
Salvador é mais que sua história de primeira capital do Brasil, seus cartões-postais deslumbrantes e sua cultura efervescente. É, sobretudo, uma cidade de gente acolhedora, de um povo que transforma afeto em ação, que estende a mão não apenas aos turistas, mas também a seus próprios moradores.
Essa vocação para o cuidado com o outro se reflete na quantidade de projetos sociais que nascem dentro das comunidades, idealizados por pessoas que, mesmo tendo pouco, fazem questão de compartilhar o que têm com aqueles que precisam ainda mais.
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O Instituto Entre Aspas é um exemplo vivo dessa Salvador solidária. Fundado há mais de uma década por Gil de Leon, falecido em 2021, o projeto social situado na Chapada do Rio Vermelho, dentro do Complexo do Nordeste de Amaralina, não parou com a perda de seu criador. Pelo contrário: seguiu em frente sob a liderança da educadora Luciana Pimentel, que antes era voluntária e assumiu a coordenação para garantir que os mais de 150 alunos atendidos pelas oficinas gratuitas continuassem tendo acesso à educação e à cultura.
Funcionando em um espaço cedido pela Igreja Cristo Redentor, o projeto, conduzido especialmente por mulheres, vai muito além das aulas. Ele oferece uma oportunidade para que crianças, jovens e mulheres enxerguem um mundo que vai além dos limites da favela.
A gente consegue fazer uma diferença muito grande na vida dessas pessoas. A gente torna as pessoas mais felizes, dá empoderamento, esperança e voz,
Luciana Pimental
Ela ressalta que a transformação promovida por projetos como o Entre Aspas não se limita ao aprendizado técnico de uma oficina. É uma mudança na perspectiva de vida. “A gente lida aqui com pessoas que vêm pedir ajuda com um alimento, porque, se não for assim, vão roubar. Com pessoas que não conhecem o mundo lá fora, que nunca foram ali no centro da cidade, que não sabem pegar um ônibus porque acham que a vida termina aqui. E os projetos sociais, não só esse, todos, dão visão de mundo para essas pessoas”, afirma.

Luciana também destaca o papel fundamental desses projetos na construção de uma sociedade mais justa. “Não é sobre doar cesta básica, mas sobre dar o básico, que é conhecimento, informação. Esses projetos alcançam os espaços que o poder público não alcança. O poder público não consegue fazer tudo, salvar todo mundo, e o que nós fazemos é a ponte”, completa.
Resultados na prática
Entre os muitos exemplos de transformação promovidos pelo Entre Aspas, está João Carlos, morador da Chapada do Rio Vermelho, que chegou ao projeto em 2019 como aluno de violão. Filho de uma das voluntárias, João viu sua trajetória mudar graças ao projeto. Hoje, ele não apenas continua envolvido com o instituto, mas agora como professor de violão.
Eu comecei apenas para aprender violão e aqui eu abri os meus horizontes, comecei a querer conhecer mais coisas. Aumentou a minha visão de mundo para querer ter acesso às coisas que estão fora da comunidade.
João Carlos
Essa ampliação de horizontes fez João sonhar mais alto. Ele ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA) no primeiro semestre deste ano, aprovado em segundo lugar no curso de Educação Física. Agora, ele sonha em trabalhar com análises em clubes de futebol.

Filhos sempre sabem pra onde voltar
Salvador sempre revelou talentos para o mundo, e um de seus filhos mais ilustres é Acelino “Popó” Freitas. Nascido e criado na periferia da cidade, na Baixa de Quintas, Popó superou a pobreza para se tornar um dos maiores nomes do boxe mundial, tetracampeão mundial e ídolo dentro e fora dos ringues.

Ele sabe bem o que uma oportunidade pode significar para quem vem de baixo. Por isso, hoje, depois de conquistar tanto, Popó retribui abrindo as portas da sua academia, Popó Mão de Pedra, na Ladeira do Jacaré. Lá, ele oferece treinamentos gratuitos para alguns jovens que têm talento, mas não possuem condições de pagar pelas aulas de boxe.
O boxe me deu tudo que a vida não podia me dar. Então hoje o que a gente pode fazer é dar oportunidade.
Popó

Popó destaca que não é só sobre dar a luva, a bandagem... mas o espaço para que a pessoa possa treinar e fazer o que gosta. "Quantas pessoas bateram aqui pedindo para treinar? Damos espaço sempre que possível, como demos para um atleta que depois virou campeão baiano", disse.
O atleta em questão é o Vagner Taz, de 21 anos, que veio de Acajutiba, no interior da Bahia, e bateu na porta da academia de Popó às 5h de uma manhã, quando o espaço só abria as 10h, pedindo pra treinar. “Hoje estou aqui em Salvador graças a ele e à oportunidade que ele me deu de treinar aqui", disse.
Me inspiro muito no Popó por tudo que ele fez no boxe e por hoje estar trazendo uma nova geração para o esporte.
Vagner Taz

O mais legal é o que o eterno campeão, mesmo indo para tão longe, sabe que tem para onde voltar. “Eu tive propostas para ir para outros lugares, até me naturalizar em outros países, mas eu sempre amei Salvador e quis voltar para casa, comer o feijão da minha mãe, curtir a minha família, o bairro onde eu nasci e me criei. Sempre foi assim", disse Popó.
Histórias como a dessas pessoas, anônimas ou famosas, se repetem em Salvador, cidade que, em seus 476 anos, segue se transformando e transformando vidas. Uma cidade que não apenas encanta, mas salva.