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Especial Salvador - 29/03/2024, 06:20 - Amanda Souza- Atualizado em 29/03/2024, 07:37

Cajacity: bairro do 'corre' e de sonhos

O bairro mais famoso da cidade é de fato enorme, o que o permite abrigar todo tipo de coisa legal que se possa imagina

Escolinha de futebol Inter Cajazeiras começou como uma brincadeira de um professor de educação física há mais de 15 anos. O projeto oferece aulas de futebol para meninos e meninas
Escolinha de futebol Inter Cajazeiras começou como uma brincadeira de um professor de educação física há mais de 15 anos. O projeto oferece aulas de futebol para meninos e meninas |  Foto: Olga Leira / Ag. A Tarde

O soteropolitano é um abraço. Nessa cidade que canta, dança e brilha, o que salta aos olhos é a sensibilidade daqueles felizes por terem nascido dessa terra onde o povo se mobiliza, não espera sentado, faz o seu corre, dribla as dificuldades, cria as próprias oportunidades e coloca o pé na porta todos os dias para mostrar que está aqui e merece uma chance.

Não existe canto de Salvador que foi erguido sem as mãos do povo - e isso não é sobre as estruturas de concreto, mas do que há de mais concreto quando o assunto é o soteropolitano: doação. Doação do seu próprio tempo, do seu conhecimento, do pouco ou muito que se tem, daquilo que falta a alguém. Essa característica é como um cartão postal, mas que está muito mais presente nos espaços que não estão no imaginário do turista.

Em comemoração aos 475 anos de Salvador, celebrado neste 29 de março, o MASSA! conta histórias de projetos e iniciativas sociais nascidos na periferia que a pouco ou a nenhum custo para os beneficiados entregam, todos os dias, presentes para a cidade: formam cidadãos, atletas, artistas, empreendedores, grandes homens e mulheres que carregam mundo afora o nome e o legado da primeira e mais alegre capital do Brasil.

Escolinha de futebol Inter Cajazeiras começou como uma brincadeira de um professor de educação física há mais de 15 anos. O projeto oferece aulas de futebol para meninos e meninas
Escolinha de futebol Inter Cajazeiras começou como uma brincadeira de um professor de educação física há mais de 15 anos. O projeto oferece aulas de futebol para meninos e meninas | Foto: Olga Leira / Ag. A Tarde

E começamos por Cajazeiras, que não é grande apenas em dimensões territoriais. O bairro mais famoso da cidade é de fato enorme, o que o permite abrigar todo tipo de coisa legal que se possa imaginar - a começar pelas pessoas, que enxergam um potencial único naquele lugar e se mobilizam para que todos os talentos furem a bolha de “Cajacity”.

Conhece aquela letra do Léo Santana que diz “tem gente dançando, tem gente pulando, tô vendo meu povo feliz”? Esse trecho descreve bem uma iniciativa que chegou em Cajazeiras há 20 anos e fez muita gente dançar feliz desde então, o Balé da Comunidade. Fundado por um morador do local, o projeto oferece aulas de dança gratuitas para jovens que buscam um caminho na arte.

Tudo começou com o professor Édson Souto, que é líder comunitário e educador social, alguém que conhece bem as necessidades da região. Em 20 anos, a ideia de Édson resultou em mais de 1500 jovens passando por essa escola, 50 coreografias no repertório e muitas participações em espetáculos e com grandes artistas.

ESPECIAL ANIVERSÁRIO DE SALVADOR 2024

MASSA

Escolinha de futebol Inter Cajazeiras começou como uma brincadeira de um professor de educação física há mais de 15 anos. O projeto oferece aulas de futebol para meninos e meninas.

Na foto: Equipe de professores

Foto: Olga Leiria / AG. A TARDE

Data:26/03/2024
ESPECIAL ANIVERSÁRIO DE SALVADOR 2024 MASSA Escolinha de futebol Inter Cajazeiras começou como uma brincadeira de um professor de educação física há mais de 15 anos. O projeto oferece aulas de futebol para meninos e meninas. Na foto: Equipe de professores Foto: Olga Leiria / AG. A TARDE Data:26/03/2024 | Foto: gg

“O Balé da Comunidade tem uma função na vida desses jovens da periferia, que é tirá-los da invisibilidade social. A arte é o nosso elemento de cuidado dessas vidas, mostrando que eles podem ir longe, que eles são capazes e talentosos”, destaca Édson. “Eu frequentei grupos de dança na Graça, na Barra, na Pituba, lugares em que eu era o único bolsista. Então, quando vim morar em Cajazeiras, depois de viajar o mundo com a dança, eu decidi que iria devolver para a sociedade o que ela me deu, assim nasce o Balé da Comunidade”.

O projeto tem forte influência da dança popular regional, então os alunos dialogam com ritmos diversos como o samba de roda, o maculelê, a puxada de rede, e passam ainda pela dança contemporânea e até pelo balé clássico. Atualmente são 120 jovens matriculados, entre homens e mulheres, e os resultados são colhidos dia a dia, como garante Edson.

“Hoje temos três grupos que saíram daqui e viajaram pela Europa, alunos que foram chamados para audições na Turquia. Então tenho segurança em dizer que conseguimos tirar esses meninos da invisibilidade e o sonho deles é maior que o Balé da Comunidade, aqui é só uma porta de entrada para tudo o que eles podem construir no mundo inteiro”, diz.

Balé da Comunidade/ Espaço Boca de Brasa/Cajazeiras.
Balé da Comunidade/ Espaço Boca de Brasa/Cajazeiras. | Foto: Uendel Galter/ Ag A Tarde

EXEMPLO QUE TRANSFORMA

O bailarino e coreógrafo Allan Santana, que hoje é diretor do Balé da Comunidade, chegou ao projeto com apenas 12 anos de idade. Se a palavra ensina, o exemplo arrasta, e os alunos encontram nele alguém em quem se espelhar, alguém que é o resultado do que foi investido socialmente.

“Para mim é uma responsabilidade muito grande, um dia dancei aqui com um sonho e hoje eu oriento o sonho desses meninos. Trabalhamos coisas além da dança, preparamos eles para o mundo”, conta. “Isso aqui mudou a minha vida, vi lugares onde era possível eu pisar e eu nem imaginava. Aqui tem acolhimento, tem orientação para mudar mais que a rotina, mas o roteiro da vida deles”, explica Allan.

Tem muito mais gente mudando o roteiro de vidas lá em Cajazeiras. Se o assunto ainda é a dança, o Campo da Pronaica é o palco de quem usa muito bem os pés, mas dessa vez com a bola de futebol. O Inter Cajazeiras é mais uma iniciativa de um morador do bairro que buscou criar alternativas para as crianças da comunidade.

Allan Santana, diretor
Allan Santana, diretor | Foto: gg

Diógenis Lima é um professor de educação física que levou um projeto interdisciplinar para além das barreiras da escola onde ele dava aulas. O que era uma disputa entre as classes virou uma escola de futebol, que trata com seriedade o sonho das crianças de 4 a 14 anos do bairro. A escola tem um custo simbólico para manter a estrutura, mas conta ainda com uma porcentagem de bolsas para as famílias que não podem custear.

“Cajazeiras tem muitos projetos que buscam dar uma atividade às crianças. Nós estamos perdendo crianças para as drogas e para a rotina da tecnologia. Nossa batalha é para resgatá-los ou sequer deixar que eles entrem nesses vícios, oferecendo qualidade de vida com a prática esportiva”, explica o professor.

Da Inter Cajazeiras alguns alunos já conseguiram entrar para as categorias de base dos dois principais clubes do estado, Bahia e Vitória, fazendo do projeto uma importante porta de entrada para a carreira profissional, mas esse não é o único objetivo, segundo Diógenes. “O resultado é consequência, o que importa é que a criança esteja feliz, saudável e realizada. Esteja vivendo uma rotina adequada, se formando como um cidadão de bem, seja disciplinado, respeite o espaço do outro. São coisas que pregamos além do futebol”, diz o professor.

Edson Souto, fundador do Balé da Comunidade.
Edson Souto, fundador do Balé da Comunidade. | Foto: Uendel Galter/ Ag A Tarde

COLHENDO FRUTOS

As famílias atestam essa característica do projeto. Paulo Henrique Conceição é pai de Daniel, de oito, que está há pouco mais de três meses fazendo as aulas. Apesar do curto período, o pai já reconhece no filho os efeitos positivos. “Ele cresceu em saúde mental, em socialização com os colegas. É um projeto que permite que os alunos brinquem, aprendam, conheçam outras pessoas de fora do próprio convívio, outras realidades”, diz o pai.

Teliel Guedes e Kelly Guedes, pais de Ayam, de apenas 4 anos, também são só elogios à iniciativa. O pequeno tem muita afinidade com a bola, e a felicidade dele em campo só alegra os papais. “Eu vi nessa oportunidade uma maneira de discipliná-lo, algo que é característico do esporte”, disse Kelly. “Ter essa iniciativa aqui no bairro, perto da gente, é excelente. Evita deixar as crianças em casa, sem atividade, sem disciplina”, completou Taliel.

Édson Souto e Diógenis Lima são apenas duas das muitas pessoas que enxergaram em Cajazeiras um potencial para formar cidadãos. “É um bairro potente, uma periferia negra que entrega diversidade, um povo feliz e de bem que sonha todos os dias”, assume Édson. “Eu não troco Cajazeiras por nenhum Alphaville. Aqui tem respeito, tem pessoas de bem, tem educadores que estão fazendo a diferença na vida de crianças e desenvolvendo talentos”, completa Diógenis.

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