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Golpe do amor: crime cresce no país e destrói psicológico das vítimas

Psicólogo, delegada e especialista em direito explicam como o estelionato sentimental pode desencadear depressão, crises de pânico e até TEPT

No Brasil, 4 em cada 10 mulheres dizem já ter sofrido ou conhecer alguém que sofreu um golpe de namoro virtual
No Brasil, 4 em cada 10 mulheres dizem já ter sofrido ou conhecer alguém que sofreu um golpe de namoro virtual |  Foto: Ilustrativa/ Freepik

Vergonha: substantivo feminino que significa sentimento de humilhação, vexame ou desonra, segundo o dicionário Aurélio. É esse sentimento que costuma acompanhar vítimas de um crime que se popularizou no Brasil: o estelionato sentimental.

Também conhecido como “golpe do amor”, o crime acontece quando um golpista se aproveita de um relacionamento amoroso para obter vantagens financeiras ou patrimoniais. Para que o estelionato sentimental seja configurado, é preciso existir a intenção de enganar a vítima e obter vantagem a partir do vínculo afetivo estabelecido.

O problema, no entanto, não termina quando o dinheiro é perdido. Para muitas vítimas, a descoberta de que o relacionamento era uma farsa também representa o fim de planos, expectativas e da confiança construída ao longo da relação.

Essa é a realidade por trás do estelionato sentimental, um crime que pode deixar marcas muito além do prejuízo financeiro. No Brasil, 4 em cada 10 mulheres dizem já ter sofrido ou conhecer alguém que sofreu um golpe de namoro virtual, aponta levantamento feito em 2023 da organização “Era Golpe, Não Amor”, que ouviu 2.036 brasileiras de todo o país, considerando a divisão proporcional de raça, idade e classe social.

Na Bahia, o crime também cresce. Segundo o Anuário ISPE 2025, do Instituto de Segurança Pública, Estatística e Pesquisa Criminal (ISPE), em parceria com a Polícia Civil e a UNEB, o estelionato superou qualquer outro crime contra o patrimônio no estado em 2024, com alta de 13% em relação ao ano anterior.

Quando o amor vira instrumento para o crime

Para que o estelionato sentimental seja configurado como crime, explica a advogada Jéssica Nozé (OAB/SP 390.256), especialista em Processo Penal e Ciências Criminais no Jusbrasil, é preciso provar que o golpista teve a intenção de enganar a vítima desde o início da relação — e não apenas depois de um término mal resolvido.

“O término de um relacionamento gera ressentimentos naturalmente. Chateações e mágoas fazem parte da quebra de qualquer intimidade, mas não geram, por si só, um crime”, pontua a advogada. O que muda tudo, segundo ela, é a intenção premeditada de tirar proveito da boa-fé da vítima usando o vínculo afetivo como isca.

Um dos sinais mais comuns, segundo Jéssica, é a chantagem emocional. Frases como “só você pode me ajudar” ou “se você não me passar esse valor, vamos ter que terminar” são usadas para explorar o medo da vítima de perder o relacionamento.

Quando a vítima é mulher, o crime pode ser enquadrado como violência patrimonial pela Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) — o que garante medidas protetivas, como a proibição de contato do golpista, e um processo mais rigoroso, sem possibilidade de acordo com o Ministério Público.

Homens também podem ser vítimas do golpe, mas, nesses casos, a lei especial não se aplica — exceto quando a vítima é idosa ou tem alguma deficiência.

Golpista tem desde o ínicio intenção de se apropriar dos bens da vítima
Golpista tem desde o ínicio intenção de se apropriar dos bens da vítima | Foto: Ilustrativa/ Freepik

Um levantamento do Ministério Público do Distrito Federal, de 2023, analisou 240 casos registrados desde 2018 em uma Delegacia de Atendimento à Mulher e identificou um padrão: as vítimas costumam ser mais velhas e ter condição financeira melhor que a do golpista.

O estudo mapeou quatro perfis principais de golpe, da simulação de um relacionamento com identidade falsa à gestão fraudulenta do patrimônio do casal após a separação, passando pelo abuso da função de cuidado que a mulher exerce e por falsas oportunidades de negócio.

A vergonha que não aparece no boletim de ocorrência

Por trás do prejuízo financeiro, existe uma dor que dificilmente cabe em um número. É o que explica ao MASSA! o psicólogo clínico George Otero (CRP 03/1616089).

Segundo ele, o golpe não atinge apenas a conta bancária, também abala a confiança da vítima em si mesma e no mundo ao redor. Uma das primeiras marcas é justamente a vergonha. A vítima passa a se cobrar, a se questionar sobre como não percebeu o golpe antes, e esse julgamento interno costuma vir acompanhado de isolamento. Muitas escondem o que viveram até de familiares próximos e, às vezes, do próprio terapeuta.

“As juras de amor, que organizavam a vida daquela pessoa, se revelam uma farsa. Isso deixa a vítima sem chão, sem conseguir confiar no outro”, resume o psicólogo.

Outro ponto que George destaca é a dificuldade de elaborar o luto do golpe. Diferente de uma perda comum, aqui a vítima precisa lidar com dois lutos ao mesmo tempo: o de alguém que, na prática, nunca existiu — porque tudo era encenação — e o da própria vida financeira, muitas vezes desmontada.

“É um luto duplo, e por isso mais difícil de processar. Não tem um corpo para chorar, não tem um funeral. A pessoa perde alguém que era, na verdade, uma construção”, explica.

Aspas

A pessoa muitas vezes se sente sem valor por ter sido enganada. Ela perdeu não só um parceiro, mas tudo que tinha depositado ali: energia, planos, economias

e A. Otero, psicólogo clínico George e A. Otero

Quando a dor vira trauma

Quando a mentira desaba, o choque costuma ser abrupto, e é nesse momento, segundo o psicólogo, que os sintomas mais graves tendem a aparecer: crises de angústia, depressão, anedonia, que é a incapacidade de sentir prazer em coisas que antes traziam alegria, e, em casos extremos, ideação suicida.

Também é possível o desenvolvimento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), quando a vítima revive o trauma por meio de pesadelos e flashbacks, como se o golpe estivesse acontecendo novamente.

Há ainda um efeito de longo prazo que ultrapassa a relação com o golpista: a vítima pode perder a capacidade de confiar na palavra do outro de forma mais ampla.

“Isso gera hipervigilância, uma espécie de desconfiança generalizada. A pessoa passa a duvidar de tudo e de todos, não só de quem a golpeou”, alerta George.

psicólogo clínico George de A. Otero
psicólogo clínico George de A. Otero | Foto: Reprodução/ Instagram (@tempodeserpsicologia)

O psicólogo também descreve como o golpe pode alimentar quadros de pânico. De acordo com o especialista, o corpo reage à sensação de ter sido usado, taquicardia e a sensação de que algo terrível, como a morte, está prestes a acontecer.

George ainda explica que, quando o sofrimento chega a esse ponto, com insônia severa, perda de peso ou dificuldade de sair da cama, o acompanhamento psicológico pode não ser suficiente sozinho.

“Nesses casos, a medicação psiquiátrica entra como um suporte necessário, não para curar a dor, mas para dar à pessoa condições mínimas de voltar a elaborar o que sentiu”, afirma.

Para o psicólogo, o fato de a maioria das vítimas ser mulher também tem uma explicação cultural. “Socialmente, as mulheres são educadas para sustentar a fantasia do amor romântico e para ocupar o lugar de quem cuida do outro. O golpista manipula exatamente essa expectativa”, explica.

Mulheres são mais afetadas pelo crime
Mulheres são mais afetadas pelo crime | Foto: Ilustrativa/ Freepik

O retrato da violência patrimonial na Bahia

Os dados do Anuário ISPE 2025 ajudam a dimensionar o problema no estado. Embora o golpe do amor não apareça isolado nas estatísticas, ele se insere no que o relatório chama de violência patrimonial contra a mulher — categoria que envolve a retenção, subtração ou destruição de bens, documentos e valores da vítima dentro de uma relação íntima de afeto, com ou sem coabitação.

Em 2024, os crimes mais frequentes dentro desse grupo na Bahia foram os de dano, com 2.398 ocorrências, e violação de domicílio, com 484 casos, ambos em leve tendência de crescimento.

O anuário reforça ainda que a grande maioria da violência contra a mulher acontece dentro de relações amorosas: em 93% dos feminicídios registrados no estado em 2023, o agressor era parceiro ou ex-parceiro da vítima.

Número de ocorrências de violência patrimonial na Bahia e números de feminicídio
Número de ocorrências de violência patrimonial na Bahia e números de feminicídio | Foto: Gráfico gerado por IA

O dado, segundo o relatório, evidencia como ambientes de confiança mútua, os mesmos onde o golpe do amor se desenvolve, concentram boa parte da violência patrimonial e emocional sofrida por mulheres.

O que fazer ao perceber o golpe

Para a delegada Juliana Fontes, diretora do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis, o primeiro passo depois de perceber o golpe é procurar uma delegacia, de preferência uma especializada no atendimento à mulher.

“É comum um homem se aproximar só com o objetivo de conseguir um ganho financeiro. Ele participa do dia a dia, conhece a rotina, os amigos, a família. Quando a vítima já está emocionalmente envolvida, ele se aproveita”, afirma a delegada em entrevista à reportagem.

Aspas

Quando a mulher se vê nessa situação, ela fica com muita vergonha. Se sente impotente diante daquilo que aconteceu

Delegada Juliana Fontes

Segundo Juliana, é importante reunir provas antes de registrar a ocorrência, como mensagens, fotos, conversas em aplicativos e testemunhas. Ao chegar à delegacia, a vítima já é automaticamente encaminhada para atendimento psicossocial, com acompanhamento de uma psicóloga que avalia a necessidade de suporte contínuo.

“Essa mulher não pode achar que sozinha vai conseguir resolver essa situação, porque sozinha não dá”, reforça a delegada.

Delegada Juliana Fontes, diretora do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis
Delegada Juliana Fontes, diretora do Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis | Foto: Laís Machado / portal MASSA!

O crime é tratado como violência doméstica e familiar, previsto na Lei Maria da Penha, que abrange tanto a violência psicológica quanto a patrimonial, além do estelionato em si, enquadrado no artigo 171 do Código Penal. Segundo a delegada, não existe um perfil fixo de vítima.

“Geralmente são mulheres com uma estrutura financeira que permite tirar alguma coisa delas. Mas não existe perfil, infelizmente. É democrático. O importante é ficar atento aos sinais e sempre denunciar.”

As vítimas devem registrar um Boletim de Ocorrência (BO)em uma delegacia de polícia ou pela Delegacia Eletrônica do estado. Caso tenham realizado transferências ou outros pagamentos, também é importante comunicar o banco imediatamente para tentar bloquear ou recuperar os valores.

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