
O colorido das roupas, o som dos tambores e a energia ancestral anunciam o desfile de mais um bloco afro pelas ruas de Salvador. Ilê Aiyê, Filhos de Gandhy, Cortejo Afro, Olodum e muitos outros nomes se tornaram atrações essenciais para a folia da capital baiana. Em 2024, o Carnaval da Bahia contou com a participação de 132 blocos afro, mostrando a potência e importância desse tipo de agremiação.
Nascido na Ladeira do Curuzu, no bairro da Liberdade, o Ilê Aiyê foi o responsável por abrir as portas para todos que vieram depois. Fundado em 1974 por Antônio Carlos dos Santos Vovô e Apolônio de Jesus, o primeiro bloco afro do Brasil surgiu como uma alternativa para o povo preto conseguir aproveitar o período carnavalesco. A iniciativa foi vista como uma afronta ao sistema e precisou lutar para fincar suas raízes.

“Em plena ditadura, então você imagina ter que pegar as fichas de inscrição, levar todo ano na Secretaria de Segurança Pública para eles darem visto, ter ensaios sempre monitorados. As próprias pessoas negras muitas não acreditavam, ficavam com receio da violência, da repressão”, contou Antônio Carlos Vovô.
Além de ser composto inteiramente por pessoas negras, a agremiação tinha como um diferencial sua essência política. Muito mais do que estética, desfilar com o Ilê é apoiar um discurso em prol da vida. “No Carnaval tinha escola de samba, blocos das comunidades, blocos de indígenas, mas ninguem tinha essa questão racial, política e cultural que o Ilê trouxe, de defender os direitos humanos, dos negros”, acrescentou.
A influência não se limita ao Carnaval e deságua no cotidiano. O bloco alterou o modo como a população baiana olha para suas raízes. “No dia a dia você vê que essa filosofia foi socializada na estética, na maneira de se vestir, na roupa colorida, no estilo africano, nos cabelos trançados, nos turbantes. Tudo isso mudou a estetica de Salvador e consequentemente mudou o comportamento do pvoo negro”, defendeu Vovô.
O reconhecimento aos blocos afros não existe apenas dentro da Bahia. Hoje em dia, o mundo inteiro conhece o trabalho de quem faz o Carnaval ser mais preto. Uma das primeiras agremiações negra a ganhar os olhares do exterior foi o Olodum, fundado em 1979, no Pelourinho. Sendo os protagonistas do clipe de They Don’t Care About Us, do cantor Michael Jackson, o projeto tornou-se uma referência internacional da música afro-diaspórica.

“Com o crescimento do Olodum, a gente foi visitado por pessoas do mundo inteiro. Algumas personalidades, outras nem tão conhecidas, mas que levavam essa ideia para vários lugares”, relembrou João Jorge Rodrigues, presidente do Olodum. “Fomos convidados para Nova York, fizemos um show no Central Park que até hoje não foi batido, com mais de 750 mil pessoas”, completou.
A trajetória do Olodum se confunde com a própria história do Pelourinho. O local, que atualmente é considerado o maior cartão postal da capital baiana, antigamente não era bem visto pelas autoridades. Foi com a fama do bloco afro que as coisas começaram a se modificar. “Tudo isso levou as autoridades a olharem para o Pelourinho de uma forma diferenciada, com algum carinho, porque estava abandonado. A presença do Olodum atraindo tanta gente importante atraiu essa pressão sobre a melhoria das condições de vida das pessoas que moravam ali”, explicou Jorge.

O bloco também foi responsável pela criação de um dos mais tradicionais ritmos musicais baianos. Se hoje em dia todos conhecem a levada do samba reggae, tudo isso foi graças à percussão do Olodum. “O gênio Neguinho do Samba pensou em fundir vários elementos da música mundial, com influências do reggae, da música africana, da música jamaicana, do samba de roda do Recôncavo, e criou-se um elemento musical que até hoje nunca foi superado”, pontuou.
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Não é apenas o valor cultural e histórico que define um bloco afro. Essas associações normalmente são marcadas por um forte trabalho social, principalmente voltado para a formação de jovens talentos. “Temos crianças de 6 a 12 anos que dominam o palco de tal forma que a dança fala por si própria, o corpo não consegue se conter dentro do entusiasmo da boa musicalidade do Malê”, afirmou Cláudio Souza, presidente do Malê Debalê.
Considerado o maior balé de rua do mundo, o Malê Debalê foi criado também em 1979, no bairro de Itapuã. Assim como todo bloco afro que se preze, o Malê não faz questão de esconder suas raízes religiosas. Não só o nome, como todo o trabalho artístico da associação é influenciado pelo candomblé.

“É de suma importância que a gente entenda que um bloco afro não pode estar desassociado das questões das religiões de matriz africana. O Malê Debalê nasce em um terreiro”, começou Cláudio. “Esse pertencimento da religiosidade de cada bloco é algo que vive com a gente. Não podemos destruir um passado se esse passado é nossa solidificação”, continuou.
Apesar das conquistas adquiridas ao longo da história, a falta de incentivo do poder público ainda é uma corrente para quem lidera os blocos afros na capital baiana. “Eu acho que o que mudou é a sensibilidade do poder público no sentido de projetar, olhar e explorar essas instituições. Agora, ainda está muito aquém de um reconhecimento financeiro. Eles olham a gente como se fosse uma galinha dos ovos de ouro, para vender nossa imagem e nossa cultura”, finalizou.
