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turbilhão de sentimentos - 12/05/2024, 08:00 - Clara Oliveira

Mãe atípica, Marleide Nogueira revela facetas da maternidade

Nesse Dia das Mães, ela relata os desafios enfrentados ao lado do filho Igor Nogueira, atleta de parajiu-jitsu

Marleide deu à luz a Igor Nogueira aos 20 anos
Marleide deu à luz a Igor Nogueira aos 20 anos |  Foto: Arquivo pessoal

Todos os desafios impostos a uma mãe são dobrados quando se trata de uma maternidade atípica. As dificuldades iniciais, uma nova rotina voltada aos filhos que necessitam de cuidados especiais, os preconceitos e os rótulos, são apenas alguns dos turbilhões de sentimentos vividos por Marleide Nogueira, 50, ao longo da sua trajetória com seu filho Igor Nogueira, 29, atleta de parajiu-jitsu diagnosticado aos sete anos com autismo.

Aos 20 anos de idade, Marleide Nogueira deu à luz o seu grande amor, Igor Nogueira. Nos primeiros anos de vida do filho, a mãe do atleta ainda não fazia ideia que ele viria a ser diagnosticado com autismo.

Em entrevista para o Portal Massa!, Marleide abriu o coração sobre as verdades da maternidade atípica.

Os sinais começaram a ser notados quando, aos três anos de idade, o primogênito de Marleide não respondia a estímulos, apresentava dificuldades ao toque e era não verbal. A partir dali, começou uma luta para o diagnóstico. Segundo a matriarca, foram quatro anos de buscas até o filho ser diagnosticado com o transtorno do espectro autista (TEA).

As facetas da maternidade atípica

A transformação em todos os tipos de maternidade é quase unanimidade nas rodas de mães, muitas das vezes algumas delas afirmam que renasceram quando o filho nasceu. No entanto, nenhuma mãe recebe um manual de instruções para conseguir lidar com todas mudanças bruscas causadas por uma maternidade atípica.

Observando o passado com o olhar voltado para os primeiros anos que descobriu o diagnóstico do filho, Marleide avaliou que o autismo chegou em sua vida com os dois pés na porta.

Aspas

“O autismo entrou na minha vida sem me dar opção de escolha. Impactou totalmente minha vida, meus sonhos e projetos”

Marleide Nogueira

Em uma época que pouco se falava sobre como era cuidar e ser o principal suporte de uma criança com autismo, a mãe de Igor recordou ter vivido as dores do preconceito.

“De início, foi difícil, porque somos de uma época onde não se falava de autismo como hoje, não tinha grupos de mães para troca e acolhimento. Ainda assim, meu amor sinalizou um caminho de luta para transformar a vida do meu filho. Vivi a dor do capacitismo e racismo. Porém, mesmo na dor, tinha que reunir forças para continuar”, afirmou Marleide, em entrevista ao Massa!.

Igor é tricampeão Mundial de Parajiujitsu e campeão do Pan Americano Parajiujitsu
Igor é tricampeão Mundial de Parajiujitsu e campeão do Pan Americano Parajiujitsu | Foto: Arquivo pessoal

Momentos dolorosos

Cara a cara com a opressão e sentindo na pele todos os preconceitos vivenciados pelo filho, as angústias que a atingiram deram forças para ela. Para Marleide, foi necessário enfrentar “as piores dores”. Entre os momentos desafiadores, a mãe pôde citar o bullying, os rótulos impostos, a solidão de uma maternidade atípica e a renúncia dos sonhos.

⁠”A dor do bullying, ver o sofrimento do meu filho e por muitas vezes ouvir ele dizer que odiava ser autista, porque ele depositava no autismo a causa da não aceitação das pessoas, principalmente os colegas de escola. A dor dos rótulos: ‘menino maluco, esquisito, retardado, família louca’”, iniciou Marleide.

Para além disso, ela precisou carregar a solidão que rodeia as mães atípicas, e também com o adiamento dos desejos que tinha no coração.

“Eu me vi sozinha boa parte da minha caminhada, mesmo com meu companheiro, pai de Igor, presente. E eu optei por renunciar minha vida acadêmica e profissional para ajudar no momento mais importante na vida acadêmica do Igor”, completou.

Transformação

Como todo sentimento pode ser ressignificado, a maternidade atípica trouxe para a vida de Marleide novos sentimentos e ensinamentos.

“Aprendi a resistir ao desprezo, humilhações e as dores oriundas das opressões, aprendi a reagir com resiliência diante das frustrações e decepções. Também aprendi, diante da adversidade, a utilizar minha força interior para me recuperar, para continuar a caminhada, porque sabia da importância de estar inteira para continuar minha trajetória, pois a vida do meu filho dependia e ainda depende da minha. Aprendi a ser forte e enfrentar todas as barreiras na ousadia com objetivo de ocupar e sensibilizar todos os espaços”, enfatizou Marleide.

E, afinal, como dizem por aí, o que o amor de uma mãe não é capaz de fazer, não é mesmo? Apesar dos inúmeros sentimentos, Marleide expôs que conseguiu ressignificar as dores.

Aspas

“Essas dores geraram força na minha alma, me lapidaram para ser uma mulher destemida diante da injustiça. Diante de toda essa trajetória enfrentando uma sociedade opressora, ressignifiquei todo meu ser pelo amor ao meu filho”, declarou ela.

Marleide Nogueira

Todo o sentimento de angústia, desprezo e exclusão vividos por uma mãe atípica deram forças, transformações e resiliência para que o apoio dado por Marleide ao filho Igor fizesse com que ele se tornasse tricampeão Mundial de parajiu-jitsu e campeão do Pan Americano Parajiu-jitsu 2024.

Dia das Mães

O tão especial e esperado Dia das Mães é uma data que, por muito tempo, não trouxe tantos sentimentos para Marleide, já que ela não conseguia se sentir uma mãe plena.

“Por um bom tempo não me sentia uma mãe plena porque não sabia o que era beijar e abraçar o meu filho, pelo fato da aversão dele ao toque. Alguns autistas têm desconforto com o tato, o contato físico. Vencemos muitas barreiras. Algumas mães esperam ouvir a voz do filho(a), a expressão ‘mamãe’, algumas vezes chega tarde ou nunca irá ouvir”, ponderou ela.

Apesar disso, atualmente, Marleide declarou que “tudo isso me fez me enxergar por inteiro e me ver uma mãe completa, sim”.

Marleide conseguiu ressignificar as dores da maternidade atípica
Marleide conseguiu ressignificar as dores da maternidade atípica | Foto: Arquivo pessoal

A voz da maternidade atípica

Envolvida no mundo da maternidade atípica, colecionando experiências e trocando conhecimento com outras mães, Marleide conseguiu ter voz dentro da comunidade para conseguir ser exemplo de força para outras matriarcas.

“Percebi a importância de compartilhar nossa história para fortalecer e empoderar outras mulheres mães. Tudo foi de forma muito natural, quando nossa história transformou-se em matéria na mídia televisiva começaram chegar feedback de mães dizendo que nossa história as impactou e que elas encontram forças para continuar”, contou ela.

De acordo com Marleide, a história de vida dela ao lado do filho Igor faz com que ela receba constantes retornos de famílias em todo Brasil e em outros países.

Para as mulheres que vivem a maternidade atípica, Marleide afirmou que nenhuma mãe ficará para trás e deixou um recado.

“Sei que a dor é uma companheira constante, não por causa do autismo dos nossos filhos, mas por causa de estrutura perversa e cruel, que exclui, despreza e humilha. Lutamos apenas por oportunidades dos nossos filhos se desenvolverem e serem felizes em todos os lugares”, declarou Marleide.

Ainda em uma mensagem que possa atingir e dar forças para as mães atípicas, Marleide pediu para que as matriarcas nunca desistam.

Aspas

“Por isso lute, acredite e tenha esperança. Sei que tem momentos que arrancam a esperança do nosso peito, porém a nossa fé e o amor nos mantém vivas. Resista e reafirme sua existência todos os dias. Hoje somos muitas e não estamos sozinhas.

Marleide Nogueira
As memórias lindas ao lado do filho deram forças para Marleide continuar buscando novas perspectivas
As memórias lindas ao lado do filho deram forças para Marleide continuar buscando novas perspectivas | Foto: Arquivo pessoal

Momentos marcantes

Dentre as inúmeras memórias sendo mãe de Igor, Marleide declarou ser difícil escolher os momentos mais bonitos vivenciados com o filho, principalmente pelo fato de que para a maternidade atípica as pequenas coisas possuem um significado gigante.

“Trago um momento que mudou minha vida, quando Igor iniciou o jiu-jitsu, logo no início dos treinos começaram chegar os resultados em casa: foco, atenção, minimizou as estereotipias. Quando vi meu filho sentar no sofá e assistir uma programação do início ao fim, sem se levantar para pular e nem mexer as mãos, aquele momento inundou meu coração de esperança de algo bom estava acontecendo”, revelou ela.

Para a matriarca de Igor, esse início importante do filho no jiu-jitsu compete com o momento em que ele olhou nos olhos dela pela primeira vez.

As memórias lindas ao lado do filho deram forças para Marleide continuar buscando novas perspectivas, oportunidades e um futuro brilhante tanto para si, quanto para Igor.

Atualmente, Marleide é graduada em Educação Inclusiva e Psicomotricidade, coordenadora na Bahia do Instituto Lagarta Vira Pupa, Diretora do Paradesporto da Federação Baiana de Jiu-Jitsu e MMA, e conselheira titular do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado da Bahia.

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