
Nascido no interior da Bahia, um vaqueiro do som conseguiu laçar o Brasil inteiro com sua música. No ano em que completaria 79 anos de idade, Moraes Moreira será homenageado em cima dos palcos. O espetáculo Moraes Musical Moreira estreia em Salvador nesta sexta-feira (14), no Teatro Castro Alves, e utiliza a linguagem do cordel para passear entre memórias, vivências e canções de um dos fundadores do Novos Baianos.
A peça revisita as raízes do cantor em Ituaçu (BA) e acompanha seu crescimento musical. A projeção nacional, a parceria com Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor, a importância para o trio elétrico e o lançamento de hits são alguns dos tópicos abordados na montagem. A produção mistura dança, música e teatro para contar uma história que, mesmo sendo majoritariamente biográfica, também se permite ser lúdica em alguns momentos.

“A dramaturgia foi criando essa [coluna] vertebral de uma realidade fantasiada. A gente tem figuras que passaram pela vida de Moraes, mas também temos referências e inspirações. Tem pontos que existiram na história dele, mas também temos encontros fictícios, em que ele se encontra com referências dele”, contou a coreógrafa Ana Paula Bouzas, responsável pela direção do musical, durante uma coletiva de imprensa realizada no Teatro Castro Alves.
Com uma banda responsável pela trilha sonora ao vivo, o musical conta com um repertório recheado de sucessos. Preta Pretinha, Bloco do Prazer e Pombo Correio são algumas canções que o público vai poder aproveitar. “A obra de Moraes realmente é gigante e ela é muito rica. Muitas coisas que a gente não queria ficaram de fora, muitas músicas. Mas, muitas outras músicas que o público talvez não teve acesso, a gente tem uma alegria enorme de trazer para o palco”, pontuou.

Assim como a própria carreira de Moraes Moreira, a homenagem também se destaca pela sua diversidade de linguagens artísticas. Em meio a dramaturgia e as coreografias, a música ganha um papel de destaque. “Acho que a gente tem um protagonismo musical, porque quisemos colocar a música na frente, mas é muito inevitável que isso se misture. Tem uma mistura boa aí, um casamento das fronteiras”, continuou Ana.
Duas facetas diferentes do cantor ganham vida na trama. O ator Rodrigo Sestrem vive o Poeta Cantador, responsável por narrar a história como um verdadeiro cordelista. Enquanto isso, Cris Meirelles interpreta o Vaqueiro do Som, o protagonista busca encontrar sua musa, a Música, que é personificada por Júlia Tizumba. A decisão de dividir Moraes Moreira em dois personagens representou um desafio pessoal para seus respectivos intérpretes.
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“Eu vejo como dois brincantes que estão homenageando lados do mesmo artista, cada um cumpre um papel, um com o fator do cordel e o outro vive o dia a dia. Eu acho que é isso que faz essa amálgama para chegar no Moraes inteiro”, explicou Rodrigo Sestrem.
A poesia do sertão desempenhou uma forte influência estética nos trabalhos do baiano e, em 2015, ele chegou a assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Em Moraes Musical Moreira, Rodrigo encarna uma versão mais madura do cantor, tendo conquistado o Brasil e cultivado uma forte conexão com a arte do cordel. “Eu, como o cantador, vou para outro lugar do povo, que é a cultura popular. O Moraes foi buscar muito isso por meio da pesquisa do frevo, do ijexá e na literatura de cordel”, detalhou.

Não é apenas nesse aspecto que a cultura nordestina toma forma na vida do Poeta Cantador. Cantores do Nordeste também serviram de influência para aquele que se tornaria um dos principais representantes da Bahia na música brasileira. “Ele ouviu primeiro Luiz Gonzaga, depois João Gilberto, que também são dois nordestinos. Ele foi crescendo ouvindo essa música brasileira”, relembrou Sestrem.
A história narrada pelo poeta é protagonizada pelo Vaqueiro do Som, apelido que foi dado a Moraes Moreira pelo também baiano João Gilberto. O ator Cris Meirelles comentou o peso da responsabilidade de “laçar o público” com sua interpretação. “É a primeira vez que eu vivo no teatro em que as pessoas têm uma referência. Isso me trouxe um sentimento de responsabilidade muito grande de representar com respeito, afeto e carinho”, disse.

Celebrar o legado de um ícone é, além de um tributo, uma forma de levar sua influência para uma geração de novos baianos. A lição que fica é que, para a construção de uma lenda, é necessário um esforço coletivo. “Não foi uma construção simples para nós. Ele é um personagem que tem uma certa timidez, uma certa introspecção enquanto subjetividade. Foram esses pontinhos que a gente foi buscando alinhar para dar um corpo verdadeiro [ao personagem]”, finalizou Cris.

