A insegurança ainda é um dos principais fatores que afastam o público dos estádios: apenas um em cada três torcedores costuma frequentar esses espaços. Entre as mulheres, o cenário piora, já que 40% das torcedoras dizem não se sentir seguras nesse ambiente, enquanto entre os homens o índice de insegurança é de apenas 27%.
Os dados levantados pela pesquisa "O Maior Raio-X do Torcedor", feita em parceria por Quaest/CNN/Itatiaia, traz à luz o questionamento: Se lugar de mulher é onde ela quiser, porque tantas torcedoras ainda sentem medo de acompanhar de perto o time do coração?
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Ao MASSA!, as líderes de torcida da dupla BaVi trouxeram pontos de vista sobre como o grupo trouxe, além da paixão de torcer, a oportunidade de pertencer ao espaço do futebol de perto.
Para Ingrid Reis, que atuou como líder de torcida do Bahia, o futebol sempre fez parte de sua vida, paixão que passou da avó para mãe, e de mãe para filha:
“Eu não sou a primeira mulher envolvida com futebol, é a terceira geração, todas as três colocam o futebol como uma das prioridades da vida. Dentro de casa, eu sempre fui muito influenciada, todo mundo tem isso de falar que: 'Ah, é o pai que leva para o estádio', mas foi minha mãe que começou a me levar”, contou.

Entre veteranas e novatas, as leoas também trouxeram a paixão pelo esporte, que começou em casa e no núcleo familiar, como gás para torcer e fazer parte das líderes de torcida.
"Minha família me trazia desde pequena quando eu ainda não entendia muito, mas sempre reparei nas meninas dançando. Completei 18 anos e me joguei", compartilhou Leandra Paula.

Futebol é rotina
O cheerleading é uma ferramenta para as mulheres se aproximarem mais dos times do coração. A prática ganhou popularidade no Brasil nos meados dos anos 2000, por meio da Comissão Paulista de Cheerleading, que ajudou a profissionalizar o esporte.
"Era um sonho desde pequena ter entrado porque quando a gente coloca mulheres dentro do futebol, não só na perspectiva de torcedoras, mas também como animadoras de torcida, a gente se coloca dentro do clube. O clube abraça o nosso grupo", conta Ingrid.

Segundo elas, a equipe de ambos os times exige dedicação e proteção total da reputação das integrantes:
Eu respiro Vitória. Já era assim antes, depois que entrei, mudou. Você vive mais do que na arquibancada
Líderes de Torcida, Leoas da Barra. Leandra e Gabrielle Santos
“Marcar compromisso? Tem que saber primeiro se no dia não vai ter jogo, porque se tiver jogo, não tem compromisso. Jogo é jogo", conta Liane Juriti.

Sexismo no estádio
Apesar do compromisso e dedicação, a realidade nem sempre é fácil para as mulheres que vivem o futebol. Da reta final de 2025 até o momento, episódios como a fala do jogador Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, contra a árbitra Daiane Muniz e também o ataque à aparência da jornalista Renata Mendonça, feito pelo presidente do Flamengo, permanecem como lembranças do preconceito ainda presente no esporte.
Com as animadoras de torcida, a situação não é diferente. Mesmo marcando presença em todas as partidas, com chuva ou sol, além dos ensaios e regras rígidas, como não terem contato com os jogadores, as dançarinas ainda enfrentam comentários ofensivos. Para Ingrid, das Tricolíderes, grupo que atua nos jogos do Esquadrão, ainda há uma ideia errada sobre a prática:
"Às vezes deturpam a imagem do grupo, porque acham que a gente está lá para se mostrar, mostrar corpo, e não é isso, a gente foge disso. As meninas fazem campanhas sociais, doação. Todas as campanhas do Bahia com relação a movimentos sociais, nós estamos presentes”, conta.
“Vai ter sempre alguém olhando e dizendo que a gente não entende, que está falando besteira. Que está ali só para se aparecer ou para ficar dançando para jogador. Já ouvi muitas vezes que eu só vou ao Barradão para ficar atrás de homem”, acrescentam Amanda e Leandra, das Leoas da Barra.
Mesmo diante das dificuldades, as animadoras da dupla BaVi seguem presentes no campo, e também em ações sociais, como campanhas de doação de sangue e datas comemorativas como Dia das Crianças. Os dois grupos completam 14 anos de atuação neste ano.
É um grupo para ocupar espaços, de trazer meninas, mulheres, para dentro do futebol, e isso é muito importante
Estudante de jornalismo e ex-Tricolíder Ingrid Reis
Luta contra violência e amor ao esporte
Se dentro e ao redor do estádio o ambiente ainda é hostil para as mulheres, a realidade dentro de casa também preocupa. Na final do Baianão 2026, realizada neste sábado (7), a campanha Feminicídio Zero esteve presente em campo com um alerta: a violência doméstica pode aumentar até 25% em dias de jogo.
O aumento do consumo de álcool e os altos níveis de emoção associados a grandes partidas de futebol podem intensificar a gravidade e a frequência de episódios de violência doméstica já existentes, segundo pesquisa da organização britânica Women's Aid.
“Não é só briga de torcida organizada, não é só aumento de policiamento na rua, é também o que acontece dentro de casa. Quando a gente se questiona do porquê de os números de feminicídio e de violência contra mulheres estarem tão altos, também precisa analisar o que o entretenimento traz em relação a isso. O futebol é responsável por isso”, afirma Ingrid.
Dentro e fora da arquibancada, torcedoras também relatam situações frequentes de assédio:
“Principalmente quando a gente está chegando no jogo, descendo a escadaria para se posicionar no lugar onde vai ficar, surgem vários comentários como ‘oh lá em casa’. Já ouvi também coisas como ‘meu Deus, que delícia’ ”, desabafa Liane.
Apesar do cenário, as animadoras de torcida afirmam que seguem ocupando o espaço nos estádios. Mesmo com a rivalidade entre Bahia e Vitória, os grupos compartilham algo em comum: a paixão pelo futebol e a decisão de não deixar de frequentar os jogos por causa de situações hostis.
“Infelizmente, são situações que a gente enfrenta no dia a dia, em qualquer lugar: no trabalho, na academia ou até indo comprar um pão. E isso não tem nada a ver com roupa. Com o tempo, a gente acaba tendo que blindar a mente para não sofrer com esse tipo de comentário”, conta Amanda.

“Sabemos que é um ambiente dominado por homens e ainda muito machista. A gente ouve muitos comentários, falam bastante sobre a roupa, mas isso acaba sendo engolido pelo carinho da torcida no geral”, acrescenta Ingrid.

A gente está ali como uma forma de resistência mesmo, para mostrar que pode ocupar qualquer lugar, seja na tribuna de imprensa ou na arquibancada
Estudante de jornalismo e ex-Tricolíder Ingrid Reis
Em Salvador, denúncias de assédio e violência contra a mulher podem ser feitas pelos telefones 180 (Central de Atendimento à Mulher) e 190 (Polícia Militar), ou presencialmente na Casa da Mulher Brasileira, localizada no bairro do Comércio, na Avenida Contorno. O espaço reúne delegacia especializada (Deam), atendimento jurídico e apoio psicossocial. As denúncias podem ser anônimas e o atendimento é gratuito.