melhor pra todo mundo.”, avisa.

Imagem ilustrativa da imagem 'Sexta do Ifode': Parque da Cidade, em Salvador, vira ponto de sexo entre homens
Foto: Arquivo pessoal

Órgãos dizem não ter recebido denúncias

Diante das denúncias e dos elementos encontrados durante a apuração, o MASSA! procurou os órgãos responsáveis pela administração e pela segurança do Parque da Cidade para esclarecer a situação. Em resposta, a Secretaria Municipal de Sustentabilidade e Resiliência (Secis) informou que não recebeu denúncias nem comunicações oficiais sobre a suposta realização de encontros sexuais no interior do equipamento.

Segundo a pasta, não há registro de ocorrências com esse perfil. A secretaria também destacou que o parque conta com o apoio da Guarda Civil Municipal (GCM) nas ações de segurança e fiscalização e afirmou que, caso sejam constatadas situações que configurem irregularidades ou infrações à legislação, as providências cabíveis serão adotadas pelos órgãos competentes.

“A Secis reforça a importância de que eventuais ocorrências sejam formalmente comunicadas aos canais oficiais para que possam ser devidamente apuradas”, ressalta.

A reportagem também questionou tanto a Guarda Civil Municipal quanto a Polícia Militar, que confirmaram não possuir denúncias formais relacionadas à prática de atos obscenos nos arredores do equipamento.

Detenção pode ocorrer a qualquer momento

Apesar da ausência de registros oficiais, a advogada Daniela Portugal ressalta que a atuação das autoridades não depende, necessariamente, de uma denúncia formal. Conforme explica, o crime de ato obsceno é de ação penal pública incondicionada, o que permite a adoção de medidas pelas forças de segurança mesmo sem representação de terceiros.

“A própria autoridade policial, ela já pode atuar de ofício, ou seja, já pode atuar sem a necessidade de que alguém formalize denúncia, sem a necessidade de que seja provocado de alguma forma”, justifica.

Se você, leitor, chegou até aqui, a pergunta que fica é: já flagrou uma cena parecida no Parque da Cidade ou em outro ponto de Salvador no meio de geral? Vale lembrar que, mesmo quando há consentimento entre os envolvidos, manter relações sexuais em locais públicos pode configurar crime de ato obsceno, previsto no Código Penal.

exclamção leia também