
Uma deputada petista entra em uma festa, encontra um dos principais nomes da direita, provoca a banda dele, os dois brincam, tomam cerveja e cada um segue defendendo suas ideias. Nada demais, certo? No Brasil de 2026, aparentemente não.
A cena envolvendo Renan Santos (Missão) e Duda Hidalgo (PT), deputada estadual eleita em São Paulo, chamou atenção justamente pela naturalidade.
Duda apareceu em um show da Limão Rosa, banda da qual Renan faz parte, e brincou dizendo que o grupo era ruim e que o PT tinha bandas melhores. “Eu respondi de boa, a gente tomou cerveja e a festa continuou”, contou Renan depois.
Rapaz! E a Duda (deputada eleita do PT), que foi tirar onda com o Renan Santos? — Sua banda é horrível. O PT tem bandas melhores. Renan: Mas a festa não está ruim, né? Sinais, sinais… https://t.co/sBWbOi7Lri
— Lázaro Rosa 🇧🇷 (@lazarorosa25) October 12, 2026
Nas redes sociais, a interação provocou estranhamento. Teve quem enxergasse uma aproximação política e até quem criticasse Renan Santos simplesmente por confraternizar com alguém de outro campo ideológico.
A repercussão diz muito sobre uma transformação na política brasileira. Discordar deixou, em alguns círculos, de significar apenas defender propostas diferentes. O adversário político passou a ser tratado como um inimigo mortal.
A política nunca foi uma roda de amigos
É bom não romantizar o passado. A política brasileira sempre teve pancadaria verbal, acusações pesadas e campanhas capazes de dividir o país.
Em 1989, Fernando Collor e Lula protagonizaram uma eleição duríssima. O confronto entre os dois teve acusações, ataques pessoais e um debate final que até hoje aparece entre os episódios mais lembrados da televisão brasileira.
Nos anos seguintes, PT e PSDB assumiram o protagonismo. Fernando Henrique Cardoso venceu Lula em 1994 e 1998. Depois, o petista derrotou José Serra em 2002 e Geraldo Alckmin em 2006.
As diferenças eram grandes, e as campanhas também tinham golpes baixos. O que não existia na mesma intensidade era a ideia de que votar em alguém definia praticamente toda a identidade de uma pessoa.
Lula e FHC podiam brigar e depois conversar
Em 1994, Lula e Fernando Henrique estavam em lados opostos de uma disputa que tinha o Plano Real no centro.
Os dois chegaram a protagonizar um debate improvisado após uma sabatina da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Houve provocação, interrupção e divergência sobre economia.
Não eram amigos políticos. FHC desafiava Lula a discutir o Real, enquanto o petista atacava as alianças e o projeto do adversário.
Oito anos depois, entretanto, quando Lula finalmente venceu a Presidência, Fernando Henrique recebeu o adversário e iniciou a transição de governo apenas dois dias depois do segundo turno.
Serra e Lula tiveram até abraço antes do debate
O último debate presidencial de 2002 também ajuda a visualizar essa política.
Antes de passarem horas discordando diante das câmeras da Globo, Lula e José Serra se cumprimentaram e se abraçaram.
Depois vieram críticas sobre economia, Previdência, segurança, impostos, saúde e administrações de PT e PSDB.
A campanha esteve longe de ser leve. A propaganda de Serra explorou até o medo de uma possível vitória petista, com o famoso depoimento da atriz Regina Duarte.
Mas ainda havia uma diferença importante: a disputa partidária não significava necessariamente romper amizades, excluir parentes ou transformar cada espaço da vida cotidiana em extensão da campanha eleitoral.

Lula e Alckmin mostram como a lógica era diferente
Em 2006, Lula e Geraldo Alckmin elevaram bastante a temperatura.
Os debates tiveram acusações sobre corrupção, segurança e gestão pública. Em alguns momentos, os dois precisaram ser interrompidos pelo mediador.
Mesmo depois daquela guerra eleitoral, a rivalidade não se transformou em uma barreira eterna.
Dezesseis anos depois, Alckmin aceitou ser vice justamente de Lula na eleição de 2022.
A fotografia dos dois juntos causou estranhamento, principalmente por causa das pancadas antigas, mas também mostrou uma característica tradicional da política: adversários de uma eleição poderiam negociar ou até formar alianças posteriormente.

2014 acendeu o sinal de alerta
A eleição entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), em 2014, foi um dos momentos em que essa fronteira começou a ficar mais borrada.
Corrupção, nepotismo, acusações de mentira e ataques pessoais ganharam espaço nos debates. A agressividade incomodou inclusive quem acompanhava a campanha.
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O país também vinha das manifestações contra a realização da Copa do Mundo, em 2013, enfrentava uma crise política cada vez maior e começava a levar parte importante do debate público para Facebook, Twitter e WhatsApp.
Um estudo publicado na revista acadêmica Opinião Pública identificou sinais de crescimento da chamada polarização afetiva já em 2014. E isso só ficou mais destacado, em 2016, no impeachment da então presidente Dilma Rousseff, que causou um rompimento ainda mais profundo no país.
2018 virou a chave
A chegada de Jair Bolsonaro ao centro da disputa presidencial mudou a configuração que havia dominado o país desde os anos 1990.
O confronto deixou de ser basicamente PT contra PSDB. De um lado apareceu um movimento organizado em torno de Bolsonaro e fortemente marcado pelo antipetismo. Do outro, o PT continuou como principal força da esquerda.
Lula estava impedido de disputar aquela eleição, e Fernando Haddad assumiu a candidatura petista. Ainda assim, boa parte da campanha foi construída como um confronto entre o bolsonarismo e tudo aquilo que era associado ao PT.
Os pesquisadores Mario Fuks e Pedro Henrique Marques apontam que a polarização brasileira daquele período foi predominantemente afetiva e especialmente forte em relação aos candidatos.
A violência entrou de vez na campanha
O próprio Bolsonaro foi vítima de um dos episódios mais graves daquela eleição.
Em 6 de setembro de 2018, durante um ato de campanha em Juiz de Fora, o então candidato foi esfaqueado por Adélio Bispo de Oliveira.
A Polícia Federal concluiu que Adélio agiu sozinho e que o ataque teve motivação relacionada a seu inconformismo político com Bolsonaro. As investigações não encontraram participação do PT nem de qualquer mandante.
Um mês depois, foi a vez de a Bahia ser palco de uma tragédia diretamente relacionada a uma discussão eleitoral.
Moa do Katendê virou símbolo da intolerância
Na madrugada seguinte ao primeiro turno de 2018, o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, o Moa do Katendê, foi morto a facadas em Salvador.
Moa havia declarado voto em Fernando Haddad e se envolveu em uma discussão com Paulo Sérgio Ferreira de Santana, apoiador de Bolsonaro.
Segundo a investigação da Polícia Civil, Paulo deixou o bar depois da discussão, foi até casa, pegou uma faca e retornou ao estabelecimento. Moa foi atacado enquanto estava sentado. Um primo dele também ficou ferido.
O inquérito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa concluiu que a discussão político-partidária motivou o crime.
A morte do mestre de capoeira se tornou um dos principais símbolos da intolerância política daquela eleição.

Em 2022, a rivalidade chegou ao limite
Se 2018 marcou a entrada do bolsonarismo no centro da política nacional, 2022 colocou frente a frente os dois personagens que simbolizavam aquela divisão: Lula e Jair Bolsonaro.
A campanha foi cercada por tensão, desconfiança sobre o sistema eleitoral, ataques nas redes e episódios de violência.
Um dos casos mais emblemáticos aconteceu em Foz do Iguaçu, no Paraná.
Marcelo Arruda, guarda municipal e tesoureiro do PT, comemorava seus 50 anos em uma festa com decoração dedicada ao partido e a Lula quando Jorge Guaranho, apoiador de Bolsonaro, apareceu no local.
Depois de uma discussão, houve troca de tiros, e Marcelo morreu. Em fevereiro de 2025, Guaranho foi condenado a 20 anos de prisão pelo assassinato.

Dois meses depois, outro crime chamou atenção. Em Confresa, no Mato Grosso, Benedito Cardoso dos Santos e Rafael Silva de Oliveira começaram a discutir sobre Lula e Bolsonaro durante a noite de 7 de setembro de 2022.
Benedito apoiava Lula. Rafael declarou apoio a Bolsonaro.
Segundo a Polícia Civil, Rafael confessou que a discussão política motivou a briga. Benedito foi morto com golpes de faca, e o agressor ainda tentou atingir o corpo com um machado.
Números também mostram a escalada
Os crimes não significam que todo eleitor de Lula ou Bolsonaro seja violento, nem que toda violência política do país possa ser atribuída aos dois grupos.
Mas os números daquele período ajudam a mostrar como o ambiente eleitoral ficou mais perigoso.
Levantamento da Terra de Direitos e da Justiça Global identificou 247 episódios de violência política apenas em 2022 até o primeiro turno. O número era mais de 400% superior ao registrado em 2018.
No período entre os dois turnos de 2022, as organizações ainda mapearam oito assassinatos por motivação política em menos de um mês.
A violência política é um fenômeno mais amplo e envolve disputas locais, candidatos de diferentes partidos e outras motivações. Ainda assim, a escalada coincidiu com o período de maior confronto entre lulismo e bolsonarismo.
E a divisão sobreviveu a 2022
A eleição acabou, mas a lógica não desapareceu.
O bolsonarismo continuou como principal força da direita, enquanto Lula e o PT nadam de braçada como principais elos da esquerda.
Em 2026, mesmo sem Jair Bolsonaro na urna presidencial, os dois campos chegaram novamente ao segundo turno. Desta vez, Lula enfrenta Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente.
A violência política também não desapareceu. Levantamento da Terra de Direitos e Justiça Global registrou 134 casos durante os 50 dias da campanha do primeiro turno de 2026, média de uma ocorrência a cada nove horas. Isso mostra o quanto ainda precisamos crescer como sociedade e conviver com o diferente.

