
A poesia tem o poder de traduzir em versos o que a alma sente, expressar os pensamentos mais profundos e expor as dores da sociedade através das rimas. Em Salvador, os poetas de rua resistem em meio aos desafios da grande metrópole, enquanto cumprem o propósito de espalhar arte para o povo. Entre os remanescentes desse trabalho está Lucas Leite, mais conhecido como Urubu do Quilombo.
Nascido e criado em Mirantes de Periperi, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, Urubu do Quilombo começou a recitar os próprios textos nos transportes públicos da capital baiana há 13 anos. Neste sábado (21), no Dia Mundial da Poesia, o artista falou sobre a realidade de quem vive dessa atividade profissional e defendeu a importância dos poetas para a população.
“É uma rotina difícil, mas eu acho que eu não escolheria outro caminho não. Para mim, a arte ressignifica a vida, ela dá propósito. Às vezes as pessoas estão vivendo suas metas, indo para o corre ou estudar, mas vivendo por obrigação. E a arte dá aquela sensação de alívio, de respirar, fazer uma pausa”, declarou ele em entrevista ao MASSA!.
Eu descobri que era a arte o caminho

As poesias viraram o ganha pão do jovem de forma espontânea, após o incentivo de um colega. Na primeira vez que foi recitar em público, Lucas Leite “travou” e não conseguiu dar continuidade ao texto, mas ele decidiu tentar novamente. Foi então que tudo fluiu e nasceu o Urubu do Quilombo.
“O Urubu do Quilombo surgiu para contar a história de Zeferina, líder do Quilombo do Urubu, que é uma mata que hoje chamam de Barragem ou Parque São Bartolomeu. É a mata que corresponde à região onde eu vivo, no caso de Mirantes, Colinas, Bambu, toda essa região é banhada pela mata, que é a Bacia do Quilombo do Cobre, e é para contar essa história”, explicou.
Ele sai todos os dias da semana, exceto domingos, às 9h, e volta para casa às 22h. Urubu intercala a rotina entre ônibus, ferry-boat, bares, em praças e pontos culturais da cidade, como o Glauber Rocha. Para ir e retornar, o poeta depende da gentileza dos motoristas e cobradores de ônibus, a quem costuma fazer amizade para facilitar a vida.
Apoio materno e inspirações
A mãe dele teve um papel fundamental na sua carreira. Ela faleceu durante a Pandemia da Covid-19, mas deixou um legado que o filho não permite apagar: “Minha mãe era analfabeta, mas ela me viciou em leitura. Desde guri que eu sou viciado em livros, eu sempre fiz poesia desde os meus seis ou cinco anos”.
As temáticas das poesias dele são variadas, mas o que Urubu não abre mão é de retratar as pessoas que estão a sua volta e seus respectivos sonhos, dores e alegrias. Ele também aborda a rotina na periferia e os impactos negativos da violência e do tráfico de drogas.

“Minhas inspirações são pessoas reais. É meu vizinho, minha avó, a galera da feira, são pessoas aleatórias que às vezes ficam invisibilizadas. Eu acho que essa busca de ser Urubu do Quilombo é meio que trazer e contar essas histórias. Eu falo sempre que o Urubu é a voz dos excluídos, não é só a minha voz, é a voz do que minha periferia, minha quebrada pensa, só que nem todo mundo tem oportunidade de dizer”, disse ele.
O poder dos poetas de rua
Em 13 anos de poesia, Urubu do Quilombo já passou por diversos lugares, subiu e desceu de incontáveis ônibus e ferry-boats e, curiosamente, nunca presenciou um assalto. A prática criminosa nos coletivos da cidade era bem comum há alguns anos, mas os poetas parecem carregar um tipo de proteção contra esse mal.
Onde existe arte e cultura, o mal não tem coragem de se propagar

“A gente tem até uma piada interna entre os poetas, que a gente fala que onde existe arte e cultura, o mal não tem coragem de se propagar. Eu já vi assaltantes descendo do ônibus porque eu entrei. Até desceu xingando, mas ele desceu e não deu a voz de assalto”, relatou o artista.
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Outro fator curioso sobre essa “proteção” é que a arte permite que esses poetas circulem por toda Salvador sem se preocupar ou temer algum tipo de retaliação.
“Eu, por exemplo, moro na Suburbana, mas tem hora que eu estou na Gamboa, tem hora que eu estou no Rio Vermelho, em Itapuã e circulando a cidade. Se a gente for se limitar pelo território, pelas guerras de facções, será que a arte circularia pela cidade?”, refletiu Urubu do Quilombo.
Parcerias que fazem diferença no corre

A batalha para garantir o sustento trabalhando dessa forma fica menos árdua na companhia de boas pessoas. O respeito pelas rimas de outro poeta podem fortalecer laços e até garantir parcerias que fazem total diferença no corre.
Felipe Pereira de Santana é um poeta cria do Garcia, mas mora no Calabetão. Conhecido como Guaxi, ele fez amizade com Urubu do Quilombo através da esposa e se tornou um parceiro para o colega de trampo. Eles são sempre receptivos a outros poetas.
“Um certo dia, a gente se bateu com a caixinha na mão, aí um olhou para o outro e falou: ‘E aí pai, vamos fazer um corre?’. Formamos um grupo, porque ele já tinha amigos que eram amigos meus também, e esses amigos se aliaram a gente. Aí ocorre assim, se eu me bater com ele, a gente já se junta para fazer o corre. Se vir outro poeta, a gente já se junta com outro poeta”, explicou Guaxi.

Urubu ainda contou sobre as batalhas de rimas, que costumam reunir poetas, MCs e rappers. Ele rebateu os comentários de que os eventos são sem propósito ou de jovens delinquentes.
“Quando você vê uns MCs, poetas, organizando uma batalha de resistência, acredite, ali é um movimento de contrapor a violência. A gente não é contra a cultura, a gente contrapõe a violência, contrapõe a negligência do Estado. Porque às vezes o poeta é assistente social, o poeta vira um pesquisador. Às vezes o poeta é o braço que tira alguém do crime, só que nem sempre ele é reconhecido”, argumentou.
O cenário ideal para os poetas de Salvador
Segundo a opinião do Urubu do Quilombo, a falta de apoio prejudica o surgimento de novos artistas de rua e a sobrevivência daqueles que já estão nesse caminho há muitos anos. Depois da pandemia, o número de poetas de ônibus reduziu justamente pela dificuldade de se manter financeiramente na época em que não era indicado sair de casa. Como a profissão não é reconhecida, muita gente não conseguiu seguir trabalhando.

“Acho que a maior dificuldade é que os poetas e artistas não são assistidos pelo Estado, nem por nenhum órgão. Os poetas têm que ser eles por eles mesmos, e se não fosse a ajuda coletiva da galera do ônibus, da galera do ferry-boat, com o povo de fato ajudando, talvez a gente nem conseguisse manter o nosso trabalho funcionando”, disparou.
A gente faz arte de rua para rua. Nem sempre os palcos são permitidos para os artistas e poetas

A falta de reconhecimento e valorização pesam no dia a dia dos poetas. Para Urubu do Quilombo, a sensação é de que muitas vezes eles são tratados como pedintes e não como trabalhadores. Apesar disso, ele segue firme dando continuidade ao propósito que acredita.
“Eu sinto que as pessoas de fato precisam ir à arte. A gente não vai no teatro, mas o poeta traz o teatro para você. O que a gente faz não é só por nós, a arte é necessidade básica no nosso país, só que é uma necessidade básica que nos é negada”, defendeu.
Por fim, o jovem de Mirantes de Periperi traçou o cenário ideal que ele imagina para os poetas de Salvador: “Acho que os poetas teriam espaço para circular de graça nos ônibus, ferry, trem e metrô. O metrô para nós é proibido, se esse espaço fosse liberado, se a mídia falasse com mais verdade sobre nós, sobre como é a importância do nosso trabalho, eu acho que esse seria o cenário ideal. A gente não precisa de muitas coisas, só precisa de oportunidades”.
