
A presença de mulheres ao volante dos ônibus de Salvador ainda é pequena, mas uma iniciativa da Prefeitura da capital baiana vem mudando esse cenário e reposicionando a cidade como referência nacional em inclusão feminina no transporte público. Por meio do programa “Mulheres no Volante”, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), Salvador tem ampliado a formação e a inserção de mulheres, incluindo vítimas de violência doméstica e mulheres em situação de vulnerabilidade social — em funções historicamente ocupadas por homens no sistema de transporte coletivo.
A experiência da capital baiana foi apresentada nos dias 13 e 14 de maio, em Brasília, durante o evento “Mulheres no Transporte – Trajetórias que Inspiram”, que reúne especialistas, gestores públicos e representantes do setor para debater estratégias de ampliação da participação feminina na mobilidade urbana. Salvador chegou ao encontro como uma das principais cidades brasileiras à frente de políticas públicas voltadas à equidade de gênero no transporte.
O avanço ganha ainda mais relevância diante do histórico do setor. Em 2023, apenas 12 mulheres atuavam como motoristas de ônibus na cidade, o equivalente a somente 0,33% do total de condutores do sistema, um dos menores índices entre capitais brasileiras de grande porte. A realidade reflete um problema estrutural e cultural que, segundo especialistas, começa antes mesmo da entrada no mercado de trabalho.
De acordo com Maíra dos Santos Moreira, gerente sênior de Inclusão e Transição Justa da C40 e do GCoM no Programa Mutirão Brasil, o transporte ainda é um ambiente profundamente masculinizado. “Existe ainda uma cultura muito presente de desconfiança sobre a capacidade das mulheres ao volante. Muitas profissionais relatam que sentem precisar dirigir melhor, errar menos e provar sua competência o tempo inteiro, porque a cobrança sobre elas ainda é muito maior do que sobre os homens”, afirma.
Ela destaca que os desafios enfrentados pelas mulheres vão além da qualificação profissional. Entre os principais obstáculos estão o assédio moral e sexual, a discriminação de gênero e a sobrecarga da dupla jornada. “Muitas mulheres entram no setor já sabendo que serão observadas e julgadas de forma diferente dos homens”, pontua Maíra.
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Criado justamente para enfrentar essas barreiras, o programa Mulheres no Volante oferece apoio para a mudança da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) da categoria B para a D, além de capacitação especializada para condução de ônibus em parceria com o SEST SENAT. O número de mulheres matriculadas dobrou, contribuindo para um aumento de 130% no quadro de motoristas mulheres no sistema de transporte da cidade.
Além das funções operacionais, o projeto também vem incentivando a participação feminina em áreas de manutenção e cargos de liderança. A meta da Prefeitura é alcançar, até 2028, 30% de participação feminina em áreas operacionais e de gestão, além de estimular a contratação de 40% das mulheres formadas pelo programa.
Para a vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, a meta é desafiadora, mas necessária. “Salvador tem construído uma política pública de mobilidade que também é uma política de inclusão, oportunidade e transformação social”, afirmou. Segundo ela, a iniciativa busca garantir formação, qualificação, segurança e geração de renda para mulheres que historicamente tiveram pouco acesso ao setor.
Ana Paula destaca ainda que uma pesquisa realizada pela Semob em 2024 identificou como principais dificuldades enfrentadas pelas trabalhadoras do transporte coletivo a discriminação de gênero, o assédio e a necessidade constante de provar competência profissional. “A dupla jornada também é outro desafio evidenciado pelas mulheres que atuam no setor, já que muitas conciliam a atuação profissional com cuidados domésticos”, disse.
O programa conta com o apoio do Programa Mutirão Brasil, iniciativa da C40 Cities e do Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e Energia, voltada ao fortalecimento de políticas climáticas e de mobilidade sustentável nas cidades brasileiras. A proposta integra inclusão social e geração de oportunidades à chamada transição justa, conceito que defende que ações de combate às mudanças climáticas também devem promover justiça social e acesso ao emprego.

Além da inclusão feminina, o programa apoia projetos estruturantes em Salvador, como a eletrificação da frota de ônibus, a expansão da mobilidade ativa e melhorias na caminhabilidade urbana. Atualmente, o setor de transporte representa cerca de 30% dos chamados empregos verdes nas cidades integrantes da rede C40.
Reconhecida nacional e internacionalmente, Salvador já coleciona premiações pela iniciativa. Em 2025, o programa Mulheres no Volante venceu o prêmio Smart City Expo Curitiba na categoria Equidade Social e recebeu menção honrosa no Prêmio Parque da Mobilidade Urbana, voltado a iniciativas públicas inovadoras.
“Com o Mulheres no Volante, estamos ampliando o acesso das mulheres a profissões historicamente masculinas, garantindo formação, qualificação e geração de renda, mas, sobretudo, abrindo portas para espaços e oportunidades que muitas vezes demorariam muito mais para chegar”, concluiu Ana Paula Matos.
