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Dores além da pele - 13/09/2023, 06:40

Dermatite atópica: médicos falam sobre como conviver com a doença

A pesquisa "A vida com dermatite atópica no Brasil” trouxe um levantamento com resultados inéditos que mostram as consequências da doença

Maria Laura S. de Souza
Maria Laura S. de Souza
Na oportunidade, a Pfizer também lançou o medicamento Cibinqo (abrocitinibe), para tratamento da DA
Na oportunidade, a Pfizer também lançou o medicamento Cibinqo (abrocitinibe), para tratamento da DA |  Foto: Ilustrativa / Sociedade Brasileira de Dermatologia

Uma pesquisa sobre dermatite atópica (DA) realizada pelo Instituto Lumini a pedido da Pfizer, revelou que um dos principais impactos da doença é ansiedade e depressão. Intitulado “A vida com dermatite atópica no Brasil”, o levantamento foi lançado ontem com resultados inéditos que mostram as consequências da doença, pouco conhecida no país. Na oportunidade, a Pfizer também lançou o medicamento Cibinqo (abrocitinibe), para tratamento da DA.

A apresentação da Dra. Mayra Ianhez, dermatologista e professora da Universidade Federal de Goiás, aclarou que a dermatite atópica é uma doença crônica (que não tem cura), e não possui até então uma medicação para o controle adequado dos sintomas. “É uma doença caracterizada por lesões e coceiras intensas com pele seca, geralmente existe um histórico familiar e tem novos tratamentos chegando como uma revolução da doença, porém, ainda existe uma proporção considerável de pacientes que continuam sem um controle adequado”, explicou.

A Dra. Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer, apresentou a pesquisa e seus resultados. O levantamento foi realizado com 856 pessoas a partir de 10 anos de idade, em dois grupos: adultos e responsáveis por crianças e adolescentes com DA grave e moderada. Dentre as informações mais importantes, a pesquisa mostra que durante as crises, a doença chega a abranger mais de 40% do corpo para 28% das crianças e jovens. Dos entrevistados, 14% dos pacientes infanto-juvenis tiveram que ser internados, passando em média 5 dias no hospital.

A pesquisa também revela que apenas 37% dos pacientes receberam um diagnóstico inicial correto. “Os outros diagnósticos diferenciais são coceira de pele, dermatite de contato, dermatite seborreica e etc, nisso também se revela a subestimação da doença pelos médicos”, completa Adriana. Além dos impactos físicos, a pesquisa revela os impactos emocionais. 72% dos pacientes adultos sentem que sua aparência física é afetada negativamente pela doença e 67% consideram que o estado emocional é abalado. Para 72% dos cuidadores de crianças e adolescentes, a saúde emocional desses jovens e crianças é comprometida pela doença, 45% destacam o impacto na aparência física.

“Esses dados são importantes e precisam ser reconhecidos, essas pessoas estão sofrendo e aqui fica muito claro, a doença traz choro, irritação, sentimento de depressão, a pessoa não consegue dormir de maneira adequada, ela não vai estar bem na escola, no trabalho, ter que conviver com a sociedade escolar e a vergonha de ir com escoriações na pele, tudo isso afeta”, destaca a Dra. Mayra. Ela informa ainda que a doença pode, inclusive, afetar a vida amorosa e sexual, já que muitos adultos restringem o contato com as pessoas e fogem de atividades coletivas.

Como alternativa a esses problemas, algumas pessoas podem recorrer a remédios genéricos como corticoides, que não precisam de prescrição médica, e soluções caseiras. Adriana afirma que “esses tratamentos podem trazer riscos para a pele e para a saúde como um todo, impactando no manejo da própria doença”. A pesquisa revela que 59% dos adultos usam algum tipo de corticoide nas crises e 38% usam a medicação mesmo quando a doença está controlada. Os números são maiores em crianças e jovens, que apresentam 70% de uso do remédio nas crises e 48% de uso regular.

O medicamento Cibinqo, apresentado pela Pfizer, deve passar a ser comercializado ainda neste mês. De ministração oral, a droga deve ser ingerida uma vez ao dia conforme a prescrição médica. É indicado para pacientes candidatos à terapia sistêmica, quando é necessário o uso de medicamentos além das pomadas e cremes já usuais da prescrição. O Cibinqo foi testado em mais de 1600 pacientes e apresentou eficiência máxima com alívio rápido da coceira em até 24h, e controle das lesões na pele. O medicamento também auxilia os sintomas de ansiedade e depressão após 12 semanas de uso.

Uma pesquisa de 2021 apresentada pela Dra. Mayra mostrou que 2,2% dos brasileiros convivem com a doença. Ela explicou ainda que vários fatores podem levar a dermatite atópica. “Se o paciente tem uma barreira cutânea danificada, se toma muito banho e usa muita bucha, a pele fica ressecada e permite a entrada de alérgenos e irritantes”, informa. Ela explicou também que o principal sinal da doença é a coceira, que acompanha vermelhidão na pele, escoriações, fissuras e dor. “Tenho uma paciente que foi internada e me lembro dos gritos dela, enquanto tomava banho, porque até a água caindo na pele dói”, relatou.

Os impactos da doença vão além das lesões físicas. De acordo com a doutora, “depressão, ansiedade e ideação suicida devem ser considerados pelos médicos no tratamento de pacientes com DA”. Esses sentimentos se relacionam com outras consequências da doença como noites sem dormir e o relacionamento com a sociedade que é afetado. “Já precisei escrever relatórios dizendo que a doença não é contagiosa para que as escolas deixassem as crianças frequentarem as aulas. Tratei duas adolescentes irmãs que já havia 5 meses não iam para a escola por causa da doença”, conta. Pacientes adultos também são acometidos no trabalho com falta de concentração e retração dos colegas por preconceito às escoriações na pele.

A Dra. Mayra revelou ainda que pelo SUS, os remédios disponibilizados para tratamento da dermatite atópica são corticoides tópicos distribuídos de forma irregular pelo governo. “Recentemente o SUS incorporou a ciclosporina oral e dois corticoides tópicos, mas esses ainda vão demorar alguns meses para serem liberados na prática. Corticóide oral também existe no SUS, mas com todos os efeitos colaterais que conhecemos”, completa.

O lançamento da pesquisa contou ainda com a presença de Márcio Fernandes, paciente com DA e pai de uma menina com a mesma doença. Márcio foi diagnosticado com 3 meses de idade, e conviveu com todos os sintomas da doença apresentados na pesquisa.

“Não conheço a vida sem dermatite, em relação ao preconceito e falta de informação preferi me isolar a lidar com as perguntas”, revela. Ela afirma também que existe uma diferença na qualidade de vida antes e depois do tratamento, principalmente se a doença já foi mal diagnosticada anteriormente.

Márcio revela que recentemente descobriu que não gostava de parque aquático por conta da DA. “É um ambiente em que a pele precisa estar exposta, tem contato com a água, e acaba deixando de ser prazeroso”, relata. Márcio também relaciona seu jeito de ser ao convívio com a doença.

“Sou muito discreto, talvez se não tivesse a dermatite, seria uma pessoa mais extrovertida, hoje trabalho isso com a minha filha pra que ela saiba que pode ser como ela quiser”, relata. “Tenho em mente que não posso deixar que o meu passado seja o futuro dela. Vai fazer um ano que ela está na creche e sei que ela precisa lidar com as questões dela, mas escrevemos uma carta gigante pra a escola explicando o diagnóstico e tudo que já passei para saber se a escola conseguiria lidar com isso”, conclui.

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