A classificação das facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras dos Estados Unidos entrou em vigor na sexta-feira (5). A decisão do secretário de Estado Marco Rubio impacta não só a forma como as quadrilhas são enxergadas, mas também questões socioeconômicas do Brasil, sobretudo a Bahia - local onde os grupos agem em diversos crimes.
Criados na década de 90 entre presidiários, as duas facções criminosas mais conhecidas do Brasil cresceram ao decorrer dos anos e aprimoraram seus crimes no Brasil. Desde assaltos a bancos, tráfico de drogas e comércio ilegal de diferentes objetos, as atividades ilícitas dos grupos, apesar de diferentes, possuem o mesmo objetivo: o ganho de dinheiro. Esse foco central interfere não só no próprio financiamento criminoso, mas também pode influenciar na economia nacional.
Combustíveis, fintechs, fundos de investimento, bets, logística e transporte de carga são algumas das ações criminosas utilizadas para girar o capital de forma discreta. Agora, com a classificação das organizações como grupos terroristas, a população se questiona sobre os impactos econômicos que pode causar. Conforme o economista Edisio Freire ao MASSA!, a medida toma proporções completamente contrárias do que se imagina.
Enquanto há um receio sobre o impacto econômico, o profissional destaca que podem ocorrer reações diferentes:
"A medida, ela, ao contrário, traz um pouco mais de proteção financeira para o país e para as empresas que aqui estão. E se executada da maneira correta, ela vai trazer também mais segurança de um modo geral".
A iniciativa tomada pelos Estados Unidos tende a sufocar financeiramente as facções, que operam estritamente com lavagem de dinheiro. Segundo dados da Esfera Brasil, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o PCC teve faturamento anual mínimo de cerca de R$ 6,7 bilhões. Já a Polícia Federal informou que, de acordo com as investigações, os valores superam R$ 100 bilhões anuais.
"Então, para a economia real, vamos falar aqui tanto da Bahia quanto do Brasil, o impacto direto no interesse de investimentos legítimos tende a ser mínimo de curto prazo. O investidor, principalmente que investe em infraestrutura, energia, algum negócio, olha para o potencial de retorno, que é a estabilidade regulatória, os incentivos locais. Enquanto os reflexos disso não se transformarem em piora do quadro da segurança pública, eu acredito que impacto nenhum teremos nesse momento", explica.

Setores impactados
Conforme a análise de Edisio, entre os principais setores afetados, o turismo é o que mais sofre com os impactos da terrorização das facções. O profissional acredita que, devido ao desgaste internacional e o medo por trás das diferentes definições e interpretações da palavra terrorismo por parte da população, os turistas devem evitar viajar para certos locais, de modo que afeta a economia de alguns estados.
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No cenário da Bahia, o fato se comprova. Segundo o Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), seis das 10 cidades mais violentas do Brasil ficam na Bahia, fato que deixa o estado um dos mais perigosos do país. Por outro lado, a Secretaria de Segurança Pública estadual garante que houve redução no número de mortes violentas.
"Se eu vou fazer uma viagem a um determinado local e eu tenho uma notícia que aquele local teve um aumento forte de insegurança, a insegurança aumentou, a criminalidade aumentou, é muito natural que eu busque um outro local para viajar, para passar as minhas férias, para passar o meu final de semana", indica.
Principalmente na Bahia, que tem várias cidades turísticas, inclusive Salvador, que é uma das cidades mais procuradas, possivelmente no verão.
Edisio Freire, economista
Setores como a logística e o comércio também podem ser afetados pelos custos da insegurança no dia a dia. A crescente sensação de insegurança e cenários que podem causar prejuízos à estabelecimentos, como pequenos roubos, furtos de carga, necessidades de seguros mais caros, levam a uma só classe a arcar com os custos, com base no aumento dos valores dos produtos: o consumidor.
Baque nas facções
Entretanto, se a economia do país for pouco afetada, os artifícios das facções criminosas podem ser impactados de uma forma maior. Como as quadrilhas agem em função de práticas para aumentar o poderio financeiro e financiar novas atividades ilegais, a terrorização classificada pode dar um baque nesses grupos.
"Se enfraquecer os grupos, eles podem criar medidas para conseguir ou para tentar aumentar ou compensar essa perda de outras formas. E aí nós não podemos esconder uma realidade prática que o pequeno e médio empresário acaba sofrendo, que é tendo que pagar pedágio para essas facções", relata.
Neste cenário, o especialista avalia que a medida também pode aumentar os custos para os empresários que são coagidos a contribuir com as facções criminosas. Segundo Edisio, os comerciantes podem ser enquadrados como colaboradores do crime organizado, mesmo que se enquadre em uma situação de sobrevivência e não de apoio.
Por fim, a medida dos Estados Unidos não deve piorar a economia do Brasil. A preocupação, segundo o pesquisador, deveria estar no combate ao núcleo financeiro e lavagem de dinheiro das facções.
A reportagem do MASSA! entrou em contato com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) para obter um posicionamento sobre o possível impacto da classificação das facções criminosas como terroristas na economia baiana. No entanto, a pasta preferiu não se manifestar sobre o assunto.