28º Salvador, Bahia
previsao diaria
Facebook Instagram
WHATSAPP
Receba notícias no WhatsApp Entre no grupo do MASSA!
Home / Esporte

Luta diária - 07/03/2026, 08:50 - Kaiky Menezes*

Machismo ainda é desafio para mulheres no futebol

Relatos de profissionais dos bastidores mostram os desafios e o preconceito

Gabrielle Gomes, as árbitras Odilene Nascimento e Rafaela Maciel, e Moara Miranda
Gabrielle Gomes, as árbitras Odilene Nascimento e Rafaela Maciel, e Moara Miranda |  Foto: Crédito/Arquivo pessoal

A suspensão sofrida pelo jogador Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, por conta de falas machistas direcionadas à árbitra Daiane Muniz, na semifinal do Paulistão, no fim do último mês, reacendeu o debate sobre a presença feminina em um esporte historicamente comandado por homens. Apesar da repercussão e das punições recebidas pelo zagueiro, este não foi um caso isolado, sendo mais uma das inúmeras situações de preconceito que as mulheres enfrentam no esporte, seja como atletas, árbitras, organizadoras ou repórteres. E não só amanhã, mas todos os dias são importantes para dar voz a elas.

“Já teve jogador que se recusou a me dar entrevista dizendo que eu era bonita demais para estar ali, como se a minha aparência anulasse a minha capacidade de trabalhar. Já teve coletiva em que um assessor de imprensa pulou a minha pergunta, como se eu nem estivesse naquele espaço. E existem as coisas que não são ditas em voz alta: os olhares tortos, o julgamento silencioso, a sensação constante de que estão esperando você errar para justificar que você não deveria estar ali”, revelou a repórter Gabrielle Gomes, do GE e da Rede Bahia.

Também fora dos campos, mas dentro dos bastidores, a organizadora de eventos Moara Miranda, que está participando dos projetos para a Copa Feminina de 2027 no Brasil, conta que sente esses olhares e o peso de ter sempre que se provar. “Um dos desafios que tive que enfrentar foi ser questionada sobre o que eu tinha feito para conseguir a minha vaga na Fifa. Eles não conseguiam entender que eu, como mulher naquele universo, era capaz de fazer e de entregar. Apesar de enfrentar o machismo e a desconfiança, aquilo me deu gás para que eu pudesse provar que era capaz e que tinha sido uma uma excelente escolha. Saí de motorista da Copa das Confederações para coordenadora de marketing da Copa do Mundo da Fifa”, detalhou a profissional.

Moara Miranda está participando dos projetos para a Copa Feminina de 2027 no Brasil
Moara Miranda está participando dos projetos para a Copa Feminina de 2027 no Brasil | Foto: Reprodução

Já dentro das quatro linhas do campo, as árbitras Odilene Nascimento e Rafaela Maciel são responsáveis por comandar partidas masculinas e convivem com o machismo dia a dia. “Uma vez, apitando em São Cristóvão, eu ouvi: ‘lugar de mulher não é ficar em campo não, lugar de mulher é estar na cozinha, lavando roupa’, vindo de um torcedor da arquibancada”, lembrou Odilene. “Já enfrentei situações de machismo ao longo da minha trajetória, desde comentários questionando minha capacidade antes mesmo de eu entrar em campo até atitudes desrespeitosas durante as partidas”, complementou Rafaela.

Motivação de olho no futuro

A principal motivação para seguirem firmes vem não só do presente, mas também da perspectiva de um futuro melhor e mais inclusivo para as mulheres. “Estar em campo é algo que me realiza profundamente. Além disso, acredito muito na representatividade. Cada vez que uma mulher ocupa esse espaço, ela abre portas para outras. Saber que posso inspirar meninas que sonham em trabalhar no futebol me dá forças para continuar”, detalhou a dona do apito Rafaela Maciel.

Leia Também:

“O que mais me motiva a seguir nesse meio é abrir portas para outras mulheres. Vemos cada vez mais mulheres envolvidas e podendo viver a paixão que é o futebol. Fui uma criança que jogou futebol sem ter ídolos femininos, e agora poder ver as crianças tendo ídolos mulheres, isso é maravilhoso e me motiva diariamente”, completou a coordenadora de eventos Moara Miranda.

A repórter Gabrielle Gomes seguiu a mesma linha das companheiras, defendendo a importância de trilharem um caminho para as novas gerações. “O futebol sempre foi paixão, mas também virou propósito. Estar ali, contar histórias, tudo isso faz parte de quem sou. Mas existe algo maior: saber que ocupar esse espaço também é uma forma de abrir portas. Cada mulher que permanece no futebol ajuda a tornar o caminho um pouco menos difícil para quem vem depois. Continuar é uma forma de resistência. É mostrar que a gente pertence a esse lugar”, concluiu a profissional da Rede Bahia.

Gabrielle Gomes batalhou bastante para chegar no topo
Gabrielle Gomes batalhou bastante para chegar no topo | Foto: Reprodução

Mulheres em cargos de confiança

Apesar da força e da resiliência incomparáveis, não se pode normalizar as ações de machismo na sociedade, muito menos no futebol. “O primeiro passo é parar de fingir que o problema não existe. O machismo no futebol ainda é muito naturalizado, muitas vezes tratado como parte da cultura do ambiente. Mas não é. O respeito precisa existir em todos os espaços: nas coletivas, nas zonas mistas, nas arquibancadas e também nas redes sociais”, afirmou Gabrielle Gomes.

Para a árbitra Odilene, as pessoas precisam começar a enxergar as mulheres como tão capazes quanto os homens de ocuparem cargos de liderança dentro do esporte. “É essencial aumentar a presença feminina em cargos de liderança”, acrescentou Rafaela. “Quanto mais investimento for feito, mais mulheres ocuparem cargos de gestão, mais seguro se torna para que mulheres não tenham que enfrentar situações de machismo e misoginia”, finalizou Moara Miranda.

*Sob a supervisão do editor Léo Santana

exclamção leia também