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Carnaval - 06/02/2026, 06:00 - Vitória Sacramento*

Cores e indumentárias dos blocos afro têm vários significados

Filhos de Gandhy, Ilê Aiyê, Olodum, Malê Debalê e tantos outros blocos conduzem milhares de foliões pelos circuitos

Bloco afro durante desfile
Bloco afro durante desfile |  Foto: Silvio Tito/SECOM PMS

Salvador se prepara para mais um Carnaval com a forte presença dos Blocos Afro, cujas cores, indumentárias e adereços seguem traduzindo, em pleno 2026, a identidade afro-brasileira construída ao longo de décadas de resistência. Desde a fundação do Ilê Aiyê, nos anos 1970, essas agremiações ocupam os principais circuitos da festa não apenas com música e dança, mas com uma estética carregada de significados históricos, religiosos e políticos.

Filhos de Gandhy, Ilê Aiyê, Olodum, Malê Debalê e tantos outros blocos conduzem milhares de foliões pelos circuitos Dodô (Barra/Ondina), Osmar (Campo Grande), Pelourinho e, mais recentemente, pelo Circuito das Águas, em Itapuã. No cortejo, a leitura visual das fantasias e dos abadás chama atenção pela coerência simbólica, fundamentada em referências afrodiaspóricas e nas religiões de matriz africana.

“Os Blocos Afro são projetos políticos e culturais organizados a partir da identidade negra. Criados majoritariamente a partir de 1974, com o Ilê Aiyê, essas agremiações passaram a disputar espaço na festa ao afirmar uma estética própria, ancorada na valorização da negritude em um Carnaval que, até então, marginalizava corpos e narrativas negras”, explica a especialista em Colorimetria e Consultora de Imagem Identitária, Cáren Cruz. Segundo ela, “as cores, tecidos, colares, códigos e símbolos carregados no corpo surgem como extensão dessa luta por direitos e como um manifesto de posicionamento dentro, e historicamente fora, do Carnaval”.

Desfile de bloco afro
Desfile de bloco afro | Foto: Luan Teles/Secult PMS

A presença de cores específicas nos blocos não é aleatória. O branco e o azul dos Filhos de Gandhy remetem a Oxalá e Ogum; o dourado e o amarelo já celebrados pela Banda Didá evocam Oxum; enquanto estampas, miçangas e tecidos africanos dialogam com reinos, territórios e cosmologias do continente africano. Para Cáren, essa estética carrega uma história de protesto e afirmação identitária.

“Quando os Blocos Afro ocupam as ruas com cores, tecidos e símbolos, eles estão comunicando valores, histórias e pertencimento. O branco associado à paz e à espiritualidade, os tons ligados aos orixás, os búzios como símbolo de proteção e ancestralidade. Esses elementos funcionam como códigos sociais que narram orgulho, ancestralidade e espiritualidade”, afirma.

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Além da dimensão cultural, o Carnaval também assume um papel educativo. A especialista destaca que a indumentária dos Blocos Afro atua como uma linguagem política e pedagógica no espaço urbano. “No Carnaval, onde a visibilidade é disputa de narrativa, os Blocos Afro transformam o corpo em manifesto público. A escolha cromática, os tecidos e os adereços organizam um ‘texto coletivo’ que comunica pertencimento, memória e posicionamento”, explica.

Crianças também brilham nos blocos afro
Crianças também brilham nos blocos afro | Foto: Jefferson Peixoto/Secom PMS

Segundo Cáren Cruz, essa linguagem atua em quatro frentes principais: a demarcação do território simbólico da rua como espaço legítimo de protagonismo negro; a construção de uma identidade coletiva reconhecível; a reescrita de imaginários que confrontam padrões eurocentrados de beleza; e a pedagogia pública, que provoca reflexão sobre ancestralidade e identidade negra.

Elementos como búzios, colares, braceletes e tecidos estampados reforçam essa narrativa.

“Os búzios carregam uma memória afro-atlântica muito forte, remetem ao mar, à circulação, à ancestralidade. Funcionam como um signo de continuidade histórica: ‘eu venho de uma linhagem’”, explica. Já as contas e adornos, segundo a consultora, dialogam com práticas africanas ancestrais, nas quais o corpo comunica pertencimento, origem e posição social.

Cáren Cruz, especialista em Colorimetria e Consultora de Imagem Identitária
Cáren Cruz, especialista em Colorimetria e Consultora de Imagem Identitária | Foto: Laila Andrade/Divulgação

Desde os 100 primeiros integrantes do Ilê Aiyê, no Curuzu, até os milhares de foliões que hoje acompanham os Blocos Afro, a estética permanece como eixo estruturante da festa. “As cores não estão ali para simplesmente embelezar o Carnaval, mas para organizar o corpo negro dentro da festa a partir de códigos ancestrais. Essa estética reposiciona o corpo negro como sujeito central da narrativa histórica e cultural”, conclui Cáren.

Em meio à diversidade de atrações do Carnaval de Salvador, a riqueza cultural dos Blocos Afro segue como um dos principais chamarizes da festa, reafirmando que, para além da folia, o desfile é também um ato de memória, resistência e afirmação coletiva.

*Sob supervisão do editor Anderson Orrico

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