
Quem nunca passou um trote quando criança? O que para alguns parece apenas uma brincadeira pode ter consequências graves. Dados da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) apontam que cerca de 10% das ligações recebidas pelos serviços de emergência são trotes, um problema que compromete o atendimento e pode colocar vidas em risco.
Nos dois primeiros meses de 2026, o Centro Integrado de Comunicações (CICOM) registrou mais de 18,9 mil chamadas falsas por meio dos números 190, 193 e 197. O volume equivale a mais de 7,5 mil ocorrências reais que poderiam ter sido atendidas no mesmo período. Em 2025, o cenário foi ainda mais alarmante, com 115 mil trotes contabilizados ao longo do ano.
Além do impacto imediato, o tempo desperdiçado com ligações mentirosas também chama atenção. Somente no ano passado, foram cerca de quatro mil horas com linhas ocupadas indevidamente, período em que seria possível atender até 57 mil ocorrências reais.
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Para a capitã Carla Elis, coordenadora de Teleatendimento do CICOM Salvador e Região Metropolitana, o problema vai muito além de uma simples infração. “O tempo que se perde com ligações mentirosas pode valer a vida de alguém que realmente está em perigo”, alerta.
Segundo a oficial, não há um perfil único de quem pratica os trotes, mas há maior incidência entre crianças e adolescentes, especialmente em períodos de férias escolares. “Muitas vezes é por curiosidade ou falta de compreensão da gravidade. Mas também temos casos envolvendo adultos, inclusive com má-fé, fazendo denúncias falsas ou até assediando atendentes”, explica.
Os registros mostram que a maioria das chamadas falsas ocorre durante o dia, enquanto à noite há aumento de ligações com teor inadequado. Entre os trotes mais comuns estão denúncias inexistentes, ligações silenciosas, informações desconexas e até simulações de crimes graves.
De acordo com a capitã, alguns casos preocupam pelo nível de elaboração. “Existem trotes muito detalhados, que parecem reais. Isso dificulta a triagem e pode levar ao deslocamento de viaturas de forma desnecessária”, afirma.
Esse tipo de situação gera um efeito em cadeia: enquanto equipes são enviadas para ocorrências falsas, outras demandas reais podem sofrer atrasos ou até deixar de ser atendidas. “Quando uma linha está ocupada por um trote, alguém em situação de risco pode não conseguir contato. Isso compromete diretamente a agilidade do atendimento”, ressalta.
A capitã confirma que já houve prejuízos concretos. “Infelizmente, sim. O volume de trotes impacta o tempo de resposta, seja pelo congestionamento das linhas ou pelo envio indevido de recursos operacionais”, diz.
Além dos riscos à população, há também a exposição das equipes de segurança, já que algumas ocorrências falsas podem esconder intenções criminosas.
A prática, no entanto, não é apenas irresponsável, é crime. Conforme o Código Penal, quem realiza trotes pode ser penalizado com multa e até detenção. “O serviço de emergência existe para salvar vidas. Utilizá-lo de forma indevida é uma conduta ilegal e que traz consequências sérias”, reforça a coordenadora.
Diante do cenário, a orientação é clara: usar os canais de emergência com responsabilidade. Afinal, uma ligação falsa pode impedir que alguém receba ajuda no momento mais crítico.
*Sob a supervisão do editor Anderson Orrico
