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O pássaro que voou da Bahia para o Brasil: o sucesso de Kannário nas eleições

Kannário ganhou projeção nacional com “Bota pra Virar”, mas construiu sua fama entre o pagodão, o Carnaval, polêmicas e passagens pela política

Igor Kannário arrasta multidões em todos os cantos da Bahia
Igor Kannário arrasta multidões em todos os cantos da Bahia |  Foto: Uendel Galter/Ag. A Tarde

Quem é da Bahia provavelmente não precisou esperar uma eleição presidencial para descobrir Igor Kannário. O resto do Brasil, porém, parece ter começado a prestar mais atenção no “Príncipe do Gueto” nas últimas semanas.

A vitória do presidente Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno das eleições, realizado no domingo (25), colocou novamente um baiano no centro das atenções. Desta vez, não era candidato: era Kannário e seu “Bota pra Virar”, que se tornou uma das principais trilhas da campanha petista e tomou conta das redes sociais.

Depois da confirmação da vitória de Lula, o cantor ainda fez aquilo que os baianos conhecem bem: subiu em um trio elétrico e colocou uma multidão atrás dele. A comemoração saiu de Ondina e seguiu até o Rio Vermelho, com a presença de nomes como o governador Jerônimo Rodrigues e o vice Geraldo Júnior.

Bota pra virar... o Brasil

A música que caiu no gosto da campanha não é exatamente novidade no repertório do cantor. O clipe original de “Bota pra Virar” foi publicado em janeiro de 2024 e já soma mais de 9 milhões de visualizações no canal oficial de Kannário no YouTube.

Foi no segundo turno de 2026, no entanto, que a expressão ganhou outro sentido. Em 16 de outubro, o artista lançou “Bota pra virar Lula”, adaptação voltada diretamente à disputa presidencial. Em poucos dias, a música passou a aparecer em atos, vídeos de políticos, artistas e apoiadores do petista espalhados pelo país.

Nesta segunda-feira (26), a faixa aparecia entre as músicas em alta no YouTube no Brasil. Ou seja: o balanço que durante anos foi quase patrimônio das ruas e festas baianas encontrou uma nova pista, dessa vez nacional.

Só que, para entender por que Kannário consegue transformar uma música em movimento de rua, é preciso voltar algumas casas.

Antes do Príncipe, veio Anderson

Igor Kannário é, na verdade, Anderson Machado de Jesus, nascido em Salvador, em 29 de novembro de 1984. Criado na Liberdade, um dos bairros mais tradicionais e populares da capital, começou cedo na música.

Ainda criança, tocou bateria e cantou. Depois passou por grupos como Coisa do Samba, Patrulha do Samba e Swing do P, até chegar ao projeto que começaria a moldar definitivamente sua identidade artística: A Bronkka.

Foi justamente nesse período que Anderson virou definitivamente Kannário. Segundo o próprio cantor contou em entrevista, o apelido nasceu de Belo, que ouviu sua voz e fez a comparação com um pássaro. O nome pegou.

Com A Bronkka, Kannário encontrou espaço para misturar pagode, discurso de periferia, gírias, protesto e uma postura de palco que fugia do padrão dos grandes artistas do gênero naquele momento.

No fim de 2012, deixou o grupo e partiu para carreira solo. Vieram músicas como “Sai da Frente”, “Maloqueiro Ousado”, “Tudo Nosso, Nada Deles” e, anos depois, “Bota pra Virar”.

Kannário é um fenômeno na Bahia
Kannário é um fenômeno na Bahia | Foto: Olga Leiria/Ag. A Tarde

O fenômeno que a Bahia já conhecia

A relação entre Kannário e seu público talvez explique melhor o artista do que qualquer número de streaming.

As músicas tratam a favela e a periferia não apenas como cenário, mas como identidade. Um trabalho apresentado no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação chegou a apontar Kannário, ainda na época de A Bronkka, entre os artistas fundamentais para compreender a representação da população periférica no pagode baiano dos anos 2000.

A mistura também chamou atenção fora do público do pagodão. Em 2015, o então secretário estadual de Cultura e compositor Jorge Portugal definiu o estilo de Kannário como uma combinação de pagode com elementos de rap e rock. Caetano Veloso também saiu publicamente em defesa do artista e apontou Kannário como uma novidade importante dentro da história musical do Carnaval de Salvador.

Mas nada traduz essa relação tanto quanto a pipoca do Kannário.

O Carnaval que mudou tudo

O Carnaval de 2015 foi um divisor de águas.

Kannário chegou à festa cercado de controvérsias e com dificuldades para conseguir espaço nos grandes circuitos. A Prefeitura de Salvador decidiu colocá-lo em um trio sem cordas diante do que o então prefeito ACM Neto classificou como um “clamor popular”.

O resultado foi uma cena que marcou a folia.

Com “Tudo Nosso, Nada Deles” estourada, Kannário arrastou uma multidão pelo Campo Grande. Reportagens da época estimaram a pipoca em mais de 580 mil pessoas. O cantor terminou aquela edição consagrado como uma das grandes revelações da festa.

Ali ficou evidente uma característica que continuaria acompanhando o artista: Kannário não dependia de abadá ou bloco tradicional para colocar gente na rua.

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E, no Carnaval de 2026, novamente houve multidão no Campo Grande, com foliões se espalhando pelo circuito para acompanhar o Príncipe do Gueto.

Sucesso também caminhou com polêmicas

A trajetória, entretanto, está longe de ser apenas um conto de fadas.

Antes da consagração de 2015, Kannário acumulou episódios policiais e confusões que chegaram a ameaçar sua própria presença no Carnaval. Reportagens da época apontavam que ele já havia sido detido em diferentes ocasiões, envolvendo desde problemas no trânsito até ocorrências relacionadas a drogas.

Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 7 de janeiro de 2015, quando Kannário foi detido no bairro da Caixa D'Água com oito porções de maconha. Na ocasião, ele foi autuado em flagrante por tráfico e chegou a ser levado ao Complexo Penitenciário da Mata Escura. A defesa sustentava que a droga seria para consumo próprio e anunciou que buscaria a desclassificação da acusação. Ele foi liberado no dia seguinte.

Ainda naquele mês, Kannário voltou a ser conduzido à delegacia após policiais encontrarem um cigarro de maconha em um veículo em que ele estava. Segundo registro da época, o motorista assumiu a posse da droga e o cantor foi liberado após averiguação.

Também houve problemas no trânsito. Em diferentes anos, o artista foi flagrado dirigindo sem habilitação e teve veículos apreendidos.

As polêmicas ajudaram a construir uma imagem que, durante certo período, dividiu opiniões: enquanto parte do público via Kannário como problemático, seus seguidores enxergavam justamente naquele comportamento e naquele discurso uma figura que não tentava esconder de onde veio.

Do trio para as urnas

A popularidade nas ruas acabou desembocando na política.

Em 2016, Kannário disputou uma vaga na Câmara Municipal de Salvador pelo PHS e foi eleito vereador com 11.432 votos. Dois anos depois, deu um salto maior e conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Na eleição de 2018, foram 54.858 votos para deputado federal. O mandato começou em fevereiro de 2019 e terminou em janeiro de 2023. Na Câmara, Kannário integrou, entre outras, as comissões de Cultura, Turismo e Esporte.

A tentativa de reeleição, porém, não deu certo. Em 2022, recebeu 20.514 votos e ficou como suplente. Dois anos depois, tentou retornar à Câmara de Salvador pelo PSB, mas conquistou 1.553 votos e novamente não conseguiu se eleger.

Em pleno Carnaval de 2025, chegou a dizer que não queria mais se envolver com política. A história, aparentemente, não acabou por ali.

A política voltou para o trio

Na eleição de 2026, Kannário apareceu diretamente ligado à campanha de Lula. E depois da vitória petista, a política voltou a dividir espaço com a música em cima do trio.

Durante a festa em Salvador, o cantor chegou a dizer que pretende se unir a outras forças para tentar tirar o grupo do prefeito Bruno Reis (União Brasil) do comando da Prefeitura nas eleições municipais de 2028.

Se será candidato novamente é outra história, mas fica claro que, mesmo quando tenta deixar a política, a política continua encontrando Kannário.

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