
Entre um cômodo e outro de sua residência, a aposentada Sinai de Sousa Andrade divide-se entre as atribuições do lar e atividades que lhe proporcionam sensações de paz e relaxamento. Em um dos quartos da casa, ela mantém uma máquina de costura que, por sinal, ajuda a passar o tempo e a tirar — por alguns instantes — o foco dos problemas da vida adulta.
Sinai também é bordadeira e, normalmente, entre o final da tarde e parte da noite, senta-se no sofá para fazer seus bordados, atividade que também lhe proporciona bem-estar. Porém, não é no quarto nem na sala que ela encontra a paz e o relaxamento mental que tornam sua vida mais leve. É em uma área ao fundo da residência, cuidando e estando entre as plantas, que Sinai consegue reduzir o estresse, a ansiedade e, por vezes, afastar pensamentos indesejados.
"Eu sempre gostei de plantas; elas são uma terapia para mim. Quando me casei, em todo cantinho da casa tinha planta e eu ainda as pendurava nas paredes. [...] Sou assim até hoje. Às vezes me aborreço com algumas que, do nada, começam a ficar feias, mas vou lá de novo, cuido delas e elas voltam a ficar bonitas", disse Sinai.
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Conforme explicações da psicóloga Isabela Pinto Magno Martins, essas sensações descritas não são exclusivas de Sinai; elas são percebidas por outras pessoas que também gostam de cultivar o jardim, já que as "verdinhas" ajudam, sim, na melhoria da saúde.
"As plantas atuam em diferentes níveis da experiência humana. Do ponto de vista psicológico, funcionam como elementos reguladores do ambiente emocional, trazendo sensação de acolhimento, vida e continuidade. No nível fisiológico, a presença de vegetação reduz a ativação do sistema nervoso simpático (ligado ao estresse) e favorece o sistema parassimpático, associado ao relaxamento. Já na perspectiva integrativa, o contato com o natural reconecta o indivíduo com ritmos mais orgânicos, o que é especialmente importante em um mundo acelerado", contou.

Se não colocasse uma planta, para mim, a casa não estava bonita.
Sinai de Sousa
Como mencionado por ela, as plantas sempre foram aliadas, mas, desde julho de 2024, quando a dona de casa perdeu seu filho mais novo, de 33 anos, elas passaram a fazer ainda mais sentido em sua vida. "Agora, mais do que nunca, por causa dos momentos que passei e ainda estou passando, elas têm sido minha terapia. E, para mim, é uma terapia muito forte, forte mesmo. Em alguns dias, passo a maior parte do tempo lá na área com elas. Lá, o tempo passa de uma forma tão leve que nem me dou conta", relatou.
Espaço que traz calmaria
Quando o dia está pesado e o emocional fragilizado, é para o jardim que Sinai vai buscar calmaria — seja regando, fazendo mudas, trocando vasos, retirando folhas secas ou checando a umidade da terra. É no ato de cuidar e admirar que Sinai se abstrai, e isso a psicologia também explica.
"Ambientes com plantas favorecem a atenção sustentada e reduzem a fadiga mental. Isso acontece porque o cérebro humano se recupera melhor quando exposto a estímulos naturais suaves, como formas orgânicas e tons de verde. Estudos mostram melhora na produtividade e criatividade em espaços assim. O cuidado com a planta pode reduzir sintomas de ansiedade e estimular o engajamento em pequenas atividades", destacou Isabela Magno, que trabalha com uma abordagem integrativa.

Cuidar de plantas ativa um circuito emocional ligado ao cuidado, vínculo e propósito.
Isabela Magno, psicóloga
"Quando a pessoa percebe que algo está crescendo sob seus cuidados, isso gera sensação de utilidade e doses de recompensa emocional, com a liberação de neurotransmissores como a dopamina. Além disso, o contato com a natureza tende a suavizar pensamentos ruminativos, comuns em quadros de ansiedade e depressão. Mas é importante destacar: isso não substitui o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico; funciona como um recurso complementar potente dentro de um cuidado mais amplo", completou a psicóloga.
