
Mesmo representando 28% da população brasileira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mulheres negras seguem sub-representadas nos espaços de poder. Dados do Instituto Ethos mostram que apenas 1,8% das mulheres negras ocupa cargos em conselhos administrativos no país. No recorte salarial, levantamento da base Ibre/FGV indica que mulheres recebem, em média, 48% do que homens brancos ganham.
Na indústria cultural, que envolve música, eventos, audiovisual e entretenimento, o cenário não é diferente. Embora estejam historicamente no centro da produção artística brasileira, mulheres pretas ainda enfrentam barreiras quando o assunto é liderança, gestão e tomada de decisão.
Na Bahia, a empresária Marcela Silva é um exemplo desse movimento de ocupação estratégica. Atuando na gestão de carreira artística e produção de eventos, ela representa uma geração de mulheres negras que deixaram de ser apenas força criativa para assumir funções executivas e de planejamento.
Para Marcela, ocupar esses espaços é também um posicionamento político. “Estar nesses espaços com a minha identidade é, por si só, um ato político. Ser uma mulher negra, lésbica, criada no interior e desfem, num cargo de decisão, ainda incomoda muita gente, e isso me impulsiona”, afirma.
Ela defende que a produção cultural precisa ser pensada para além da estética. “Produzir cultura não é um movimento unilateral. É pensar estrutura, sustentabilidade e discurso. Quando uma mulher preta e lésbica lidera, ela questiona os padrões, reposiciona corpos e ideologias e propõe novas formas de existir dentro da cultura.”
O avanço, no entanto, não se limita à Bahia. No cenário nacional, Preta Gil, que faleceu recentemente, deixou um legado importante como artista, empresária e voz ativa na defesa da diversidade. Além da carreira musical, consolidou projetos culturais e empresariais que movimentaram o mercado e abriram espaço para artistas diversos, especialmente negros e LGBTQIAPN+. Sua trajetória permanece como símbolo de representatividade e liderança feminina preta na indústria do entretenimento.

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Taís Araújo
Já Taís Araujo também se tornou referência ao expandir sua atuação para o empreendedorismo e para a liderança de debates sobre representatividade no audiovisual brasileiro, influenciando decisões e políticas dentro da indústria.
Esses exemplos ajudam a ilustrar uma transformação: mulheres negras vêm ocupando espaços estratégicos, onde se decide orçamento, curadoria e direcionamento de projetos, e não apenas posições de visibilidade artística.
A indústria cultural é uma das áreas que mais movimentam economia e opinião pública no país. No entanto, historicamente, os cargos de liderança foram majoritariamente ocupados por homens brancos.
Quando mulheres negras assumem esses postos, o impacto vai além da representatividade. Amplia-se o olhar sobre quem é contratado, quais narrativas ganham palco e como os recursos são distribuídos.
Para Marcela, o objetivo é coletivo. “O que eu quero é abrir caminhos para que mais de nós estejamos onde sempre deveríamos ter estado. A comunicação, a cultura, o entretenimento só se tornam potentes quando são feitos com verdade, pluralidade e afeto”, conclui.
*Sob a supervisão do editor Anderson Orrico
