
Cada vez mais escondidas e difíceis de localizar, câmeras clandestinas usadas por organizações criminosas em Salvador passaram a ser instaladas com novas estratégias para escapar da identificação pelas forças de segurança. Os equipamentos, que antes costumavam ficar mais visíveis em postes e em outros pontos das ruas, agora são instalados de forma camuflada, em estruturas que simulam caixas de provedores de internet e outros objetos comuns do dia a dia.
A prática de usar câmeras clandestinas para acompanhar a movimentação em territórios controlados por grupos criminosos já é conhecida pelas autoridades. A novidade está justamente nas formas de ocultação adotadas por integrantes de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Bonde do Maluco (BDM), que passaram a criar mecanismos para dificultar a identificação dos pontos de vigilância ilegal.
A estratégia permite que criminosos acompanhem, em tempo real, a circulação de moradores, possíveis rivais e a presença de viaturas. Com a observação antecipada, os faccionados conseguem tentar deixar os locais ou retirar suas drogas antes da chegada das equipes policiais, conforme explica o tenente-coronel Alan da Silva Costa, do Comando de Policiamento Regional da Capital (CPR-C) Baía de Todos os Santos.
"Eles [criminosos] procuram instalar essas câmeras em pontos estratégicos para eles, em algumas esquinas, em algumas vias de acesso a determinados bairros, para que, à medida que as nossas guarnições ou as nossas viaturas se aproximem, eles possam verificar, identificar com certa antecedência e procurar fugir ou retirar seus materiais ilícitos para que não sejam encontrados."
A utilização desses equipamentos também reflete a incorporação de recursos tecnológicos às atividades ilegais. De acordo com o oficial, o acesso facilitado a sistemas de monitoramento levou as organizações criminosas a utilizarem esse tipo de ferramenta para acompanhar o que acontece nas regiões sob sua influência e tentar antecipar ações das autoridades.
"A tecnologia está aí para todo mundo. Então, eles perceberam que, usando a tecnologia, conseguiam tentar se antecipar um pouco à atuação das forças de segurança. Eles estão tentando instalar essas câmeras como forma de observar a movimentação da população e, principalmente, a movimentação das forças de segurança”, aponta.
A maioria esmagadora das pessoas utiliza a tecnologia para o bem, mas ela também é utilizada para o mal. Não só as câmeras. O marginal vai procurar se aperfeiçoar também. Infelizmente, essa é a realidade
Tenente-coronel Alan da Silva Costa
Com o passar do tempo, a instalação das câmeras também passou por mudanças. Se antes os equipamentos ficavam mais expostos, atualmente eles são colocados de forma a dificultar a identificação. Em alguns casos, ficam escondidos dentro de caixas plásticas semelhantes às utilizadas por empresas provedoras de internet, com pequenas aberturas para manter o campo de visão das lentes.
"No início era mais fácil. Eles instalavam de qualquer jeito. Hoje em dia, não. Eles estão tentando instalar de formas que fiquem mais escondidas, dentro de algumas caixas plásticas, simulando até aquelas caixas de provedor de internet. Só que ali eles fazem alguns orifícios para que a câmera tenha acesso àquela determinada via. Então, está sendo mais difícil conseguirmos identificar onde as câmeras estão sendo colocadas.", descreve o tenente.

Casos foram registrados em diferentes bairros
Levantamento realizado pelo MASSA! mostra que a retirada de câmeras clandestinas deixou de ser um episódio isolado e passou a ocorrer com frequência em Salvador nos últimos três anos, segundo dados apurados pela reportagem. As apreensões se espalharam por diversas regiões da cidade.
Em 2023, ao menos cinco ocorrências resultaram na remoção de câmeras instaladas irregularmente em postes de iluminação. A maior apreensão aconteceu na Fazenda Grande do Retiro, onde nove equipamentos foram retirados. Também houve registros em Pirajá, Fazenda Grande I e Tancredo Neves, incluindo uma operação que localizou uma câmera e um modem ligados clandestinamente.
No ano seguinte, novas apreensões foram realizadas em São Gonçalo do Retiro, Santa Mônica, Itapuã, Ribeira, Pero Vaz, Curuzu e Bairro da Paz. Na Cidade Baixa, seis câmeras foram encontradas na Ribeira. Na ocasião, os equipamentos integravam um sistema montado para acompanhar a aproximação de viaturas nas imediações do Campo do Lasca.
As ocorrências continuaram em 2025. Em fevereiro, sete câmeras foram retiradas em Brotas. Em abril, outras três foram encontradas em Cosme de Farias. Já em agosto, quatro equipamentos foram apreendidos em Massaranduba.
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Setembro concentrou novas ações, com quatro câmeras e munições localizadas na Rua Amparo do Tororó, outras quatro apreendidas em Fazenda Coutos e mais um equipamento retirado no IAPI.
Em dezembro daquele ano, policiais recolheram diversas câmeras clandestinas e caixas de distribuição de internet instaladas irregularmente em Marechal Rondon. A localidade fica ao lado do Alto do Cabrito, bairro onde três funcionários de uma empresa provedora de internet foram encontrados mortos, com mãos e pés amarrados e marcas de tiros.

Operação ampliou retirada de equipamentos
O aumento das apreensões levou à criação da Operação Olhos Fechados, lançada em 30 de setembro de 2025 com foco exclusivo na localização e retirada das câmeras clandestinas. Nas primeiras horas da iniciativa, a quantidade de equipamentos encontrados chamou a atenção das equipes envolvidas.
"Nas primeiras aproximadamente entre três e quatro horas da operação, depois de lançada, nós conseguimos retirar 96 câmeras no dia do lançamento", relata o tenente-coronel Alan da Silva.
Entre setembro de 2025 e 4 de agosto deste ano, aproximadamente 361 câmeras clandestinas foram apreendidas apenas na área coberta pelo CPR-C Baía de Todos os Santos, que abrange bairros como Centro Histórico, Valéria, Barbalho, Pirajá, Lobato e Paripe.

Instalações continuam sendo identificadas
Mesmo com operações voltadas ao combate dessa prática na capital baiana, novos casos seguem sendo registrados. O mais recente ocorreu em 22 de junho deste ano, quando um homem foi preso em flagrante enquanto instalava uma câmera clandestina em um poste de energia no bairro de Mussurunga. Na ocasião, ele confessou ter sido contratado por integrantes de uma organização criminosa e informou que o equipamento seria utilizado para monitorar a movimentação da região.
A ocorrência, segundo o tenente-coronel Alan da Silva Costa, reforça que a busca por esses equipamentos passou a fazer parte da rotina das equipes durante o patrulhamento ostensivo. Além das denúncias encaminhadas por moradores, os policiais também são orientados a observar locais onde esse tipo de instalação costuma ser feito.
"A nossa tropa já está orientada para ficar monitorando. À medida que estamos fazendo o policiamento ostensivo, observamos e, quando encontramos ou recebemos denúncias da própria população, retiramos esses equipamentos.", completa.
Os casos registrados em diferentes regiões da capital indicam que a instalação irregular desses equipamentos deixou de ser um episódio isolado. Distribuídas em bairros distintos e ocultadas de formas cada vez mais discretas, as câmeras passaram a compor o cenário das ações atribuídas às organizações criminosas em Salvador.

