
Nos últimos dias, a adultização de crianças se tornou um dos assuntos mais comentados em todas as mídias do Brasil. Após a repercussão do vídeo-denúncia do influenciador Felca, sites, jornais, programas de TV e muitos perfis nas redes sociais abordaram a pauta. Mesmo assim, o conceito ainda parece vago para grande parte da população. Afinal, quando somos crianças, todos sonhamos em ser adultos, mas onde se esconde o problema?
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O conceito de adultização consiste em atribuir funções, responsabilidades ou comportamentos exacerbados para os pequenos, como: dar à criança mais velha a função de cuidar do irmão mais novo; expor ao trabalho infantil a fim de fazê-la contribuir com as finanças de casa; e a exposição a ambientes inadequados para sua etapa de desenvolvimento.
“Isso pode gerar ansiedade, dificuldades emocionais, distorção da autoimagem e da noção de limites, além de comprometer a capacidade de brincar e aprender de forma saudável. A infância é o tempo do jogo simbólico, da fantasia e da experimentação segura e protegida. Quando esse espaço é invadido por conteúdos adultos, a criança pode assumir papéis para os quais não está preparada, afetando seu desenvolvimento e suas relações futuras”, esclareceu a psicanalista e diretora do Colégio São Paulo, Larissa Machado, ao Portal MASSA!.
Apesar da atual repercussão, para os estudiosos da infância, esse não é um tema recente. Um relatório de 1904, produzido pelo Governo da Inglaterra, através do Comitê Interdepartamental sobre Deterioração Física, constatou que crianças – na época expostas ao trabalho infantil nas grandes fábricas da Revolução Industrial – que são adultizadas se tornam mais suscetíveis a condições como ansiedade, depressão, falta de empatia, problemas no processo de aprendizagem e falta de atenção, além de apresentarem maior irritabilidade e dificuldade de socialização.

No presente, o contexto social continua sendo um problema, mas, dessa vez, o trabalho infantil não é a única questão. Crianças que vivem nas periferias de Salvador possuem um contato maior com músicas de cunho sexual e violência explícita, por exemplo, recorrente em festas paredão, o que causa a distorção de imagem citada pela doutora, fazendo-as se sexualizarem mais cedo, muitas vezes também nas redes sociais, gerando justamente o conteúdo denunciado pelo influenciador Felca: a sexualização de menores de idade.
“A música tem um papel formador poderoso. Quando expostas repetidamente a letras pejorativas, que trazem conotações sexuais, de violência ou desrespeito, as crianças podem naturalizar padrões de agressividade, erotização precoce e desvalorização de si e do outro”, afirmou a psicóloga.
Para Helen Matos, mãe de Érick, de 11 anos, os locais onde os responsáveis levam seus filhos devem condizer com sua faixa etária. Para ela, um local inadequado expõe as crianças a diversas situações desnecessárias. “Tem ambiente que não é para você levar seu filho. Tem ambiente que você dá a entender que seu filho está no mesmo patamar que o seu, que ele pode estar na porta de um bar, por exemplo, e a gente sabe que, na porta de um bar, nós estamos sujeitos a tudo”.
Quando crianças são expostas a situações recorrentes nesses locais, como o consumo de álcool, drogas ilícitas e riscos à saúde física, suas mentes não conseguem compreender essas experiências por não possuírem a elaboração psíquica necessária, trazendo uma sensação de angústia e desamparo. O contexto cultural e social é um fator decisivo na construção da personalidade de uma pessoa, por isso, o cuidado de pais e responsáveis deve ser redobrado nos primeiros anos de vida.

“Nós, pais, somos os espelhos dos nossos filhos. Eu acredito que, quando a gente quer adiantar as coisas, principalmente com as meninas, influencia muito na futura mulher que ela vá se tornar”, afirmou Ana Caroline, mãe da pequena Pétala, de dois anos. “Se uma criança quer usar uma roupa que não é para a idade dela, um brinco que não é para a idade dela, um batom, uma maquiagem, é porque ela vê isso em outras pessoas presentes na rotina dela. E essas pessoas não fazem questão de explicar o que não pode, que não está na idade, que não está na fase ainda”.
Para além dos responsáveis, essa é uma questão para toda a sociedade, que já está baseada em costumes que reforçam a adultização e que são prejudiciais para a saúde mental e até física das crianças, já que a hipersexualização expõe os pequenos a riscos que vão além dos cognitivos, como o abuso, a exploração sexual e o tráfico humano, como retratado nas denúncias feitas no caso do influenciador Hytalo Santos.
“Isso está se tornando comum porque as pessoas estão normalizando uma menina de 10 anos usar fio dental na praia. E tem mãe que não liga, que deixa à mostra. Eu converso bastante com meu filho: ‘isso é coisa de adulto e isso é coisa de criança’. Se o responsável se impor, muita coisa melhora”, defendeu Helen.
Para a psicologia, preservar a infância permite a construção de adultos mais bem-sucedidos e criativos. “Como sociedade, precisamos refletir sobre a importância de oferecer espaços adequados e saudáveis para a infância, onde as crianças possam conviver, brincar e se desenvolver de forma segura e protegida”, concluiu a diretora Larissa Machado.