
Vestir o quimono, amarrar a faixa e ir para o tatame são fundamentos que fazem parte do início di treino de Hapkido, arte marcial sul-coreana que chegou ao Brasil pela Bahia na década de 70, e que hoje leva dezenas de atleta do estado a competir em torneios no país e no mundo.
Este é o caso dos jovens atletas da escola Hapkido Botto, localizada no bairro da Federação, em Salvador, e 22 deles irão competir no Campeonato Brasileiro de Hapkido 2026, em Minas Gerais, que acontece ainda em setembro.
O MASSA! foi conhecer mais sobre os atletas, o projeto social que oferece bolsa para alguns alunos e, claro, o esse esporte que vem sendo bem representado no país afora.

“O poder é diferente”
Embora pratique outras artes marciais como karatê, kickboxing e kudô, Ricardo Botto, mestre e criador da Hapkido Botto, descreve a modalidade como diferente das outras. “Tem um poder diferente, sabe? A fluidez dos movimentos, a aplicação do golpe... eu nem sei explicar direito, mas é diferente".
O Hapkido é uma das artes marciais mais completas dos esportes, contendo na prática técnicas e características como:
➡️ Lutas de solo e em pé
➡️ Chutes e socos;
➡️ Torções, imobilizações e projeções;
➡️ Rolamentos e modos de respiração;
➡️ Defesa pessoal, sequências semelhantes a katas e quebramentos de tábuas e tijolos.

Em um território como a Bahia, que domina o cenário do boxe no Brasil, o Hapkido tem um lugar de destaque. Desenvolvida em 1960 pelos mestres Ji Han-Jae e Choi, na Coreia do Sul, a modalidade chegou a Salvador em 1970, pelo mestre Lin. “Salvador foi o pioneiro aqui no Brasil", aponta Ricardo.
Mais de 200 anos passaram pelo projeto
A Hapkido Botto foi fundada em abril de 2014, quando o mestre passou a doar bolsas aos funcionários do local onde montou sua primeira academia. "Na primeira academia que eu trabalhei, dei uma bolsa ao filho do pintor, à recepcionista, e assim fui começando o projeto".
Em 2016, o projeto social começou a funcionar oficialmente na Escola Municipal Cidade de Jequié, na Federação, com 100 alunos, e era parte do programa federal “Mais Educação”, fundado em 2010 como uma estratégia para implementação da educação integral no país, articulando atividades culturais no espaço escolar.
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Atualmente, a Botto tem cerca de 170 alunos ativos, dos quais 70 a 80 treinam gratuitamente graças aos projetos sociais. Ricardo conta que mais de 300 alunos já passaram pelo projeto.
A idade desses estudantes varia de 10 a 18 anos, mas há alguns adultos que começaram ainda adolescentes e continuam auxiliando nas aulas como professores até hoje. “Os meninos que eram adolescentes no começo, já viraram adultos e continuam me ajudando nas aulas. Alguns já dão aula comigo”.

Com um público diverso, o projeto atende também idosos e pessoas com deficiência, além de autistas. “A pessoa com maior idade que temos tem 65 anos", contou o professor.
Além da sede principal, o projeto social funciona em outros locais como:
➡️ Escola Municipal Cidade de Jequié
➡️ Colégio Municipal Mário Costa Neto.
O professor ainda dá aula em outras escolas e academias de forma particular, como os colégios Assunção, Montessoriano, Carpe Diem, e a escola Didática da Bahia e os condomínios Barra Porto, Vila e Federação.
Segurança para as meninas
De maneira geral, as lutas sãoo predominantemente praticadas por homens. Apesar disso, pesquisas mostram que há um grande aumento da participação das mulheres. Segundo o jornal britânico The Guardian, em publicação deste ano, seis em cada dez mulheres brasileiras querem praticar um esporte de combate, sendo mais da metade delas com o objetivo de se defender.
O fundador da escola Botto reforça esse dado, afirmando que há um aumento significativo na participação feminina, estimada em 37% a 38% do público. "Aumentou bastante do público feminino".
Entre as atletas estão Bárbara Cibelli, de 13 anos, e Thaisa Vitória de 15, que praticam a modalidade desde a infância, encontraram no esporte não apenas uma prática física, mas uma forma de transformar comportamentos, e ganhar mais confiança.

As jovens apontam que praticar o Hapkido também representa segurança. Como mulheres, elas afirmam se sentirem mais protegidas com os aprendizados adquiridos nos treinos.
Segundo Thaisa, a professora Quéssia dos Santos oferece treinamentos específicos de defesa pessoal para situações de violência contra mulher. "Se segurarem no seu braço, como é que você vai reagir?", comenta, citando uma possível situação. Para ela e Cibele, esse tipo de aprendizado é muito importante.

O impacto mesmo estando fora do tatami
Aos 13 anos, Bárbara Cibelli vê no Hapkido uma ferramenta que vai além das técnicas de luta. Ela escolheu praticar o esporte com a certeza de que ele “muda a vida da pessoa”, além de “ensinar disciplina, que é muito importante".
Os efeitos, segundo a jovem, também chegaram à escola. A prática trouxe melhorias para sua disciplina e para as notas escolares. Durante os treinos, ela conta que aprendeu lições sobre comportamento e sobre como lidar com outras pessoas: "Quando a gente sai na rua, como atleta, devemos saber nos controlar diante das diversas provocações que passamos".

Assim como a de Cibelle, a história de Thaisa Vitória também passa por mudanças de comportamento. Antes, ela se definia como “quietinha, mas muito retada”, mas com os treinos, aprendeu a controlar o temperamento, os gritos e os impulsos agressivos.
A disciplina desenvolvida no Hapkido também mudou sua sociabilidade, garante: "Houve mudanças em relação ao meu comportamento com meus pais. A gente aprende respeitar, né? A não gritar e afins". Ela utiliza a palavra "equilíbrio" para se referir ao descrever mais um desses aprendizados. "A gente aprende muito também com as criancinhas. Quando a gente luta, a gente tem que saber equilibrar o nosso chute, o nosso soco. E eu sempre fui uma pessoa com dificuldade de consegui segurar a mão. Então, o equilíbrio foi muito importante pra mim".

Segundo Thaisa, a prática do Hapkido impactou sua vida na escola, tornando-a uma referencia para outras meninas. "Por eu ser a única menina que pratica o Hapkido, uma galera boa lá na escola perguntava onde funciona, como é que isso, aquilo".
A jovem conheceu o projeto após acompanhar seu primo, Artur da Silva, de 11 anos às aulas.
Lutadores querem mais: o campeonato
No tatame, a experiência também pesa. Arthur já participou de cinco a seis campeonatos e acumula vitórias em diversas competições. Para o próximo desafio, a expectativa é positiva e ele chega preparado para buscar mais um bom resultado.
Thaisa Vitória também já conhece bem a pressão de uma competição. Com cinco ou seis campeonatos no currículo, conquistou medalhas de primeiro lugar em quase todos. A única derrota aconteceu justamente na primeira disputa, quando ainda era faixa amarela. Ela conta que agora, "A expectativa está a mil, o coração fica acelerado... A gente treina para esse momento".

Aos 13 anos, Bárbara Cibelli também já coleciona experiência no Hapkido. Faixa azul, ela pratica a modalidade há seis anos e está prestes a disputar seu quinto ou sexto campeonato. Ao longo da trajetória, já conquistou títulos em competições realizadas em São Paulo, no Paraguai e também na Bahia, acumulando medalhas e troféus. Sobre o futuro, ela afirma sem hesitar que quer "Chegar muito longe. lá em cima, no topo."
Doação
Para levar os atletas ao Campeonato Brasileiro de Hapkido, em Minas Gerais, a equipe está mobilizando uma campanha para ajudar nos custos da viagem. Ao todo, 22 pessoas irão para a competição: 20 em um ônibus disponibilizado pela Sudesb e outras duas de avião. Metade ou mais dos atletas que viajarão de ônibus faz parte do projeto social.
Apesar de terem conseguido gratuitamente o transporte e o alojamento, cada atleta ainda precisa arcar com alimentação e inscrição no campeonato. A inscrição custa, em média, R$ 150, enquanto a alimentação é estimada em R$ 80 por dia. Como a viagem começa na quinta-feira e a chegada em Salvador está prevista para segunda, o custo chega a cerca de R$ 500 por atleta.

Alguns competidores, como Bárbara Cibelli, Arthur e Thaisa, também estão realizando campanhas individuais para conseguir custear a participação. Além disso, a equipe promove rifas e uma quermesse com bingo, salgados, bolos e doces. O valor arrecadado será destinado principalmente à alimentação dos atletas e, conforme a arrecadação, também poderá ajudar com as inscrições.
Quem quiser contribuir com a viagem dos lutadores pode entrar em contato com a escola pela perfil ofcial no Instagram, com o nome @Hapkidobotto.
*Sob a supervisão da editora Amanda Souza

