
Em uma era em que a expressão "treino fofo" caiu no gosto de parte das pessoas que sonham em alcançar o corpo ditado pela sociedade como "padrão", é necessário que também se fale dos riscos que essa gíria — se levada na prática a "ferro e fogo" — pode ocasionar às pessoas, sobretudo àquelas que ainda não são tão familiarizadas com a prática de atividades físicas.
Os simpatizantes da gíria — usada para caracterizar treinos de baixa intensidade, cargas leves, descansos longos e pouco esforço — não podem esquecer um ponto crucial: respeitar o limite do corpo é mais importante do que ultrapassá-lo de forma que se torne prejudicial à própria saúde. Mesmo sendo grandes aliados do corpo e da mente, os treinos, em especial aqueles muito pesados e sem o devido descanso, podem, sim, causar diversos danos, inclusive à saúde cardiovascular.
Saúde do coração e dos ossos
Quem alerta sobre esses possíveis riscos é a médica Marianna Andrade, coordenadora do serviço de cardiologia do Hospital Mater Dei. "O coração também é um músculo e, assim como o resto do corpo, precisa de recuperação. Treinos excessivamente pesados, sem o descanso adequado, podem levar à síndrome do excesso de treinamento (overtraining). Isso gera um estado de estresse crônico no organismo, com liberação de hormônios como cortisol e adrenalina. Do ponto de vista cardiovascular, isso pode causar aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, elevando o risco de desenvolver arritmias e, em pessoas que já possuem alguma predisposição ou doença cardíaca silenciosa, pode até ser o gatilho para eventos agudos, como o infarto ou morte súbita”, explicou.
Os riscos vão além. "Treinar fofo" pode realmente tornar os resultados de ganho de massa muscular mais lentos; porém, os exercícios físicos, se realizados de maneira exagerada, também podem acarretar prejuízo para a saúde dos ossos, como pontua o médico ortopedista Nivaldo Cardozo, coordenador do serviço de ortopedia do Hospital Mater Dei Salvador e Hospital Mater Dei Emec (Feira de Santana).
“Treinar com carga acima da capacidade do corpo, técnica inadequada ou volume excessivo aumenta o risco de lesões musculoesqueléticas. O problema geralmente ocorre quando não há progressão gradual de carga, descanso suficiente ou orientação adequada. As lesões mais relatadas na musculação envolvem principalmente ombro, coluna lombar e joelho”.
A cardiologista também orienta que os praticantes de atividades se atentem aos sinais que o corpo, por vezes, emite. “Existe um mito perigoso no mundo fitness de que 'se não doer, não faz efeito' (no pain, no gain). No entanto, a dor e o desconforto excessivo não são sinais de fraqueza, são os alarmes do nosso corpo. O exercício deve gerar fadiga muscular e aumento do cansaço, mas nunca deve causar mal-estar limitante. Ignorar sinais de alerta, especialmente aqueles que surgem do 'umbigo para cima' ou no centro do peito, é submeter o coração a um risco desnecessário. O corpo sempre avisa quando o limite saudável foi ultrapassado”, declarou Marianna Andrade.

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Profissionais de Educação Física também fazem alertas
Responsáveis pela montagem dos treinos e por auxiliar os alunos na execução dos exercícios, os profissionais da área de Educação Física conhecem de perto a realidade em que o ego e a vontade de pegar muito peso, em muitos casos, falam mais alto do que o respeito aos limites do corpo.
Para Bruno Lopes, educador físico e proprietário da academia Básica Fitness, localizada no bairro da Ribeira, em Salvador, o profissional também precisa estar atento. “É interessante que o profissional de Educação Física tenha o feeling de saber até onde o aluno consegue ir, por mais que estejamos aqui para tirá-lo da zona de conforto. É importante fazer progressão de carga e a periodização, onde se consegue dar um estímulo maior e, depois, um estímulo menor para que o corpo possa se readaptar”, alertou Bruno.

“Importante pontuar que cada aluno tem um perfil. É necessário avaliá-lo de maneira individual, fazer essa avaliação física para saber em qual estado ele está e, se for o caso, o profissional fazer uma prescrição personalizada. Para alunos iniciantes, por exemplo, é dado um estímulo para que ele possa se condicionar, ganhar resistência e força. Através desses estímulos, ele vai conseguir aumentar a carga e a densidade. Dessa forma, conseguimos evitar lesões”, completou.
Em entrevista ao MASSA!, Lucas Oliveira, que também é educador físico e proprietário do estabelecimento, fez questão de destacar a importância dos exercícios de mobilidade e alongamento como aliados na prevenção de lesões durante os "treinos fofos" ou pesados. “Antes de iniciar qualquer exercício, tem que haver uma preparação. Então, mobilidade e alongamento funcionam como se estivessem despertando o corpo para a atividade. Isso é muito benéfico porque pode evitar lesões e outros tipos de transtornos em relação ao treino”.
