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Tem de tudo - 20/03/2026, 06:00 - Vitória Sacramento*

Inusitado: conheça comidas e bebida exóticas de Salvador

Versões como acarajé de frango e até bebida com o bolinho dividem opiniões

Acarajé de frango
Acarajé de frango |  Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

O acarajé é intocável? Em Salvador, berço de uma das maiores expressões da cultura afro-brasileira, a pergunta tem provocado debates, especialmente quando o tradicional bolinho de feijão-fradinho começa a ganhar versões inusitadas, como o acarajé de frango.

A proposta surgiu da necessidade. A baiana de acarajé Núbia Barbosa, de 46 anos, encontrou na adaptação uma forma de atender clientes com restrições alimentares, sem abandonar completamente a essência do seu trabalho.

“Eu sou baiana de tradição, então no tabuleiro não posso mudar. Mas, em eventos, já fiz adaptações. Teve cliente que não comia camarão, então pensei em uma alternativa”, explica.

Foi assim que nasceu o chamado acarajé de frango, uma versão que substitui o camarão por uma preparação à base de peito de frango. Apesar da aceitação em alguns contextos, Núbia é direta ao avaliar o resultado.

“Perde no sabor, sim. E como perde. Quem já conhece o tradicional sente a diferença. Mas atende quem nunca experimentou ou não pode comer camarão”, afirma.

A adaptação levanta um ponto delicado: até que ponto é possível inovar sem descaracterizar um patrimônio cultural? O acarajé, mais do que comida, é símbolo religioso e histórico, ligado às tradições do candomblé e reconhecido como patrimônio imaterial.

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Mesmo assim, a criatividade tem avançado. Além do acarajé de frango, outras releituras vêm chamando atenção, algumas com mais aceitação, outras nem tanto.

Um dos exemplos mais emblemáticos é a chamada “cachaça com acarajé”, uma bebida artesanal que mistura dois patrimônios culturais: o acarajé e a cachaça. A ideia pode soar estranha à primeira vista, mas tem conquistado espaço em eventos e feiras gastronômicas.

Segundo o sommelier de cachaça Raimundo Freire, criador da bebida, a proposta vai além da provocação. “Se permita apreciar. Se você tem alguma restrição, é respeitável, mas experimente com moderação. É algo diferente, que faz você até rir de si mesmo”, afirma.

A bebida, desenvolvida após cerca de dez meses de testes, carrega elementos sensoriais do próprio acarajé. “Você sente o camarão, o azeite, a massa… é uma experiência que não passa indiferente”, explica Raimundo, que também destaca o valor simbólico do produto. “Estamos falando de dois patrimônios dentro de um só: o acarajé e a cachaça.”

Criador garante que dá pra sentir o gosto do acarajé na cachaça
Criador garante que dá pra sentir o gosto do acarajé na cachaça | Foto: José Simões/AG. A Tarde

A proposta dialoga com uma tendência global de ressignificação da comida. Em países como o Japão, por exemplo, há sabores pouco convencionais para paladares estrangeiros, como sorvete de wasabi. Já na Islândia, pratos como o hákarl (carne de tubarão fermentada) desafiam turistas. No Brasil, a lógica não é diferente: o tacacá com jambu, típico da região Norte, causa estranhamento em quem não está acostumado com a sensação de dormência na boca assim como a lambreta para nós baianos.

Para Raimundo, o conceito de “exótico” é relativo. “Exótico para quem? O que é comum para um pode ser estranho para outro. A gastronomia é local, é identidade”, pontua.

A criatividade também chega a outros formatos, como a pizza inspirada no acarajé. A ideia surgiu como uma brincadeira nas redes sociais, mas chamou atenção pela mistura de elementos típicos com a culinária italiana.

Acarajé com a proteína
Acarajé com a proteína | Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

“A gente usou vatapá, camarão seco, vinagrete e até pedaços de acarajé na massa. Mas é mais uma brincadeira mesmo. O soteropolitano não gosta que mexa no acarajé dele”, conta o pizzaiolo Ricardo Kraychete, arrancando risadas.

Entre resistência e curiosidade, essas experiências mostram que Salvador segue fiel às suas raízes, mas não deixa de experimentar novos caminhos. No fim das contas, seja no tabuleiro tradicional ou em versões reinventadas, o que está em jogo é mais do que sabor: é identidade, memória e a capacidade de se reinventar sem perder a essência.

*Sob a supervisão do editor Anderson Orrico

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