Uns ficam ansiosos, outros menosprezam, tratando como festa da libertinagem, promiscuidade e pancadaria. No entanto, não há assunto mais importante quando chega fevereiro: Carnaval da Bahia é o momento. Com a folia, chegam as histórias, as verdades e as mentiras.
O MASSA!, presente nos circuitos tradicionais e dos bairros, bateu um papo com o professor de História da Bahia, Murilo Mello (@murilomellohistoria), que contou tudo sobre as lendas que envolvem o Carnaval, de como iniciou até os dias atuais.
Leia Também:
Da elite ao povão
Apesar de hoje ser muito comum ver o povão descendo para avenida, a fim de curtir os artistas favoritos, quebrar e amassar com os amigos, além de poder tirar o atraso do ano e beijar bastante na boca, nem sempre foi assim. Segundo o professor, no século 19, já havia a folia, mas as festas eram feitas para elite, em clubes da época.
"O Carnaval de Salvador se inicia dentro dos clubes. Tinha clubes de elite, que eram o Fantoche das Euterpe e o clube da Cruz Vermelha. As pessoas ainda disputavam, tinha uma competição entre esses clubes", inicia Murilo Mello, que ainda destacou que essas mesmas agremiações passaram a ir para rua no início do século 20.
"Quando os clubes abrem as portas para as ruas, começa a ter um pouco desse formato que a gente tem hoje. O Carnaval passava sobretudo pela Rua Chile, aquela avenida de muito poder econômico, político e social. E o grande barato do início do século 20 era as pessoas desfilarem em cima dos carros. O carro era uma nova invenção, então era para quem tinha mais condições. As mulheres se enfeitavam e as pessoas ficavam olhando as pessoas desfilarem", acrescenta.
No entanto, as classes menos abastardas também davam seu jeito para aproveitar a folia. O local já era outro, mas não tão longe: Baixa do Sapateiro.
O tempo era difícil, as condições sociais da época nem eram razoáveis com as classes mais baixas, mas o apelo popular sempre existiu, segundo Murilo Mello. Ao seu modo, o povão colocava limão de cera e até urina em águas de cheiro e jogava na cara dos outros, o que causou espanto em Charles Darwin - um dos maiores cientistas da história - em sua passagem por Salvador.

Surgem os blocos
Com esse negócio de ir às ruas quando chegava o Carnaval, passa a surgir os blocos, formados por amigos, vizinhos, família, o famoso Carnaval de chão. Com essa nova modalidade, a galera se mandava para a Praça da Sé, Praça Castro Alves e região para montar as barracas e encontrar o seu povo.
Revolução do Trio Elétrico
Como diz Caetano Veloso, "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu". E foi isso que aconteceu, com a revolução cultural, social e artística pensada por Dodô - especialista em rádio - e Osmar - especialista em chapas. Juntos, a dupla pensou na ideia de colocar som em uma fubica. No entanto, não para por aí, porque ainda havia mais um personagem: Orlando Tapajós, que pensou no caminhão, completando o trio e sendo o modelo que existe na atualidade.
Muvuca brota firma na folia
Diante de tantas informações históricas, pode haver a dúvida de como surgiu esse Carnaval mais agitado, que acaba rolando até um soco perdido, mesmo em uma festa que parecia tão distante disso. A agonia mais corpo a corpo é responsabilidade de um personagem que tem uma relação fraterna com outra pessoa muito conhecida: Wilson Marques, também conhecido como 'Wadinho', irmão do cantor Bell Marques.
Sob a genialidade de Wadinho surge os sons mais potentes nos trios elétricos e a pegada envolvente do Chiclete com Banana, que foi uma revolução da música carnavalesca, com uma pegada galopante, mais acelerada, o que gerou uma animação maior por parte dos foliões.

Na minha época...
Há quem diga que isso de trocar soco, beijar na boca e os chupões no pescoço, à lá 'Vampirinha', de Ivete Sangalo, começou nos últimos anos. De acordo com o historiador, a prática já era bem antiga e até os mais conservadores utilizavam do Carnaval para soltar todo o desejo reprimido durante os outros 11 meses.
Esse negócio de namoro e Carnaval sempre existiu.
Murilo Mello - historiador
"A gente vai ter ao longo do século 20 os Carnavais de Clubes: Campomar, Costa Verde, Bahiano de Tênis, Associação Atlética, vão ter vários clubes que vão ter seus carnavais e sempre teve esse caráter de libertação, de ser quem você não é, de botar para fora o que você reprimiu durante o ano inteiro. Então, sempre teve essa questão sexual de namoro, principalmente no século XX, que vai ganhar mais força", explicou o professor.
