Os réus Patric Ribeiro Tupinambá, conhecido como "Bagão", e Edgar da Silva Santos, apelidado de "Chocolate", apontados pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) como executor e mandante do assassinato do cabeleireiro Valdir Macário, morto dentro do próprio salão de beleza, na Avenida Vasco da Gama, em Salvador, em 2016, serão julgados pelo Tribunal do Júri no dia 6 de agosto de 2026.
A sessão será realizada no Fórum Ruy Barbosa, no bairro de Nazaré. Os dois respondem por homicídio qualificado e terão o caso analisado por um Conselho de Sentença formado por sete jurados, responsáveis por decidir pela condenação ou absolvição dos acusados.

Atualmente, Patric está preso no Conjunto Penal Masculino de Salvador. Edgar, por sua vez, cumpre pena em regime semiaberto, com autorização para prisão domiciliar em razão de uma grave doença cardiovascular e de outras enfermidades.
O crime
O crime ocorreu no dia 12 de novembro de 2016. De acordo com a denúncia do MP-BA, por volta das 19h, um GM Cruze vermelho estacionou em frente ao Salão de Beleza Valdir Cabeleireiro. No veículo estavam três homens. Patric e um comparsa desceram armados, enquanto o motorista permaneceu no carro para garantir a fuga.
Ao entrarem no estabelecimento, os criminosos provocaram pânico entre clientes e funcionários, que correram para se proteger. O alvo da ação era Valdir. O cabeleireiro estava no banheiro e, ao sair, já sem oferecer qualquer reação, foi executado com diversos disparos.

Após o homicídio, Patric e o comparsa retornaram ao veículo, onde o terceiro integrante do grupo os aguardava, e fugiram do local. Apenas Patric foi identificado e preso. Até os dias atuais, os outros dois envolvidos não foram identificados e o paradeiro deles permanece desconhecido.
Motivação
De acordo com a acusação, o assassinato foi encomendado por Edgar. A motivação seria vingança. Conforme a denúncia, o irmão de Valdir mantinha um antigo relacionamento amoroso com a companheira de Edgar.
Ainda segundo o MP-BA, cerca de um mês antes do homicídio, Edgar teria tentado matar o verdadeiro alvo, o irmão de Valdir, no mesmo salão de beleza. Como não executou o plano, ordenou a morte do cabeleireiro para atingir emocionalmente o suposto rival.

A denúncia afirma ainda que Edgar aproveitou a relação de confiança que mantinha com Patric para convencê-lo a cometer o crime, mediante promessa de pagamento a ele e aos demais envolvidos na execução.
Quem era Valdir
Valdir era reconhecido como um dos principais especialistas em cabelos afros da Bahia. Além de comandar o próprio salão de beleza, também se dedicava à formação de novos profissionais.
Autodidata, o cabeleireiro desenvolveu uma fórmula própria para o tratamento e a modelagem de cabelos crespos após a saída do mercado brasileiro da linha de produtos que utilizava. A química criada por ele deu origem à marca AVC (Alda e Valdir Cabeleireiro). Valdir também mantinha uma boa relação com celebridades, que frequentemente o procuravam para realizar tratamentos em seu salão.
Memória e Justiça
Para uma das irmãs de Valdir, Ide Macário, a expectativa da família é que o júri seja realizado com serenidade e que os fatos sejam finalmente esclarecidos. A demora para o julgamento, segundo ela, deixou marcas profundas dentro da própria família.
Ide conta que o pai, já falecido, que era conhecido por ser comunicativo, passou a viver em silêncio após a morte do filho. A mãe, que mantinha uma rotina ativa, também ficou abalada e morreu sem ver o desfecho do caso.
"Nós não estamos clamando por vingança. A vingança que nossos pais nos ensinaram foi trabalhar e estudar. A nossa forma de responder é com a nossa história, com o nosso trabalho e com o respeito que sempre carregamos, Meu pai era um homem que falava muito, mas silenciou. Ele perdeu a alegria depois que Valdir se foi. Minha mãe também esperou essa resposta e não conseguiu ver. A gente perdeu muitas pessoas durante esse caminho”, afirmou.

Para Ide, a memória de Valdir continua presente no salão, que mudou para um novo prédio, a poucos metros do local onde ocorreu o crime. Ela descreve o irmão como alguém que tinha a família como prioridade e que deixou como legado o respeito pelas pessoas que cruzaram seu caminho.
“Valdir era um irmão-pai. Ele viveu para a família. Tudo que ele fazia, pensava primeiro na minha mãe e nos irmãos. Ele não tomava nenhuma decisão sem ouvir a opinião dela. A maior memória que temos é o legado deixado por ele. O respeito com cada colega, com cada cliente que chegava aqui. Cada cadeira desse salão carrega uma história e um pouco do que ele deixou", contou.