
Um cara que se impunha pelo terror, pelo porte de armas de grosso calibre e que ameaçava a população. Assim era descrito Allan Rodrigues dos Santos, conhecido como “3 Bond” ou “Sete”, apontado como uma das principais lideranças do Bonde do Maluco (BDM) em Salvador e na Região Metropolitana (RMS). O homem foi morto na sexta-feira (14), durante uma ação policial na localidade de Barro Duro, na capital baiana.
A atuação atribuída a Allan não ficava restrita a um único endereço, ele tinha influência em localidades como a Estrada das Pedreiras, Novo Horizonte, Ceasa, Simões Filho e Góes Calmon. Segundo apuração do MASSA!, previamente ao seu falecimento, o criminoso estaria articulando ataques contra grupos rivais, entre eles o Comando Vermelho (CV) e a Katiara.
Antes de ser localizado, Allan já estava no radar das forças de segurança. Ele era um dos alvos da Operação Perímetro Zero e também integrava o Baralho do Crime da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), aparecendo como “3 de Ouro”. A ficha criminal extensa reunia investigações por tráfico de drogas, porte ilegal de arma de fogo de uso restrito e organização criminosa.
O histórico judicial também pesava contra ele. Allan ainda acumulava condenações que chegavam a 29 anos de prisão, sendo 20 anos relacionados a um homicídio e outros nove por tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo. Além disso, ele era investigado por outros crimes violentos ocorridos em diferentes bairros da capital.
A chegada das equipes
Na sexta, as equipes policiais foram até um imóvel localizado em Barro Duro para cumprir um mandado de busca e apreensão. A movimentação, no entanto, teria sido percebida por Allan antes da entrada dos agentes. A partir daí, a operação terminou em uma troca de tiros dentro da residência.
De acordo com o delegado Ernandes Júnior, do Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), Allan estava acompanhado da esposa e a manteve como refém durante a chegada dos policiais. Segundo o investigador, a mulher conseguiu se desvencilhar antes dos disparos contra os agentes.
No momento em que a Polícia Civil adentrou o imóvel, 3 Bond fez a sua esposa de refém. Ela conseguiu se desvencilhar dele, e ele efetuou disparos contra as equipes da Polícia Civil. Houve o revide e, infelizmente, ele foi alvejado, socorrido e veio a óbito
Delegado Ernandes Júnior
Após ser atingido, Allan foi socorrido pelas equipes, mas morreu no local. Entre os itens encontrados durante a operação estava uma pistola calibre .40 que seria uma arma pertencente à Polícia Militar. O equipamento havia sido alterado para realizar disparos em rajada, em vez de funcionar somente no modo convencional. Um carregador estendido também estava acoplado à pistola.
A procedência do armamento ainda não havia sido esclarecida. Para os investigadores, identificar como a arma saiu da posse oficial e chegou ao grupo criminoso pode ajudar a estabelecer uma eventual ligação com outros crimes. A apuração deve envolver também a Polícia Civil do Espírito Santo, onde teria ocorrido o registro relacionado ao armamento.
O delegado Marcelo Calmon explicou ao MASSA! que armas utilizadas por organizações criminosas podem chegar às mãos dos integrantes por diferentes caminhos, e que o caso específico ainda depende de investigação documental.
“Esses armamentos são oriundos de crimes, seja furto ou roubo por parte de policiais que portam essas armas, ou até execução de policiais que também têm essas armas subtraídas. Nesse caso, não dá para saber ainda”, descreve.
Uma operação com mais de 150 policiais
A localização de Allan exigiu uma mobilização de grande porte. Mais de 150 policiais civis e militares participaram das ações, segundo a corporação. O número de agentes empregados na operação estava relacionado, principalmente, à dificuldade de acesso às áreas utilizadas pelo suspeito para se esconder e circular.
Segundo Ernandes Júnior, do Denarc, Allan tinha acesso a diferentes imóveis próximos às regiões de mata. A estratégia, de acordo com o delegado, permitia que ele mudasse de local com frequência e dificultasse o trabalho das equipes. A presença de câmeras e olheiros também teria contribuído para alertar os integrantes do grupo sobre a aproximação policial.
“Ele vivia muito em área de mata. E naquela região, como ele dominava aquela área, tinha acesso a diversas casas. Então, ele frequentava diversas casas, era responsável por mandar diversos bondes em diversos bairros. Ele trabalhava para uma facção criminosa.”
Durante as buscas, os policiais encontraram dois acampamentos montados em uma área de mata. A suspeita é de que os espaços servissem como pontos de permanência para integrantes do BDM ligados a Allan, principalmente em momentos em que havia movimentação policial na região.
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A dificuldade para chegar até esses pontos já fazia parte do histórico das operações realizadas no local. Conforme o delegado, os criminosos utilizavam diferentes formas de vigilância para perceber a aproximação das forças de segurança e se deslocavam rapidamente para a vegetação.
“Aquela área ali é uma área de dominação territorial dele há muito tempo. Todas as vezes que a gente chegava lá, tínhamos dificuldade de alcançar, porque, antes de a gente chegar, eles conseguiam ser avisados, ou por monitoramento de câmeras, ou por olheiros. Quando a gente chegava, ele geralmente já estava na área de mata, o que tornava difícil [a localização].”
Refúgio entre a mata e os imóveis
A rotina atribuída aos integrantes do grupo envolvia uma espécie de alternância entre os acampamentos e casas localizadas nas proximidades. A vegetação era utilizada como área de proteção e fuga, enquanto os imóveis ofereciam estrutura para períodos curtos de permanência.
A escolha de residências próximas à mata não era aleatória. A localização permitiria uma saída rápida em caso de incursões policiais, mantendo os criminosos próximos de uma rota de escape. Ainda assim, os investigadores afirmam que os integrantes mantinham uma vida regada a mulheres fora desses pontos.
“Eles vivem mais na mata do que em casa, mas, claro, eles precisam ir para casa, né? Aí tem um banho, tem mulheres que eles encontram nas casas. Então, eles têm uma vida social, mas escolhem essas casas na beira da mata justamente para facilitar a fuga.”,conta.
Disputa por território
Além da estrutura usada para evitar a abordagem policial, as investigações apontam para uma disputa pelo controle de áreas. Allan seria responsável por coordenar ações de integrantes do BDM em diferentes localidades, em um cenário de conflito com grupos rivais que também tentam ampliar sua presença em Salvador e na RMS.
O delegado Marcelo Calmon afirmou que o suspeito buscava recuperar espaços que, segundo a investigação, haviam sido perdidos pela facção. Para isso, ainda conforme a polícia, estaria reunindo armas de maior poder de fogo e organizando ataques.
“É um indivíduo que é extremamente perigoso, que estava querendo retomar áreas que a facção à qual ele integra havia perdido. Estava arregimentando armamentos de grosso calibre justamente para fazer esses ataques. Ele é responsável por diversos ataques em diversos bairros de Salvador, com homicídios consumados nesses bairros, que são investigados individualmente pelo DHPP.”
A disputa, segundo os investigadores, também se refletia no cotidiano das localidades sob influência do grupo. A polícia afirma que os criminosos buscavam estabelecer regras próprias, controlar a circulação de pessoas e dificultar a presença de agentes de segurança.
“A dominação territorial dele se dava pela venda de drogas e pelo controle de tudo que acontecia ali. Ele não permitia e evitava, a qualquer custo, a presença da polícia naquela localidade. Então, ele tentava ditar regras ali naquela localidade”.
O que foi apreendido?
Com o avanço das buscas, o arsenal localizado pelas equipes reforçou a dimensão da operação. Ao todo, foram encontrados um fuzil calibre 7,62 e 143 munições compatíveis com a arma. Também havia uma pistola .40 equipada com seletor de rajada e cinco carregadores municiados.

Além desse material, os policiais recolheram outros dois carregadores de fuzil e 182 munições calibre .40. A operação também resultou na apreensão de porções de maconha do tipo “Wolf”, dinheiro em espécie e um veículo com restrição de roubo.

