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Correrias! - 03/02/2026, 08:00 - Dara Medeiros

Moradores do Candeal aproveitam shows no Guetho para faturar no verão

Eventos no bairro geram oportunidades para empreendedores ganharem o pão de cada dia

Moradores do Candeal lucram durante eventos no Candyall Guetho Square
Moradores do Candeal lucram durante eventos no Candyall Guetho Square |  Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Quando a percussão da Timbalada ecoa no Candyall Guetho Square, todo o bairro do Candeal, em Salvador, sente grandes impactos. Muito além da questão musical, o centro cultural fundado por Carlinhos Brown no ano de 1996 também trouxe para moradores da localidade a oportunidade de empreender nos dias de shows. Desde então, muita gente tira o seu sustento ou faz uma renda extra ali.

Para os cantores Buja Ferreira e Denny Denan, atuais vocalistas da banda Timbalada, é um orgulho e uma grande alegria poder ser um instrumento para ajudar tantas pessoas de maneira direta e indireta.

“A Timbalada é um movimento cultural e social que gera emprego e renda para a comunidade. Eu, quando entrei na Timbalada, vim morar aqui perto para entender o que é o Candeal, e as pessoas falavam ‘a gente espera chegar o verão, porque a gente vive o ano todo com a verba que arrecada durante os ensaios’, então isso é muito importante”, declarou Buja.

Buja Ferreira, um dos vocalistas da banda Timbalada, é apaixonado pelo Candeal
Buja Ferreira, um dos vocalistas da banda Timbalada, é apaixonado pelo Candeal | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Denny falou sobre as mudanças positivas no bairro, o surgimento de grandes prédios e empreendimentos e a valorização da região. O artista ainda destacou faz parte da essência timbaleira se dedicar à missão de retribuir para a comunidade aquilo que eles conquistaram ao longo da trajetória do grupo.

“A Timbalada não é só uma banda que está no Carnaval, de ‘sai do chão’ e ‘bota a mãozinha pra cima’. Ela tem o lado social dela, que são os nossos timbaleiros, quem acompanha a gente também, o nosso trabalho desde o princípio, que são os nossos moradores aqui, que fazem o Candeal acontecer, que botam a sua guia, que trabalham nesse dia que é tão importante, então eu fico muito feliz, e a Timbalada também, por ser uma parte social de tudo aquilo que nos trouxe até hoje onde nós estamos”, disse ele.

Denny Denan e Buja Ferreira analisam impactos positivos da Timbalada no bairro
Denny Denan e Buja Ferreira analisam impactos positivos da Timbalada no bairro | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Pinturas corporais viraram ganha-pão

Consagrada como uma das oportunidades de empreendedorismo diretamente relacionadas à Timbalada, a pintura corporal virou símbolo da banda e se popularizou como uma febre na capital da Bahia. Agora, ela é muito presente no Centro Histórico de Salvador, especialmente entre turistas, e tem gerado empregos o ano inteiro.

As pinturas tribais, que carregam muita ancestralidade e identidade negra, se tornaram o ganha-pão de Mônica Regina dos Santos há alguns anos. A trabalhadora, que em dias comuns atua como cuidadora de idosos, sempre leva seus pincéis e suas tintas para a frente do Guetho Square com o objetivo de embelezar o público e voltar para casa com o bolso cheio de grana.

“Nascida e criada aqui no Candeal, desde pequena vi a Timbalada crescer, vi os tambores rufarem, aprendi tudo que eu sei com a Timbalada. Hoje em dia eu sou pintora oficial da Timbalada e todo mundo faz seu corre, vende sua cerveja, vende seu churrasco e ganha seu dinheiro. Todo mundo ganha”, falou ela.

Mônica Candeal já virou patrimônio da área
Mônica Candeal já virou patrimônio da área | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

A conexão da moradora com a banda é tão forte que ela já ficou conhecida pelo apelido de Mônica Candeal. Além disso, ela aprendeu percussão e costuma desfilar na folia com o bloco, tocando timbau ao lado de outras mulheres.

O sentimento dela é de pertencimento: “A Timbalada é uma família, então é só energia positiva e coisas boas, graças a Deus. Eu agradeço muito ao nosso mestre Carlinhos Brown que me deu essa oportunidade de a gente ter a Timbalada aqui”.

Comércio popular na porta de casa

Moradores vendem produtos na porta das casas
Moradores vendem produtos na porta das casas | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Quem frequenta o Candyall Guetho Square com certeza já se deparou com muitas caixas de isopor e pequenas barraquinhas montadas na frente das casas coloridas do bairro. Seja vendendo bebidas, lanches, artesanatos e até mesmo quilos de alimentos para quem precisa entrar nos eventos com o ingresso solidário, os moradores cultivaram a prática do comércio popular na porta das suas próprias residências.

Maria de Fátima Santana dos Santos, mais conhecida como Dona Maria do churrasco, chegou ao bairro com apenas 10 anos de idade. Algumas décadas depois, a Timbalada surgiu e ganhou bastante força, trazendo movimento para a localidade ainda na época que os ensaios aconteciam na rua.

A vendedora ambulante já trabalhou nos arredores de várias casas de show de Salvador e até mesmo nos circuitos carnavalescos, mas agora que se tornou viúva e chegou a uma idade mais avançada, ela prefere o conforto e a segurança de estar a poucos passos do lar: "Eu vendia muito no Carnaval, mas aí eu deixei, porque agora fico pertinho de casa".

Dona Maria do Churrasco chegou ao bairro aos 10 anos e acompanhou o início da Timbalada
Dona Maria do Churrasco chegou ao bairro aos 10 anos e acompanhou o início da Timbalada | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Outra figura conhecida pelos frequentadores do Candeal é a jovem Juliane Faustino, natural de São Paulo. Ela chegou à Bahia há um ano para morar com a mãe, que já vendia salgados em frente ao portão em dias de evento no Guetho. Juntas, elas começam a produção cedinho para deixar todos os lanches frescos e quentes para quem chega. A maior parte dos clientes é da própria equipe que trabalha nos ensaios, como seguranças, moças do caixa móvel e promotores.

"A gente mora aqui mesmo, a gente monta a barraca e fica aqui até o final do evento em todos os dias que tem ensaio, principalmente da Timbalada, mas tem esporadicamente outro tipo de evento também, e até que dá pra tirar um lucro bom", confessou.

Juliana Faustino veio de São Paulo para o Candeal e ajuda a mãe com a venda de salgados
Juliana Faustino veio de São Paulo para o Candeal e ajuda a mãe com a venda de salgados | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Juliana ainda falou sobre a diversão durante o trampo, porque acaba curtindo de longe a apresentações dos artistas e se entretendo com a movimentação nas ruas do Candeal.

"Além do dinheiro que a gente faz, tem a interação com o público, porque é uma festa, e pra quem não tem oportunidade de estar indo para o show, mesmo que do lado de fora, é um evento cultural, então é divertido", explicou.

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Já o empresário Rafael Ramos, dono do Bar do Cabaça, ponto muito tradicional da área, pega no batente diariamente e fala com propriedade sobre o impulsionamento nas vendas em dias de show no Candyall Guetho Square.

"O evento aqui no Candeal, no Guetho, mexe muito com a economia do bairro, é uma coisa muito boa para as pessoas que catam latas, para os ambulantes que vendem cerveja, todo mundo, aqui no bar bairro mesmo o movimento cresce para caramba", declarou.

Rafael Ramos, dono do Bar do Cabaça, tem o estabelecimento há 12 anos
Rafael Ramos, dono do Bar do Cabaça, tem o estabelecimento há 12 anos | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

O desejo de Cabaça é que haja muitas festas ao longo do ano todo no espaço, não apenas no verão: "Sempre estou orando para ter movimento o ano todo, de domingo a domingo, porque com certeza vai gerar mais emprego".

Tradição e oportunidade atraem pessoas de outras regiões de Salvador

A possibilidade de tirar uma graninha extra se espalhou pela cidade e tem atraído pessoas de outros bairros ao Candeal, como é o caso de Nilce Fernandes, moradora de Sete de Abril.

Nilce vende alimentos não perecíveis próximo a entrada do show. Ela recebeu um convite de uma amiga que já trabalhava lá há mais tempo e se interessou pela proposta.

Nilce Fernandes sempre volta para casa com o carrinho vazio e o bolso cheio
Nilce Fernandes sempre volta para casa com o carrinho vazio e o bolso cheio | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

“Eu saio cedo e venho e gosto muito. É um lugar que, graças a Deus, chego e vou para casa com meu carrinho vazio. Dá para lucrar, levar um dinheirinho que é bom, né? E trabalhar honestamente, não tem nada melhor”, contou.

Já Nélia Carvalho, de Itapuã, é artesã e faz parte de um dos projetos promovidos pelo Instituto Casa Laranja, que tem sede na rua do Candyall Guetho Square. Em dias de festa, o espaço abre as portas para que os integrantes das atividades exponham os seus trabalhos, consigam ter mais visibilidade e movimentem a economia criativa.

Nélia Carvalho é artesã
Nélia Carvalho é artesã | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

“Esse que é o grande barato, você oportunizar as pessoas a desenvolverem os seus projetos e principalmente os artesãos, que são pessoas que não são tão vistas no mercado comum, então esse é o momento de você poder mostrar. O meu trabalho, por exemplo, é de moda sustentável, reaproveitamento de materiais, da própria sustentabilidade da natureza, que ela está precisando de ajuda, então é unir o útil ao agradável”, concluiu.

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