
Quem vive em Salvador reconhece de longe: o jeito de falar do baiano é marcado por criatividade, humor e identidade. As gírias, presentes no cotidiano, não apenas aproximam as pessoas, mas também revelam transformações culturais ao longo das gerações. Um dos exemplos mais populares dessa mudança é a expressão “lá ele”.
Hoje, o termo é amplamente utilizado como reação a frases com duplo sentido, funcionando quase como um alerta bem-humorado diante de algo que possa soar sugestivo ou constrangedor. No entanto, nem sempre foi assim. Em décadas anteriores, “lá ele” tinha um uso mais simples e direto, geralmente associado à negação ou rejeição de uma ideia, sem a conotação maliciosa que ganhou entre os mais jovens.
De acordo com a professora de Língua Portuguesa e psicóloga Cláudia Oliveira, essa transformação faz parte de um processo natural da linguagem.
“As palavras e expressões mudam ao longo do tempo porque a língua acompanha a forma como a gente vive e se comunica. Quando surgem novas necessidades, novas tecnologias e novas formas de interação, a linguagem se adapta. Esse fenômeno não é somente regional. Ele acontece em toda língua. O que muda é como cada região expressa isso”, explica.
Segundo a especialista, as gírias têm um papel fundamental na construção da identidade social, especialmente em contextos culturais fortes como o da Bahia.
“As gírias surgem muito ligadas ao pertencimento. Elas nascem dentro de grupos, ajudam a criar identidade e funcionam como uma forma de reconhecimento entre as pessoas. No caso das gírias baianas, isso é muito forte, porque envolve cultura, envolve o ritmo de fala e principalmente o humor. É uma forma de dizer ‘a gente é daqui’”, afirma.
Moradora do interior baiano, Dona Maria das Dores, nascida em 1955 e residente na cidade de Candeal, relembra com saudosismo as expressões que marcaram sua juventude.
“Na minha época, a gente dizia muito ‘oxente’, ‘visse’, ‘mainha’ e ‘painho’, mas era tudo mais simples, sabe? Quando alguém aprontava, a gente falava ‘esse menino é danado’ ou ‘é levado da breca’. Não tinha esse tanto de malícia nas palavras como hoje”, conta. Para ela, o uso atual das gírias mudou bastante, principalmente entre os mais jovens. “Hoje eu vejo esse povo falando ‘lá ele’ pra tudo, dando risada… às vezes nem entendo direito. Acho engraçado, mas também sinto que as palavras perderam um pouco da inocência de antigamente.”
Redes sociais
Com o avanço das redes sociais e das novas tecnologias, a circulação dessas expressões se tornou ainda mais rápida, o que contribui para mudanças constantes no significado das palavras. Ao mesmo tempo, a professora alerta para um fenômeno recente: a padronização da linguagem.
“Hoje, muitos textos, principalmente nas redes, têm um formato muito parecido, mais organizado, mais correto, mas também mais igual e previsível. Isso pode ir apagando aos poucos as marcas individuais e regionais da fala”, pontua Cláudia.
Ela destaca ainda que esse processo não deve ser confundido com o ensino da norma culta, que continua sendo essencial para a comunicação formal. Segundo a professora, o desafio atual é outro: preservar a diversidade linguística diante da influência de novos padrões de escrita, muitas vezes impulsionados por tecnologias digitais.
“Quando a gente pensa nas expressões dos nossos avós e bisavós, existe uma riqueza ali. São formas de falar que carregam memória. Por isso, falar de gíria e variação linguística hoje também é falar de identidade. A língua continua mudando, mas o desafio é não deixar que tudo soe igual, a ponto de a gente perder o jeito próprio de falar”, conclui.
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Já o aposentado José Hildebrando Ribeiro, de 66 anos, que deixou Salvador para viver em uma roça no município de Coração de Maria, acredita que as gírias refletem o tempo em que se vive.
“Quando eu era mais novo, a gente usava muito ‘massa’ pra dizer que algo era bom, ‘arretado’ também, e ‘cabra da peste’ pra elogiar alguém corajoso. Tinha também ‘aperreado’, quando a pessoa tava preocupada. Era um jeito nosso de falar, bem da terra”, lembra. Apesar de reconhecer a criatividade das novas gerações, ele faz uma ressalva: “Hoje em dia eu acho tudo muito rápido, as gírias mudam toda hora. Tem umas que a gente nem entende mais. Mas faz parte, né? Cada tempo tem seu jeito de falar. Só acho importante não esquecer das nossas raízes.”
Mais do que simples expressões do cotidiano, gírias como “lá ele”, “barril” e “resenha” revelam a dinâmica de uma língua viva, que se reinventa constantemente sem perder suas raízes. Em Salvador, falar é também uma forma de afirmar quem se é, e de onde se vem.
*Sob a supervisão do editor Anderson Orrico
