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Escondidos, mas nem tanto - 09/03/2024, 08:50 - Nicolas Melo e Leo Moreira- Atualizado em 10/03/2024, 14:13

Chefes do CV e BDM buscam 'lar' em outros estados, mas são eliminados

Lideres de facções criminosas que atuam na Bahia se picam pra outros estados e comandam de lá, mas polícia acaba com o ‘sossego’ deles

Equipes da Ficco conseguiram localizar Gango (no meio) e Mil Grau
Equipes da Ficco conseguiram localizar Gango (no meio) e Mil Grau |  Foto: Divulgação / SSP e Reprodução

Em pouco mais de uma semana, dois homens apontados pela polícia como principais lideranças rivais do tráfico de drogas de Feira de Santana (a 109 km de Salvador) foram localizados pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) da Bahia. Mário Sérgio de Jesus, o "Gango", que chefiava o Bonde do Maluco (BDM) estava escondido no estado de Sergipe. Ele foi encontrado e morto na última quinta-feira (7), durante a Operação Ducibus. Já o seu arquinimigo, Heverson Almeida Torres, cabeça cara do Comando Vermelho (CV) conhecido como 'Mil grau' ou 'Ezinho', foi preso no Rio Grande do Norte, no dia 27 de fevereiro.

Embora Gango e Mil Grau rivalizassem pelo domínio das bocas de fumo na segunda maior cidade em extensão e população da Bahia, os dois compartilhavam de uma mesma tática — comandar o crime de fora do estado.

Em entrevista exclusiva ao MASSA!, o coordenador da Ficco Bahia, delegado da Polícia Federal (PF) Eduardo Badaró, explicou que esta é uma prática cada vez mais comum entre os indivíduos que encabeçam organizações criminosas. Em sua avaliação, a decisão de mudar de endereço envolve variáveis como: ir para um local onde há um domínio de outros grupos parceiros/aliados e a troca de identidade.

"A gente percebeu que a maioria sai do local de domínio, dos locais de controle, e estão indo para outros estados, na maioria das vezes, estados que são controlados por facções aliadas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, estados que a facção que tem aliança com a facção que ele é líder, essa liderança negativa aqui na Bahia, aí ele consegue uma guarita e proteção", disse Eduardo Badaró.

Na última quarta-feira (6), a Secretaria de Segurança da Bahia (SSP-BA) divulgou o balanço das ações policiais no estado nos últimos dois meses e o resultado foi que 18 lideranças criminosas já tinham sido alcançadas entre janeiro e fevereiro.

Entre os alvos prioritários da pasta, foram localizados Pablo Ricardo de Assis Gomes Oliveira, conhecido como “Pablo Escobar”, — um dos líderes da facção Katiara — responsável pelo tráfico de drogas na região da Valéria, morto em confronto durante a Operação Responsio na última segunda-feira (4), e seu comparsa Regivaldo Vasconcelos do Nascimento, o ‘Boneco’, também apontado como o 'cabeça' da Katiara e morto ao trocar tiros com policiais no bairro de Castelo Branco em 18 de janeiro.

Boneco, 'cabeça' da Katiara, foi morto em tiroteio com a polícia em Castelo Branco
Boneco, 'cabeça' da Katiara, foi morto em tiroteio com a polícia em Castelo Branco | Foto: Divulgação / SSP e Reprodução

33 'cabeças caras' localizados

Em 2023, segundo o balanço anual apresentado no início deste ano, as ações da Ficco resultaram num total de 33 chefões localizados. Entre eles Márcio Arandiba Santos, o 'Tila', apontado como braço do CV em Ilhéus, foi localizado e preso em Curicica, no Rio de Janeiro, e João Ricardo Cardoso Mota, o Rick ou R7, tido como aliado do líder do Terceiro Comando Puro (TCP ) — um dos principais grupos criminosos do estado carioca — encontrado zona oeste do Rio de Janeiro.

‘Pablo Escobar’, que comandava tráfico em Valéria, também morreu
‘Pablo Escobar’, que comandava tráfico em Valéria, também morreu | Foto: Divulgação / SSP

"A gente entende que o principal motivo é segurança mesmo. Como aqui os nomes deles são bem falado, esses criminosos vão em busca de uma vida de anonimato e vão para outros lugares onde são menos conhecidos, principalmente pela fisionomia, e conseguem viver uma vida normal, uma vida de luxo sem essa preocupação tanto com a justiça, com a polícia, e também com os rivais, com as facções rivais", explicou Badaró.

No entendimento do delegado, a possibilidade de mudança de vida se dá à facilidade de financiamento por parte do tráfico de drogas. "Como eles continuam no comando daquele grupo criminoso, a produção do fruto do crime é encaminhada para eles. Eles vivem uma vida de luxo, vivem uma vida de cidadão comum, baseada e alicerçada no financeiro do crime. Tudo que o crime produz é isso que dá esse alicerce financeiro para eles, para viverem uma vida comum. Mas continua ordenando assassinatos, continua ordenando crimes, violência, continua como cabeça daquela estrutura criminosa".

Vida de luxo e sossego

Mudar de estado para bancar de cidadão de bem, como se não estivesse envolvido no crime, essa foi a tática de Gango e de Mil Grau, em que ambos levavam uma vida que não chamava a atenção de ninguém. "Em Aracaju, (Gango) não ostentava armas e nem conversava sobre temas relacionados ao tráfico de drogas e homicídios. Para os vizinhos, ele estava acima de qualquer suspeita", contou Badaró.

O traficante possuía mandado de prisão por homicídio e utilizava três casas no intuito de escapar das investidas das Forças de Segurança. Gango foi encontrado no bairro de Aruana e, na tentativa de captura, atirou contra os policiais e morreu. Já Mil Grau, vivia em uma casa de alto padrão, em Natal. No momento em que foi encontrado ele apresentou um documento falso.

A tática de mudança de estado tem sido mais um novo desafio para a segurança pública em localizar criminosos que, mesmo distantes, continuam aterrorizando comunidades e até cidades da Bahia com ordens de execução de rivais e expansão dos domínios do tráfico, mas devido à integração das forças policiais da Federação e aprimoramento da inteligência, segundo Badaró, não é empecilho para trazê-los à justiça.

"A Fico é uma força integrada que trabalha em conjunto com as forças policiais como a PF, PRF, Policia Militar e Polícia Civil da Bahia. E, através dessas redes de contato, de coletividade na rua, trabalho com inteligência, a gente consegue identificar que algumas lideranças não estão presentes fisicamente no local onde elas controlam o tráfico", pontuou.

"Então, quando a gente inicia a investigação, a gente procura identificar quem são aqueles mandantes responsáveis pelos crimes violentos, quem é que está coordenando, aí quando chega e tem um nome, a gente busca a localização dele", completou o delegado federal, coordenador da Ficco Bahia.

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