
A decisão do senador Flávio Bolsonaro (PL) de se declarar presidente eleito do Brasil, posteriormente alterado para “líder do país”, mesmo após perder as eleições para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e agradecer ao presidente norte-americano Donald Trump reacendeu um debate antigo: até onde os Estados Unidos podem interferir nos assuntos internos do Brasil?
Na carta divulgada nesta quarta-feira (28), após sua chegada aos Estados Unidos, Flávio alegou fraude eleitoral sem apresentar provas, atacou o Supremo Tribunal Federal (STF) e prometeu liderar a oposição brasileira diretamente do exterior.
O episódio acontece em meio a uma nova tensão diplomática. Na segunda-feira (26), Trump questionou a legitimidade das eleições brasileiras e afirmou, também sem provas, que a votação parecia ter sido fraudada.
A postura norte-americana, no entanto, não é uma novidade. Ao longo da história, os Estados Unidos financiaram grupos políticos, apoiaram a derrubada de um presidente brasileiro, pressionaram decisões estratégicas e espionaram autoridades nacionais.
Parte dessas ações está registrada em documentos oficiais do próprio governo dos Estados Unidos, que foram divulgados décadas depois.
EUA tentaram influenciar eleições brasileiras
A interferência norte-americana nas eleições do Brasil é anterior ao golpe militar de 1964. Uma pesquisa do cientista político Dov H. Levin, divulgada em outubro de 2026, identificou pelo menos duas tentativas de influência eleitoral dos Estados Unidos no país, em 1955 e 1962.
Em 1955, Washington buscava evitar a vitória de Juscelino Kubitschek, considerado próximo de setores políticos que desagradavam ao governo norte-americano.
Segundo o levantamento, os Estados Unidos concordaram com um pedido do adversário de JK, Juarez Távora, para conceder um empréstimo de US$ 75 milhões destinado à estabilização da economia brasileira antes da eleição. A operação foi classificada pelo pesquisador como uma tentativa indireta de influência eleitoral.
A estratégia não conseguiu impedir a vitória de Juscelino, que assumiu a Presidência em janeiro de 1956.
Já em 1962, a atuação teria sido ainda mais direta. De acordo com Levin, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) destinou aproximadamente US$ 8 milhões ao financiamento de candidatos e grupos políticos contrários ao então presidente João Goulart.
A Fundação Getulio Vargas (FGV) também registra a atuação de organizações como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), que financiou candidatos de oposição.
Golpe de 1964 teve apoio dos Estados Unidos
Um dos episódios mais graves de interferência estrangeira ocorreu em 1964, quando o governo norte-americano apoiou a movimentação militar responsável pela derrubada do presidente João Goulart.
Em plena Guerra Fria, Washington temia que as reformas propostas por Jango, especialmente nas áreas agrária e econômica, aproximassem o Brasil do bloco socialista.
Para evitar esse cenário, o governo do presidente Lyndon Johnson colocou em prática a Operação Brother Sam, que previa apoio militar e logístico aos golpistas brasileiros.
Documentos do Departamento de Estado norte-americano revelam que a operação incluía o deslocamento de um porta-aviões, navios de guerra, combustível e aproximadamente 110 toneladas de munições e outros equipamentos.
O então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, também defendeu o apoio aos militares que planejavam derrubar João Goulart.
A ajuda militar acabou não sendo necessária, já que os golpistas conseguiram assumir o poder antes da chegada dos equipamentos. A participação norte-americana no planejamento, entretanto, está documentada.
O golpe iniciou uma ditadura militar que durou 21 anos, período marcado por censura, perseguições políticas, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados.

Pressão norte-americana sobre o programa nuclear
Nem mesmo durante a ditadura militar os interesses brasileiros e norte-americanos caminharam sempre na mesma direção.
Em 1975, o Brasil assinou um acordo de cooperação nuclear com a Alemanha Ocidental, buscando ampliar sua capacidade de produzir energia e desenvolver tecnologia própria.
O governo dos Estados Unidos, especialmente durante a administração de Jimmy Carter, passou a pressionar os dois países para que abandonassem partes do acordo relacionadas ao enriquecimento de urânio e ao reprocessamento de combustível nuclear.
Washington justificava a oposição pelo risco de proliferação de armas nucleares. Já o governo brasileiro defendia o direito de desenvolver tecnologia para fins pacíficos.
A pressão provocou um desgaste diplomático. Em 1977, o Brasil denunciou o acordo de assistência militar que mantinha com os Estados Unidos desde 1952, também em meio a divergências sobre exigências norte-americanas relativas aos direitos humanos.
Dilma e Petrobras foram alvos de espionagem
Outro episódio envolvendo a soberania brasileira veio à tona em 2013, durante o governo da então presidente Dilma Rousseff (PT).
Documentos vazados pelo ex-funcionário de inteligência Edward Snowden revelaram operações de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) contra comunicações de Dilma e de integrantes de seu governo.
As denúncias também apontaram atividades de inteligência direcionadas à Petrobras, uma das maiores empresas brasileiras e responsável pela exploração de importantes reservas de petróleo.
A revelação provocou uma crise diplomática entre Brasília e Washington. Dilma cobrou explicações do então presidente Barack Obama e decidiu adiar uma visita oficial aos Estados Unidos, que estava prevista para outubro daquele ano.
O governo brasileiro classificou as ações como incompatíveis com uma relação entre países democráticos e afirmou que a espionagem representava uma violação da soberania nacional.
Trump usou tarifaço para pressionar o Brasil
Mais recentemente, em julho de 2025, o presidente Donald Trump anunciou tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, vinculando a medida ao tratamento dado pela Justiça brasileira ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na época, Bolsonaro respondia a um processo no STF relacionado à tentativa de golpe de Estado. Trump classificou o julgamento como perseguição política e cobrou mudanças na atuação das autoridades brasileiras.
A Casa Branca chegou a enquadrar determinadas ações do governo brasileiro como uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.
Além das tarifas, o governo norte-americano aplicou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, com base na Lei Magnitsky, mecanismo utilizado para punir estrangeiros acusados de violações de direitos humanos.
As medidas provocaram reações do governo Lula, que considerou inaceitável a utilização de instrumentos comerciais para pressionar decisões do Judiciário brasileiro.
Em 2026, novas tarifas norte-americanas também foram questionadas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC). O governo brasileiro contestou sobretaxas impostas a determinados produtos nacionais e classificou as medidas como incompatíveis com obrigações comerciais internacionais.

Eleições de 2026 e o apoio político a Bolsonaro
A interferência estrangeira voltou ao centro das discussões durante a campanha presidencial de 2026.
Em setembro, vieram a público informações sobre exigências apresentadas pelo governo Trump em negociações comerciais com o Brasil, incluindo compromissos relacionados à participação de opositores políticos nas eleições.
O conteúdo foi interpretado por integrantes do governo brasileiro como uma tentativa de ingerência no processo eleitoral. Flávio Bolsonaro, por sua vez, negou que estivesse recebendo ajuda do governo norte-americano para vencer a disputa.
Após a vitória de Lula no segundo turno, realizado no domingo (25), Trump questionou a lisura da votação, sem apresentar elementos que comprovassem fraude.
O governo norte-americano também adiou a divulgação de um comunicado sobre o resultado eleitoral depois que Flávio contestou a derrota.

Flávio busca apoio externo após humilhação nas urnas
É nesse contexto que Flávio Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos e divulgou uma carta na qual se apresentava como o legítimo vencedor das eleições. Posteriormente, o documento foi alterado, e a expressão foi substituída por “líder do Brasil”.
O senador agradeceu a Donald Trump e ao presidente argentino Javier Milei pelo acolhimento, afirmou ser vítima de perseguição política e prometeu apresentar uma estratégia para mobilizar a oposição brasileira.
Apesar das declarações de Flávio, não há comprovação de fraude capaz de invalidar o resultado oficial das eleições. Tampouco há confirmação de que o governo dos Estados Unidos o reconheça como presidente eleito.
Os episódios históricos mostram que a influência norte-americana sobre o Brasil já assumiu diferentes formas, do financiamento político e apoio a um golpe militar à espionagem e à pressão econômica.

