
Os baianos amantes de cinema estão em festa. Na noite desta quarta-feira (2) aconteceu a abertura oficial da 20ª edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema, no Cine Glauber Rocha, e contou com sessões gratuitas. O festival ocorre em Salvador até o dia 9 de abril, no Cine Glauber Rocha e na Sala Walter da Silveira.
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Durante o primeiro dia de evento, houve a exibição dos filmes A Queda do Céu e Iracema - Uma Transa Amazônica. As sessões começaram às 20h e reuniu uma multidão de baianos amantes da sétima arte. Acompanhando o Panorama desde sua origem, a produtora Cristina Araripe, 62, ressalta que essa é uma oportunidade única para quem gosta dessa arte.
"Eu, infelizmente, não posso acompanhar todos. Mas, para quem pode, imagine essa oportunidade? Você poder ver um filme atrás do outro, filmes de vários lugares do mundo, de várias cidades da Bahia. É perfeito para quem gosta, é cinéfilo ou cineasta", disse em entrevista ao MASSA!.

Ela enfatiza que o festival é um meio de assistir obras que discutem pautas mais políticas e sociais. Os dois filmes exibidos hoje abordam a temática indígena, algo que, para Cristina, não costuma ser abordada no circuito comercial. "Você não tem essas temáticas no cinema comercial. É uma chance de você assistir temas que você não vai assistir em um cinema comercial, talvez em um cinema de arte, mas fora de um festival é muito difícil", defendeu.
Além dos dois filmes, a noite também contou com a primeira mesa do Seminário de Exibição, que reuniu representantes de salas de cinema de todo o Brasil. Comandada por Cláudio Marques, criador do Panorama, o seminário foi composto pelo secretário de cultura do Estado, Bruno Monteiro, o presidente da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro, e a secretária de audiovisual do Ministério da Cultura, Joelma Oliveira Gonzaga.
O criador do Panorama defende que refletir sobre como fazer o público consumir mais filmes nacionais é uma prioridade. Apesar do festival atrair pessoas para consumirem filmes brasileiros, Cláudio Marques deseja que isso continue durante o resto do ano. "O Panorama sempre lota salas com filmes brasileiros, isso acontece há muito tempo. É maravilhoso, mas a gente não quer isso só no festival, eu quero o ano todo. A gente não quer só para um filme que ganhou Oscar, queremos que o público brasileiro veja o cinema brasileiro nas salas de cinema", afirmou.

Durante a edição do Panorama deste ano, também vai ocorrer um festival voltado apenas para os exibidores de cinema do Brasil. "Tem seis distribuidoras brasileiras que vão exibir filmes para os exibidores e nós vamos dar um prêmio, que consiste nesse filme [vencedor do festival] entrar em 40 salas de cinema em todo o Brasil", acrescentou.
Bruno Monteiro enalteceu o papel do evento como um lugar de reflexão sobre o cenário atual do audiovisual. O secretário aponta que o fomento do cinema nacional além de ter impactos econômicos, também acaba sendo uma importante medida no âmbito cultural. "Temos o desafio de pensar nos mecanismos que venham incentivar diferentes públicos a consumirem mais o conteúdo que é produzido pelo audiovisual brasileiro porque, além disso alimentar toda uma cadeia da economia da cultura, também estamos falando dos padrões culturais que as pessoas passam a consumir", pontuou
Ele aponta o momento positivo vivido pelo audiovisual na Bahia. Bruno argumenta que essa forma de arte é um meio de conservar a cultura. "Tudo isso nos mostra como o incentivo, como o fomento, permite que histórias, saberes e tradições culturais sejam eternizadas em produções audiovisuais", acrescentou.
Uma celebração também musical
A primeira noite de Panorama foi formada por uma mistura entre curiosos e quem acompanha o evento há muito tempo. Os fãs de velha guarda do festival já tinham em mente o que queriam assistir. É o caso do artista plástico Tiago Souza, 36, que estava ali não apenas pelo cinema. "Hoje eu quis vir por causa da programação, também por causa do Rumpilezzinho que vai tocar aqui e eu acho interessante, além dessa vibe de cinema autoral que tem aqui", pontuou.
Responsável por animar a noite com muita música, o coletivo Rumpilezzinho é um projeto derivado da Orkestra Rumpilezz, ambas iniciativas criadas pelo maestro Letieres Leite. Tiago conta que é um amante de longa data do projeto. "Eles tem um instrumental muito bom. É basicamente uma banda de jazz, só que baiana, e eu gosto muito dessa parada. Acho que combina bem com a programação", afirmou.
Apesar de serem duas linguagens distintas, música e cinema conversam muito entre si. Jad Venttura, guitarrista da Rumpilezzinho, explica que as produções da banda também são influenciadas pelo audiovisual. "O Letieres sempre foi um artista visual também, então essa mistura das artes sempre foi um processo muito natural para gente, sempre esteve muito presente em nossas composições. Além da própria música, sempre pensamos no nosso corpo, na imagem e como isso iria ressoar".

O trabalho do grupo é fortemente influenciado pela cultura africana e indígena. Pela noite de abertura ser composta por dois filmes que falam sobre os povos originários, a apresentação da Rumpilezzinho ganha uma camada a mais de sentimento e profundidad. "Historicamente, nosso povo é fundamentado em bases africanas e indígenas. Então, essa junção de elementos, povos e culturas, faz com que hoje a gente tenha que ter esses resgates porque houve um apagamento", ressaltou o guitarrista.
Por fim, Jad não escondeu a felicidade em poder participar de uma edição do Panorama. O músico também pontuou o papel do evento para a cultura da cidade. "Eu acho incrível, porque faz com que a gente tenha contato com outros tipos de cinema, outras formas de ver a imagem, outros pensamentos, outros discursos, além de fazer que nosso cinema nacional tenha outra visão", enfatizou.