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Ba-Vi sangrento: Werner abre o jogo sobre torcidas organizadas

Violência deixou dois mortos e um lava-jato destruído

Marcelo Werner, secretário da SSP-BA
Marcelo Werner, secretário da SSP-BA |  Foto: Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE

Seis homens foram presos em flagrante após a morte do torcedor do Bahia José Alexandre Souza Borges, de 28 anos, conhecido como Nakombi, durante episódios de violência envolvendo torcidas organizadas antes do Ba-Vi deste domingo (23), em Salvador. Segundo apuração do MASSA!, os suspeitos foram identificados como Guilherme Maia da Luz, Neithon Oliveira dos Santos, Marcos Vinicius Costa Magalhães, Sergio Gabriel Reis dos Santos, Tiago Franco Barbosa Lima Silva e Caíque Santos Chaves.

Segundo a Polícia Civil, os seis foram autuados por homicídio qualificado, tentativa de homicídio contra outras quatro pessoas, posse de artefato explosivo e promoção de tumulto, conforme previsto no Estatuto do Torcedor.

Homens foram conduzidos ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP)
Homens foram conduzidos ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) | Foto: Reprodução/Leitor MASSA!

A prisão dos suspeitos aconteceu após uma operação da Polícia Militar para localizar integrantes de grupos envolvidos em uma ocorrência de agressão na região da Avenida 29 de Março. Os homens apresentavam vestígios de sangue nas roupas, segundo a polícia.

Com eles, foram apreendidos três objetos perfurocortantes, dois artefatos explosivos, fogos de artifício e latas de spray. As armas brancas e as roupas com material genético foram encaminhadas ao Departamento de Polícia Técnica (DPT) para perícia.

Além dos seis presos, outras dezenas de pessoas foram conduzidas para prestar esclarecimentos. A Central de Flagrantes registrou a condução de 60 pessoas por uma ocorrência de tumulto e atos de vandalismo.

A sequência de violência começou antes do Ba-Vi

Horas antes de a bola rolar para o clássico, marcado para as 16h no Barradão, a rivalidade entre integrantes de torcidas organizadas ganhou contornos trágicos em diferentes pontos de Salvador.

O episódio mais grave aconteceu na Avenida 29 de Março, na Via Regional, uma das principais vias de acesso ao Barradão. José Alexandre, integrante da Bamor, torcida organizada ligada ao Bahia, teria sido perseguido e atacado por integrantes da Torcida Uniformizada Os Imbatíveis (TUI), ligada ao Vitória.

Segundo a Polícia Civil, o torcedor foi agredido e atingido por golpes de faca. A Polícia Militar foi acionada após uma ocorrência de agressão envolvendo integrantes de torcidas organizadas e iniciou buscas pelos suspeitos.

Durante as diligências, grupos foram localizados em fuga. Seis homens que apresentavam vestígios de sangue nas roupas foram conduzidos ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e posteriormente autuados em flagrante.

A vítima não resistiu aos ferimentos. José Alexandre, conhecido como Nakombi, era integrante da Bamor e também já havia feito parte da torcida Terror Tricolor.

A morte provocou manifestações de luto entre familiares, amigos e companheiros de arquibancada.

José Alexandre Souza Borges, de 28 anos, conhecido como Nakombi
José Alexandre Souza Borges, de 28 anos, conhecido como Nakombi | Foto: Reprodução/Redes sociais

Nakombi é sepultado em Salvador

Um dia após ser morto, José Alexandre Souza Borges foi sepultado nesta segunda-feira (24), no Cemitério Bosque da Paz, em Salvador.

O velório reuniu familiares, amigos e um grande número de integrantes da Bamor. As cores tradicionais da torcida, azul, vermelho e branco, estiveram presentes durante a despedida, assim como o Taz-Mania, principal símbolo do grupo.

Bandeirões da Bamor e do Distrito da torcida do qual José Alexandre fazia parte também foram levados ao cemitério e permaneceram tremulando durante a cerimônia.

O sepultamento foi marcado por forte emoção. Integrantes da organizada prestaram as últimas homenagens ao jovem com queima de fogos, palmas e cânticos.

A despedida aconteceu enquanto a Polícia Civil avançava nas investigações sobre o assassinato. Os seis suspeitos conduzidos ao DHPP foram autuados pelo homicídio de José Alexandre e pela tentativa de homicídio de outras quatro pessoas.

Sepultamento de Nakombi aconteceu nesta segunda-feira (24)
Sepultamento de Nakombi aconteceu nesta segunda-feira (24) | Foto: Luan Julião/Ag. A Tarde

Segunda morte também é registrada

No mesmo domingo, outra morte envolvendo um integrante da Bamor foi registrada em Salvador. Lucas dos Reis Bomfim, de 19 anos, foi morto a tiros.

Apesar da proximidade entre os casos e da relação das vítimas com a torcida organizada do Bahia, a Polícia Civil informou que não há indícios, até o momento, de que a morte de Lucas tenha relação com o ataque que matou José Alexandre.

Lucas era torcedor do Vitória desde criança, mas havia se aproximado de uma torcida organizada ligada ao Bahia cerca de três meses antes da morte, segundo informações repassadas à reportagem pelo padrinho dele, Ueslei Reis.

O jovem havia recentemente servido ao Exército e também trabalhava para garantir o próprio sustento. De acordo com o padrinho, ele havia passado por um posto de combustível e posteriormente começou a trabalhar com a venda de gás.

A entrada no universo das torcidas organizadas teria preocupado familiares.

“Alertamos sobre o risco, mas ele não conseguia enxergar, ele tinha pureza demais no coração. Quando houve a mudança, já sentimos o pesar no coração”, relatou Ueslei.

A morte de Lucas também é investigada pelo DHPP.

Lucas foi atacado e morto no domingo (23)
Lucas foi atacado e morto no domingo (23) | Foto: Reprodução/Redes sociais

Lava-jato é invadido após funcionário ser reconhecido

A violência também ultrapassou os confrontos diretos entre torcedores e atingiu um estabelecimento comercial em Canabrava.

Um lava-jato foi invadido por integrantes de uma torcida organizada ligada ao Vitória após, segundo relatos, um dos funcionários ser reconhecido como integrante da Bamor.

O proprietário do estabelecimento, Elísio de Jesus, conhecido como Baixinho, de 49 anos, havia saído para almoçar e deixou dois funcionários no local para finalizar o serviço de um cliente.

Ataque ocorreu antes do clássico Ba-Vi
Ataque ocorreu antes do clássico Ba-Vi | Foto: Reprodução/Redes sociais

Segundo o comerciante, ao MASSA!, um dos funcionários seria integrante da Bamor e teria sido reconhecido pelo grupo.

“Eu tinha acabado de fechar o estabelecimento e fui para casa almoçar. Deixei dois funcionários aqui finalizando o carro de um cliente. Um deles é integrante da Bamor e, segundo me relataram, teria sido reconhecido por integrantes da torcida organizada do Vitória”, afirmou.

Pouco depois, Baixinho recebeu uma ligação informando que o estabelecimento estava sendo destruído.

Quando retornou, encontrou o portão principal danificado e diversos objetos espalhados. Duas bombas foram lançadas no local. Uma explodiu próxima a uma parede, enquanto outra caiu debaixo de um veículo e não detonou.

“Essa bomba não explodiu. Para a honra e glória do Senhor Jesus, ela parou debaixo do carro do cliente e não explodiu. Se tivesse explodido, poderia ter acontecido uma tragédia muito maior”, contou.

O veículo atingido pertence a um cadeirante, é adaptado e, segundo o proprietário, não possui seguro. O retrovisor foi quebrado e a lataria ficou amassada.

Baixinho ainda não conseguiu calcular o prejuízo e afirmou que o estabelecimento é responsável pelo sustento de seis funcionários.

“Eu não tenho como arcar com esse prejuízo. Alguém precisa tomar uma providência e resolver essa situação. Não estou falando de todos os integrantes das torcidas. Conheço pessoas da torcida do Bahia e do Vitória que são pessoas de bem. Estou falando dessas pessoas que entram nesses grupos para praticar violência e acabam manchando a imagem dos clubes”, afirmou.

Cerca de 60 pessoas foram conduzidas

Além dos seis presos pelo homicídio de José Alexandre, a Polícia Militar conduziu dezenas de pessoas após ocorrências de tumulto e vandalismo registradas nas proximidades da Avenida Regional, em Sete de Abril.

Segundo a Polícia Civil, 60 pessoas foram apresentadas na Central de Flagrantes. Os conduzidos passaram por oitivas para esclarecer a participação nos acontecimentos.

Após a análise da ocorrência, foi registrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) relacionado aos atos de vandalismo.

A polícia também apreendeu materiais que teriam sido utilizados durante os confrontos. Entre eles estavam objetos perfurocortantes, artefatos explosivos, fogos de artifício e latas de spray.

As armas e peças de roupa com possível material genético foram encaminhadas ao DPT.

Werner cobra reação e fala em repensar torcidas

A sequência de violência provocou uma reação do secretário da Segurança Pública da Bahia, Marcelo Werner, nesta segunda-feira (24). O secretário lamentou as mortes e classificou os episódios como atos de “selvageria” e “covardia”. Para Werner, os envolvidos nas ocorrências não podem ser tratados simplesmente como torcedores.

“Quero lamentar a morte de dois jovens ontem, solidarizar com as famílias e, acima de tudo, repudiar veementemente esses atos de selvageria, de covardia praticada por criminosos que se passam por torcedores”, afirmou.

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Werner defendeu que clubes, Federação Bahiana de Futebol, Ministério Público, Tribunal de Justiça e demais instituições ligadas ao futebol e à Justiça discutam a própria existência das torcidas organizadas.

“Inclusive, acredito que todos que gostam de futebol, que fazem o futebol acontecer, todo sistema de Justiça, Ministério Público, Tribunal de Justiça, Federação Baiana, os clubes, está na hora de repensar a existência desses grupos que se dizem torcedor organizado”, declarou.

A SSP-BA informou que as investigações continuam para identificar outras pessoas envolvidas. Denúncias podem ser encaminhadas pelo Disque Denúncia 181.

MP-BA acompanha os casos

O Ministério Público da Bahia informou que acompanha os episódios de violência e adota as medidas necessárias para identificar e responsabilizar os autores dos atos.

O órgão afirmou que mantém o compromisso com a defesa da vida, da paz e da segurança da população e que seguirá atuando para responsabilizar criminalmente os envolvidos.

As investigações continuam para esclarecer as circunstâncias das duas mortes, identificar outros participantes dos confrontos e determinar a responsabilidade individual de cada suspeito.

O Ba-Vi, que terminou com vitória do Bahia por 2 a 0 no Barradão, acabou marcado não apenas pela rivalidade dentro de campo, mas por uma série de episódios violentos que deixaram dois jovens mortos, seis suspeitos presos e dezenas de pessoas conduzidas, além de estabelecimentos e veículos danificados em Salvador.

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