
Após a cantora Valesca Popozuda criticar a expressão “lá ele”, muito usada na Bahia, e afirmar que o termo seria homofóbico, comediantes de Salvador e o Grupo Gay da Bahia (GGB) se posicionaram sobre a polêmica criada acerca do termo.
O presidente do GGB, Marcelo Cerqueira, não acredita que a expressão seja ofensiva. Para ele, trata-se de um termo enraizado na cultura baiana. “Eu não vejo como homofobia. É uma expressão da Bahia, algo que tem uma conotação sexual, uma expressão cultural e é igual a chuchu, cabe com tudo”, disse.
Ele ainda destacou que até a palavra “veado”, antes usada de forma ofensiva, vem sendo ressignificada entre os baianos.
Marcelo acrescentou que o “lá ele” costuma ser utilizado em tom de humor, arrancando risadas em diferentes situações, mas fez um alerta: “Muitas palavras podem ser consideradas homofóbicas, dependendo da forma que você emprega”.
Comediantes
Acostumados com diversas expressões típicas da Bahia, alguns comediantes também opinaram sobre o assunto. Fábio Lacerda discordou da cantora Valesca Popozuda e afirmou que o “lá ele” não passa de uma gíria comum. “Achei que ela foi infeliz no comentário. O ‘lá ele’ é usado como uma gíria, assim como ‘na moral’, ‘laela’, que é traduzido pelo nome desgraça”, pontuou.
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Segundo ele, o termo funciona como uma espécie de proteção no dia a dia, sem intenção de ofensa. “A gente usa o ‘lá ele’ como uma forma de defesa com qualquer coisa que a gente saiba que tem uma conotação sexual. É um escudo protetor baiano, não é de forma preconceituosa, porque a gente leva na resenha mesmo”.

Para Renato Piaba, a expressão carrega um significado para os baianos totalmente diferente do que a cantora pensa. Ele ainda fez um comparativo com gírias utilizadas em outros estados.
“Essa aí é a visão de Valesca, entendeu? Ela pode interpretar como ela quiser. Agora, 4 milhões de pessoas na Bahia entendem que ‘lá ele’ é que nem o ‘oxexexe’. É um jeito de se falar como o carioca fala ‘iaêê’”, destacou.
O humorista ainda complementou dizendo que, apesar de respeitar o pensamento da cantora, o “lá ele” usado na Bahia não carrega nenhuma conotação homofóbica. “Então, a opinião dela a gente respeita, porque opiniões têm que ser respeitadas. Agora, 4 milhões de pessoas na Bahia entendem que ‘lá ele’ quer dizer ‘isso é com você’. É questão só de interpretação, sem a maldade”.

Comunidade LGBTQIAPN+
Integrante da comunidade LGBTQIAPN+, o supervisor de operações Felipe Loiola, que mantém uma relação homoafetiva há dois anos, afirmou que não se sente ofendido com a expressão. Para ele, pessoas de fora da Bahia podem ter dificuldade em compreender o contexto.
“Acho essa percepção é um pouco equivocada, principalmente pra quem não é daqui. ‘Lá ele’ é uma expressão muito cultural aqui da Bahia, usada quase sempre de forma automática, pra cortar duplo sentido ou brincar com a situação. Pra quem vive aqui, o sentido passa muito mais por humor e linguagem regional do que por preconceito”, detalhou.
Ele reforçou ainda que o contexto é essencial na interpretação. “Claro que o contexto importa, mas generalizar a expressão como algo ofensivo pode acabar desconsiderando toda a carga cultural que ela tem. Talvez o ponto seja mais sobre como cada pessoa interpreta do que sobre a intenção real de quem fala”, concluiu.
