
Fé, território e identidade baiana se encontram nas 10 faixas de VANGUARDAH, primeiro álbum de estúdio do rapper baiano Vandal, lançado em agosto de 2026. O disco mistura ritmos como samba, samba-reggae, pagode e referências culturais da Bahia, passando pelas festas de largo, pela geografia de Salvador e pela devoção do artista a Santa Dulce dos Pobres.
Mais do que reunir diferentes sonoridades, o álbum transforma essas referências em base para uma narrativa sobre a experiência baiana.
Após 10 anos desde o lançamento de sua mixtape TIPOLAZVEGAZH, o novo disco ultrapassa as barreiras geográficas do rap nacional, centralizado na região sudeste, ganhando repercussão em todo o país.
A convite do MASSA!, o rapper fala sobre a construção de VANGUARDAH, sua filosofia artística e a defesa de uma produção musical que valorize as referências locais. Para Vandal, sua música funciona como uma narrativa de vida, "viva e urgente", que não precisa seguir os modelos convencionais da indústria.

Um álbum Gospel
Durante a audição do disco Vanguardah, em 11 de agosto de 2026, o rapper definiu o disco como uma obra gospel. Questionado sobre onde o gospel pode ser percebido dentro do álbum, o artista explica que a atmosfera religiosa apresenta-se não no sentido tradicional, mas pela sua tamanha devoção a Santa Dulce. “Eu sou devoto de Santa Dulce, então, obviamente, tudo que eu faço é por essa devoção. É essa devoção que me fez continuar no processo musical, faz com que todo o andamento musical, toda a minha obra, seja ambientada por essa atmosfera”, conta.
Essa fé permeia toda a obra. Segundo ele, a fé está derramando uma "poesia religiosa" e uma energia de honestidade e entrega, mesmo em faixas mais agressivas. Em o Anjo Bom da Bahia, temos acesso quase direto com o espiritual, ao ouvir a voz de Irmã Dulce afirmando que “a gente é somente um instrumento bem fraco nas mãos de Deus”.
A voz da Santa é embalada pelos arranjos da Orquestra Afrosinfônica, comandada pelo maestro Ubiratan Marques, além de Mateus Aleluia, um dos vocalistas do Tincoãs.
Vandal diz que a faixa é como uma "reza", uma oração que propaga a voz de Santa Dulce, oferecendo conforto e estímulo. “Eu acho que a cereja desse bolo, é essa voz de uma santa, que é a nossa santa. Essa santa que eu sou devoto e que eu queria tanto, depois de ter tido esse abraço dela, fazer com que as pessoas também fossem confortadas por essa força maior que tanto me ajudou e me ajuda até hoje", comenta.
O Vanguardah ambienta a religiosidade do início até o fim
Rapper Vandal
O retorno de “A verdade da Cidade”
Como já dito, o álbum mescla uma série de ritmos da identidade musical baiana, em especial o pagode. Durante toda sua carreira, a percussão esteve presente, como exemplo de faixas como TIPOLAZVEGAZH e NOVAH SALVADORH. Mas em Vanguardah, Vandal retomou uma época saudosa do pagode baiano, ao trazer o single "A Verdade da Cidade", em homenagem ao álbum de pagode homônimo do Parangolé (2007).
A Verdade da Cidade fez parte de uma época em que o pagode tinha como características o discurso político contra o racismo, opressão policial, além de manifestar identidades como as religiões de matriz africanas. Entre os hits, destacam-se A Santa, Fera Ferida(Quem Sou eu) e Baculejo” e ‘Remador.
Vandal demonstra profundo respeito pela história e pelo que veio antes, buscando honrar artistas como Bambam e Nenéo, vocalistas do Parangolé, na época do álbum.
O Bambam pra mim é o número um do que eu entendo como o pagode real baiano. Essa forma de se fazer o pagode baiano.
Rapper Vandal

“Eu sempre quis homenagear essa época absurda pra gente que entende o pagode, que ama o pagode[...] é uma obra que pensada minuciosamente para honrar aquele recorte histórico", conta Vandal, ressaltando seu respeito e admiração que o guia nas músicas.
A produção da música contou com músicos como Calibre, apontado pelo rapper como pioneiro na fusão de eletrônica com samba-reggae e pagodão, e o guitarrista Jaguar, que vivenciou essa época, além de Icaro Sá, responsável pelas percussões.
Ele visa que o público "busque" essas referências. "A faixa é um presente que eu dou, e também um agradecimento que eu tenho. Eu coloco isso pras pessoas pra que essa busca (por essas referências) seja feita.", conclui.
Durante a entrevista, Vandal revelou que a música teria participação dele, mas devido a algumas questões não conseguiram gravar juntos: “No decorrer do processo a gente acabou não conseguindo realizar isso. Mas acredito que daqui pra frente esse feat nessa junção Vandal e Bambam aconteça em algum momento”.
Sejamos bairrista
Com devota afeição especial à sua cidade declarada, o bairrista Vandal defende a produção artística da Bahia com afinco, recusando discursos de superioridades de outras regiões, afirmando que “devemos bater no peito e dizer:não, isso aqui é nosso. São as nossas gírias, é a nossa forma de falar, é a nossa forma de se vestir”.

Ao falar sobre a cultura do estado, ele deseja que os artistas baianos devem ser mais "egoístas" e "soberbos" (no sentido positivo) em relação à sua própria cultura, usando suas gírias, moda e locais de Salvador em suas obras, em vez de imitar tendências de outros lugares, como Rio, São Paulo ou EUA/Europa. Ele cita o cantor porto-riquenho Bad Bunny como exemplo de artista que, ao ganhar repercussão em 2025, teve como marca de sua obra a valorização de sua cultura local.
Ainda sobre o ritmo do pagode, Vandal usa o ritmo como exemplo de valorização que deseja. “Eu queria ver discos de MC de Salvador com 50% de pagode. Eu quero ver o pagode baiano se comportar como um reggaeton se comporta, como um afrobeat se comporta, como uma cúmbia se comporta, como um kuduro se comporta, como o próprio trap se comporta, o grime, o drill se comportam", afirma
Eu acredito que a gente tinha que ser mais egoísta com o pagode, tinha que ser mais soberbo
Vandal
A discussão sobre identidade também aparece na forma como VANGUARDAH incorpora a geografia de Salvador. Cidade Nova, bairro onde Vandal nasceu, aparece ao lado de referências a espaços que fazem parte da memória musical da cidade, como o Ministereo Público SoundSystem e a Zauber Multicultura.
Para o artista, cantar esses espaços significa transformar a própria experiência de circular pela cidade em narrativa. A estratégia também dialoga com uma característica histórica do rap: o pertencimento a determinados territórios, como Compton e Brooklyn, nos Estados Unidos, ou Capão Redondo, na obra dos Racionais MC's.
A relação com o território dá ao álbum, segundo Vandal, uma experiência "cinematique" para quem reconhece esses lugares. "Eu sou oriundo da Cidade Nova, então eu tenho amor pelo meu bairro. [...] E esse amor que eu já tinha, essa escola que o rap já tinha me proporcionado, me fez realmente fincar essa bandeira desses locais".
A linguagem única
Se Salvador aparece como território físico de VANGUARDAH, a linguagem criada por Vandal também carrega marcas de sua relação com a rua.
O artista desenvolveu uma maneira particular de escrever e se comunicar nas redes sociais, marcada pelo uso de letras específicas, como "V" e "H", texto exclusivamente caixa alta, além de acentos e construções que fogem da escrita convencional. Para ele, essa estética se aproxima da ideia de "poesia concreta" e ajuda a construir uma identidade própria.

A escolha também remete à experiência anterior com a pichação e o grafite. Vandal transporta para o ambiente digital uma lógica que já fazia parte de sua relação com a cidade: marcar o espaço e ser reconhecido por uma linguagem própria. "O grafite fala para os seus antes de falar com o todo", afirma.
Ao perceber que a internet funciona em uma lógica temporária e efêmera, o artista buscou uma forma de se destacar sem abandonar a identidade construída antes das redes sociais. "Então, eu me baseei nisso também, pra criar esse lance da escrita e fazer com que eu realmente tivesse ali, mantendo esse lance meu."
Da pichação ao grafite, queria que trouxesse essa identidade e que fizesse com que as pessoas olhassem pra rede e dissessem: Isso é o Vandal.
Rapper Vandal
A estranheza inicial provocada pela escrita faz parte da proposta. Ao fugir da forma habitual de apresentar uma informação, Vandal pretende interromper a leitura automática e marcar sua presença.
"É muito habitual você ler tudo normal, é muito habitual você já receber a informação mais chegada para você. Então, quando vem essa forma que o Vandal aparece nessa rede social, aparece nessa rede de internet, você também diz: pô, o Vandal tá aqui."
Um álbum feito de fé
Apesar da centralidade da figura de Vandal, VANGUARDAH foi construído a partir da participação de diferentes artistas e músicos. A produção musical reúne Tiago Simões, Russo Passapusso Calibre MC e Seko Bass, sob direção artística de Phodismo e do próprio Vandal.
Grande parte das participações também vem de artistas ligados à cena baiana, como Giovanni Cidreira, Hiran, o maestro Ubiratan Marques e a Orquestra Afrosinfônica, Josyara e Liz Reis. A exceção mencionada pelo artista é o DJ KL Jay.

Entre essas relações está Russo Passapusso, amigo de longa data de Vandal, com quem o rapper já havia trabalhado antes mesmo do BaianaSystem. "É uma pessoa que tá comigo 24 horas por dia", conta.
A relação entre os dois ajuda a explicar a construção coletiva do disco. Para Vandal, Russo conhecia não apenas seu trabalho, mas também as pessoas envolvidas no projeto e a dimensão espiritual que atravessava cada uma delas. "Eu não veria outro profissional fazendo isso que ele fez, até porque, como eu falei, ele era a pessoa que me conhecia e conhecia todo mundo dentro disso e sabia a fé que cada um tinha e fez com que isso se juntasse."
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A ideia de "fé" aparece, então, também como uma experiência coletiva. Para Vandal, o álbum foi construído a partir da confiança e da "fé musical" compartilhada entre ele, Russo, o maestro, a Orquestra e os demais músicos envolvidos no processo.
Inicio de uma trilogia
A trilogia planejada por Vandal aponta para uma continuidade dessa pesquisa artística. Depois de VANGUARDAH, vêm FEZTAH DEH LARGOH e EAUH DEH PARFUMH, projetos que devem explorar outras referências e sonoridades.
Mas o futuro pensado pelo rapper não está separado da discussão sobre a cena baiana. Ao contrário: ele espera que seu trabalho também funcione como incentivo para que outros artistas explorem as próprias referências.
Para ele, o rap baiano atravessa um momento de maior liberdade e maturidade, capaz de buscar uma identidade própria sem esconder suas referências.
Eu vejo o Rap Baiano num bom momento, que é esse momento de liberdade.

