
Quem viveu os anos 90 dificilmente esquece o fenômeno que foi a Companhia do Pagode. Em uma época em que a música baiana dominava rádios, programas de TV e festas pelo Brasil, o grupo virou sinônimo de sucesso e colocou milhões de pessoas para dançar ao som de hits que atravessaram gerações. Entre eles, o maior de todos: "Na Boquinha da Garrafa", música que até hoje segue presente em festas e playlists pelo país.
Mais de três décadas depois, a banda continua na estrada e tem em Negão Jamaica um dos principais responsáveis por manter viva essa história. Integrante desde a formação do grupo, ele acompanhou de perto toda a construção da Companhia do Pagode e, anos depois, assumiu os vocais, carregando a responsabilidade de representar uma das maiores marcas do pagode baiano.
"É uma responsabilidade imensa. A gente tem que estar preparado para assumir essa responsabilidade. Eu estou na Companhia do Pagode desde o começo. Eu fazia backing vocal e tocava tamborim. Então, eu já sabia todo o mecanismo da banda. Vi quando começou, vi a montagem, os ensaios que a gente fazia na Ribeira, no Casarão. Eu acompanhei todo esse processo", relembrou em entrevista ao MASSA!.
Segundo o cantor, a decisão de colocá-lo à frente da banda, após a saída de Diumbanda, aconteceu de forma natural, justamente por conhecer cada detalhe do projeto desde o nascimento.
"Quando surgiu a necessidade, os empresários entenderam que eu estava pronto. Disseram: 'O Negão já sabe todo o esquema, está aqui desde o começo'. Sentamos, conversamos, assinamos o contrato e eu assumi os vocais. Foi uma bronca boa", contou.
O desafio de substituir um fenômeno
Apesar da experiência dentro da banda, Negão admite que assumir o posto de vocalista trouxe um grande desafio: conquistar a confiança do público.
"Dificuldade eu não tive. O desafio era saber se o povo ia aceitar o Negão Jamaica como vocalista da Companhia do Pagode. Será que ia dar certo? Será que ia vender discos? Eram muitas dúvidas. Graças a Deus, deu tudo certo", afirmou.
A resposta dos fãs veio rapidamente. Logo na estreia da nova fase, a Companhia gravou um álbum ao vivo reunindo sucessos do pagode baiano, e o resultado superou qualquer expectativa.
"Meu primeiro grande show foi em Barretos. Depois gravamos um CD ao vivo e fiz um mix com músicas de bandas como Terra Samba, É o Tchan, Gang do Samba e também canções minhas. Na semana seguinte já estávamos no Faustão e, em poucos dias, o disco já tinha vendido mais de 150 mil cópias. Logo veio o disco de ouro. Depois fiquei 12 anos participando do programa", relembrou.
O fenômeno que ninguém imaginava
Entre tantos sucessos da Companhia do Pagode, um acabou entrando definitivamente para a história da música brasileira: "Na Boquinha da Garrafa".
Curiosamente, segundo Negão Jamaica, nem todos acreditavam que a canção se tornaria um dos maiores fenômenos da década.
Quando a música chegou para a gente, Diumbanda não queria gravar. O empresário insistiu porque era muito visionário. A gente ouviu e ficou naquela dúvida: 'Será que isso vai dar certo?'. Depois que Serginho Rocha fez o arranjo e começamos a ensaiar, a música ganhou corpo. Quando Diumbanda colocou a voz, eu falei: 'Rapaz, isso vai ser um golaço
Negão Jamaica, vocalista da Companhia do Pagode
O cantor lembra que parte do sucesso surgiu justamente durante a construção da música em estúdio.
"Aquela parte 'desce mais, desce mais um pouquinho' nem existia. Foi colocada durante a produção. Depois a música foi para as rádios e explodiu. Ficou em primeiro lugar no Brasil inteiro. Virou um fenômeno", disse.
Negão também recorda que os anos 90 foram um período único para a música produzida na Bahia.
"Você ligava a Record e tinha banda baiana. Ligava a Globo e tinha banda baiana. SBT, Manchete... era banda baiana em todo lugar. A Bahia dominava completamente a televisão brasileira. Era uma época muito boa. A gente se encontrava nos aeroportos indo fazer Gugu, Faustão, os grandes programas. Era uma disputa saudável e muito bacana", afirmou.
No entanto, ele reconhece que o mercado mudou e faz uma reflexão sobre aquele período.
"Acho que a gente também demorou para entender que precisava se renovar. Ficamos muito naquela ideia de que aquilo nunca ia acabar. Hoje aprendemos que é preciso acompanhar as mudanças para continuar relevante."
Sem viver só de nostalgia
Se por um lado a Companhia do Pagode faz questão de manter os clássicos que marcaram os anos 90, por outro, Negão Jamaica garante que a banda não quer viver apenas das lembranças. Segundo ele, acompanhar as transformações da música é uma necessidade para continuar relevante.
"Se você não acompanhar, você fica para trás. Essa é a verdade. Hoje nós estamos em um mundo tecnológico, então precisamos acompanhar o que está acontecendo. Claro que preservando a nossa identidade, mas também olhando para o novo. Não dá para viver só de lembranças do passado", afirmou.
Essa renovação já começou a aparecer nos últimos lançamentos da banda. Um dos exemplos é "Peraí", música que mistura a identidade da Companhia do Pagode com elementos do forró e do piseiro.

"A gente se preocupa muito com as canções. Não pode sair da nossa linha, mas precisa fazer uma coisa mais atual, porque o público muda. Tem muita gente jovem indo aos nossos shows. 'Peraí' foi muito bem. Passou de 500 mil visualizações no YouTube, tocou bastante nas rádios e também teve um bom desempenho nas plataformas digitais. Ficamos muito felizes com o resultado", comemorou.
Audiovisual para celebrar 31 anos
Outra novidade é a gravação de um audiovisual para registrar o atual momento da banda, que completa mais de três décadas de história.
"Já são 31 anos de Companhia do Pagode e a gente precisa registrar esse momento. Não vai ser aquele audiovisual gigantesco. Vai ser uma coisa mais intimista, para guardar esse momento e presentear os nossos fãs, que sempre pedem esse registro. A Companhia merece ter esse material", revelou.
Além disso, Negão confirmou que prepara uma homenagem ao cantor Jair, vocalista do Cafuné, falecido recentemente.
"Vou regravar uma música do Cafuné em homenagem ao meu compadre Jair. Vamos dar uma nova roupagem para a canção como forma de homenagear ele e toda a história que construiu", contou.
Repertório atualizado sem deixar os clássicos de lado
Quem vai aos shows da Companhia do Pagode ainda encontra sucessos como "Na Boquinha da Garrafa", mas também escuta músicas que estão em alta atualmente.
Segundo Negão Jamaica, a preocupação é oferecer um espetáculo que agrade tanto quem acompanhou a banda nos anos 90 quanto o público que está conhecendo o grupo agora.
"Nosso repertório é muito atualizado. Eu canto funk, sertanejo, arrocha, pagodão... canto de tudo. Mas, claro, as músicas antigas não podem faltar, porque a galera sempre pede. O segredo é equilibrar o que fez sucesso lá atrás com o que está bombando hoje", explicou.
Para isso, a banda acompanha de perto as plataformas digitais. "Meu diretor musical é muito antenado. Quando uma música explode no Spotify, a gente já coloca no repertório. O show não pode ficar só retrô. Tem que ter o passado, mas também o presente, porque sempre tem muita gente jovem na plateia", destacou.
Feats e novas parcerias
Negão também aposta nas colaborações para aproximar a Companhia do Pagode das novas gerações. Nos últimos anos, a banda lançou projetos com o cantor GW e participou de trabalhos com outros artistas.
"Ano passado gravamos com o GW, que deu uma repaginada em 'Na Boquinha da Garrafa'. Gravei também 'Faz o Coração', com participação do É o Tchan. A gente preserva nossa essência, mas precisa acompanhar o mercado", afirmou.

E a lista de artistas com quem ele ainda sonha dividir os vocais é grande.
"Tenho muita vontade de gravar com Silvano Salles, Pablo e Toque Dez. Cheguei a conversar com Silvano antes do São João, mas por causa da agenda não conseguimos fazer agora. Vai ficar para a próxima. Também quero gravar com a turma nova do pagodão. Essa mistura é importante porque eles aprendem com a gente e a gente aprende com eles", disse.
Para Negão Jamaica, a música sempre precisará se reinventar, mas sem esquecer a identidade que fez da Companhia do Pagode um dos maiores nomes da história do gênero.
"A gente preserva um pouquinho da nossa história, mas também precisa olhar para frente. Quem para no tempo acaba ficando para trás."
"O pagode precisa de sucessores"
Depois de mais de 30 anos de estrada, Negão Jamaica acompanha de perto a nova geração do pagode baiano. Longe de enxergar os artistas mais jovens como concorrentes, ele acredita que são eles os responsáveis por manter o gênero vivo nos próximos anos.
"Tem muita gente boa chegando. Eu acompanho todos eles, conheço praticamente todos. Gosto muito dessa evolução. Os meninos estão entendendo que algumas coisas precisam mudar, até nas letras, para não ficar aquela coisa tão pesada. Acho isso importante", avaliou.
O cantor fez questão de lembrar do cantor Zau O Pássaro, que morreu esse ano, em um trágico acidente de carro, e revelou que os dois tinham planos de gravar juntos.
"Fiquei muito triste com a partida dele. Ele participou do nosso ensaio, cantou com a gente e ainda ficou de fazer um feat comigo. Era um menino do coração enorme e tinha uma carreira imensa pela frente", lamentou.
Para Negão, o futuro do pagode passa justamente pela união entre diferentes gerações.
"A gente tem que ter sucessores. Não pode ficar só Companhia do Pagode, É o Tchan, Gang do Samba e Harmonia. Precisamos dessa turma nova para dar continuidade à música baiana. Eles aprendem com a gente e a gente aprende com eles também. Essa mistura é muito bacana."
Os anos 90 deixaram portas abertas
Ao recordar o auge da música baiana, Negão diz que a presença constante das bandas nos programas de televisão ajudou a construir um legado que ainda rende frutos.
"Naquela época só dava banda baiana. Você ligava a televisão e sempre tinha alguém da Bahia. Isso abriu muitas portas. Hoje a gente continua sendo convidado para programas porque deixamos essa história construída. Fiz Altas Horas, Caldeirão, Programa Silvio Santos... As portas continuam abertas graças ao trabalho que fizemos lá atrás", afirmou.
Leia Também:
Apesar da nostalgia, ele admite que a cena musical mudou bastante. "Naquela época a gente achava que aquele sucesso nunca ia acabar. Hoje entendemos que é preciso se renovar o tempo inteiro."
Redes sociais aproximaram uma nova geração
Se antes o sucesso era medido pelas vendas de CDs e pelas aparições na televisão, hoje a internet se tornou uma das principais vitrines para artistas.
Negão Jamaica admite que precisou aprender a lidar com esse novo universo, mas afirma que as redes sociais fizeram a Companhia do Pagode conquistar um público que sequer viveu os anos 90.
"Essa galera nova não acompanhou aquela época. Tem gente que nem era nascida. Então conhece a Companhia pelas redes sociais, pelos vídeos antigos, pelos cortes. Isso deixa a gente muito feliz", contou.
O cantor revelou, inclusive, que muitas vezes se surpreende ao assistir registros antigos publicados pelos próprios fãs.
"Tem vídeos que aparecem na internet e eu mesmo não lembrava que tinha feito. Aí vejo e penso: 'Rapaz, eu participei disso mesmo'. É muito bacana", brincou.
Segundo ele, a adaptação ao ambiente digital teve uma ajuda especial dentro de casa.
"Eu não era muito ligado em rede social. Quem me colocou nesse mundo foi minha filha. Hoje gosto de postar, fazer selfie, agradecer ao público depois dos shows e conversar com os fãs”, afirmou.
Momentos que marcaram a carreira
Entre tantas lembranças da trajetória da Companhia do Pagode, Negão guarda com carinho duas em especial.
A primeira aconteceu no Clube Espanhol, em Salvador, durante um evento que também reuniu Lulu Santos e Negritude Júnior.
"A gente sabia que teria uma entrada ao vivo no Domingão do Faustão, mas não fazia ideia do que estava por vir. De repente, recebemos um disco de platina duplo. Foi uma surpresa enorme. Acho que nunca vou esquecer daquele momento", relembrou.
Outra memória inesquecível foi a participação no programa Som Brasil, da TV Globo.
"Era tudo ao vivo. Não tinha gravação. Se errasse alguma coisa, estava lascado. E ali só tinha grandes artistas. Foi um momento muito especial da minha carreira", disse.

Uma lição aprendida na estrada
Nem só de grandes conquistas vive uma carreira com mais de três décadas de estrada. Negão também lembrou, entre risos, de uma situação curiosa que viveu quando ainda era backing vocal da Companhia do Pagode.
Durante uma sequência de shows no Rio de Janeiro, exagerou na comemoração antes de subir ao palco pela segunda vez.
"Tomei uns gorós e fiquei sem condição de fazer o backing. Me colocaram no camarim, tomei um banho gelado, bebi água e consegui voltar para terminar o show. Depois disso nunca mais fiz isso. Foi uma lição que ficou para a vida", contou, bem-humorado.
O maior patrimônio são os fãs
Mesmo depois de tantas conquistas, discos de ouro, platina e décadas de carreira, Negão Jamaica garante que o maior reconhecimento continua sendo o carinho recebido do público.
"Hoje eu me sinto realizado. O mais gratificante é chegar em um lugar, ser reconhecido, tirar foto, ouvir alguém dizer que cresceu ouvindo a Companhia do Pagode ou que conheceu a banda por causa dos pais. Isso não tem preço. O que eu peço a Deus é saúde para continuar levando alegria para as pessoas."
"Voltem a acompanhar a gente. Entrem no YouTube, nas redes sociais, porque tem muita novidade. A Companhia continua fazendo música com o mesmo carinho de sempre e esperando vocês nos shows."
