Protestos, insatisfação e o clamor de uma classe trabalhadora marcaram o início da última semana, com a mobilização nacional de motoristas e motoboys de aplicativo, que, em Salvador, optaram pelas regiões do CAB, a Paralela e o Iguatemi, de modo a pedir por atenção à rotina do dia a dia. Entre as reivindicações, os colaboradores clamaram por melhores condições no serviço.
As atribuições das plataformas, aliadas às cláusulas da PLP 152/2025 e outras cobranças foram os temas recorrentemente discutidos pelos protestantes. O MASSA! acompanhou o movimento e ouviu alguns dos empregados a respeito das reclamações, registradas também em outros estados.
Entre as 250 mil pessoas que tinham um veículo como local de trabalho em 2024, número que representa a crescente de quase 50% do número de pessoas que trabalham em automóveis, na Bahia, em dez anos, já que em 2014 existiam cerca de 168 mil, está o motorista por aplicativo Edson Custodio, de 47 anos, que atua na área há cerca de nove anos. Ele desabafa com a reportagem sobre o rumo que a classe tomou nos últimos meses. Segundo o rapaz, as condições atuais têm pesado mais no bolso e desapontado o trabalhador.
"Hoje tudo pesa no bolso para a gente, porque todo custo é nosso. A gente compra carro, a gente faz a manutenção, a gente bota combustível, a Uber só ganha e alega que não tem lucro. Na verdade, a Uber não sabe quanto é para colocar um pneu, a gente sabe. O custo é todo com a gente: é combustível, é manutenção, é tudo", pontua.
É o nosso trabalho, é o nosso suor, e infelizmente não é bem reconhecido nem bem remunerado
Edson Custodio, de 47 anos
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Com um currículo de quase 40 mil viagens, o homem reflete se ainda é favorável persistir como motorista por aplicativo nos tempos de hoje, afirmando que paga as contas com dificuldade, mesmo trabalhando pesado:
Se eu disser a você que não dá para eu pagar minhas contas, eu tenho que trabalhar muito.
Edson Custodio, de 47 anos

"Eu tenho que rodar 12 horas por dia para poder a conta fechar. Porque hoje, quando a gente bota no lápis o custo de um carro rodar, combustível, manutenção, tudo isso que eu já lhe falei aqui, é um custo absurdo", brada.
Motoboys na bronca
Outro ponto a ser aclamado pela classe, em especial os motoboys, envolve uma novidade lançada pelos aplicativos de viagem nos últimos meses, nomeada como Painel de Direção. O acompanhamento na forma de condução e punições para possíveis infrações descontentou os trabalhadores.
Para Carlos Rios Cunha Júnior, motoboy há um tempo, o que mais incomodou foi o sistema que monitora variações de velocidade acima do esperado para o trajeto selecionado. Segundo ele, a regulagem está errada e causa transtornos aos condutores.
"Reconheço que tem alguns riscos, que tem algumas coisas que precisam ser feitas para que a gente possa dirigir com segurança, tanto para o passageiro quanto para a gente. Porém, a gente sabe dos riscos, a gente sabe do dia a dia de Salvador, dos riscos. Então, nem todo mundo age de forma imprudente", inicia.
"Para mim, eu acho que o aplicativo está querendo forçar a gente a fazer uma coisa que eles querem, mas que, de certa forma, não tem como ser feita totalmente", argumenta.

Na declaração ao MASSA!, ele explica que o aplicativo reduz drasticamente a velocidade em determinadas vias, como por exemplo registrar 30km/h em uma via de 60 km/h.
"A gente tem que se defender primeiro. Tem que procurar saber o motivo de a gente estar acelerando um pouquinho a mais. Antes de bloquear, eles têm que dar a opção de o motorista reportar o motivo e ter uma prova de que a gente realmente esteve acima da velocidade", declara.
Não é porque eu passei um pouquinho da velocidade que eu deva ser banido de vez do aplicativo, porque isso vai contra também o direito de defesa
Carlos Rios Cunha Júnior
Pronunciamento da Amobitec
Em relação às reclamações, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) afirma, em nota enviada ao MASSA!, que identifica pontos no substitutivo ao PLP 152/2025 que necessitam de aprimoramento e reafirma a disposição de contribuir para a construção de uma regulamentação equilibrada para os trabalhadores por aplicativos. Confira:
"A imposição de uma taxa mínima no delivery e a limitação na taxa de serviço das plataformas são medidas que podem afetar o equilíbrio entre oferta e demanda, a renda dos trabalhadores e o acesso da população aos serviços. Além disso, a competência da Justiça do Trabalho para analisar relações envolvendo trabalhadores autônomos representa uma inovação no direito brasileiro, o que pode gerar insegurança jurídica tanto para as plataformas quanto para os próprios trabalhadores.
A Amobitec defende, desde a publicação de sua Carta de Princípios em 2022, uma regulamentação que assegure a viabilidade econômica das plataformas, a proteção social dos trabalhadores autônomos e a democratização dos serviços. A Associação reitera seu compromisso de participar ativamente do debate e de colaborar para soluções que sejam positivas para todos os brasileiros".
