
Quem assiste aos concursos de beleza não faz ideia de que por trás das noites luxuosas, vestidos sofisticados e das coroas brilhantes há muitos perrengues e até a falta de assistência financeira para as candidatas. Em entrevista exclusiva ao MASSA!, a Miss Bahia 2027, Ana Vitória Carvalho, revelou os desafios enfrentados em silêncio nos bastidores das competições.
A trajetória de Ana Vitória Carvalho até o posto de Miss Bahia 2027 foi repleta de garra, sacrifícios e dedicação. Natural de Itabuna, a jovem de 20 anos é modelo, estudante de Direito e ativista social. Para conseguir suprir alguns custos para participar das competições, ela ainda faz trabalhos como freelancer.
“Eu faço Direito, então eu tive que conciliar minha faculdade com a preparação para o Miss, aulas de inglês, aulas de passarela, aulas de oratória e eu também trabalho, né? Tenho um trabalho de modelo e também faço freelancer para conseguir renda extra. Então foi muito corrido, movimentado. Eu saía de casa às 5h da manhã e chegava em casa 22h ou 23h da noite”, relatou.

Esse cenário costuma se repetir entre as candidatas de outros estados brasileiros. As peças de roupas, sapatos, maquiagens profissionais, penteados para cabelo e demais necessidades são, na maioria dos casos, conquistadas a partir de parcerias entre os profissionais da área da estética e moda com as competidoras.
No caso da atual representante baiana, até para conseguir encontrar pessoas dispostas a acreditar no seu sonho foi difícil. Ela recebeu muitas respostas negativas às suas propostas antes de conseguir encontrar fornecedores e patrocinadores.
“Assim que eu fui anunciada, eu fiquei uns três meses batendo de porta em porta na Avenida Cinquentenário, a principal de comércio em Itabuna. Eu desci a Cinquentenário inteira a pé, de salto, e tudo o que eu recebia era 'não'. Eu ia nas empresas e ninguém podia me ajudar. Quando foi chegando na véspera do concurso mesmo, no mês de agosto, que foram surgindo”, revelou ela.
Todo meu guarda-roupa para o confinamento foi parceria. Eu não tive condições de comprar

Depois de conseguir conquistar o título de Miss Itabuna e, posteriormente, o de Miss Bahia 2027, a modelo iniciou o processo de preparação para competir pela coroa de Miss Brasil 2027: "Não é só beleza, a gente tem que ser oratória, passarela, etiqueta, guarda-roupa, enfim, são muitas coisas".
A final do concurso acontece em janeiro do ano que vem, em Curitiba, no estado do Paraná, e elegerá a miss que vai representar o país em outras competições internacionais. A partir de agora, o desafio de Ana Vitória é de firmar novas parcerias para as etapas mais acirradas.
Miss ganha salário?
Ao contrário do que muita gente imagina, as vencedoras de concursos de beleza do Brasil não recebem um salário fixo. A função de miss nem mesmo é reconhecida como uma profissão que possa atender aos padrões exigidos para ter a carteira de trabalho assinada. Porém, elas podem ser remuneradas financeiramente com contratos em dinheiro, cachês por campanhas publicitárias e outros benefícios.
O título de Ana Vitória Carvalho foi convertido em algumas premiações: “Um dos patrocinadores do concurso, que é a Cassi Turismo, me deu uma viagem para Morro de São Paulo com acompanhante, ganhei outra viagem também para a Praia do Forte. Foram premiações assim, em dinheiro não. Eu ganhei também a minha taxa para o Miss Brasil, que já é um valor bem mais alto, que gira em torno de R$5 mil”.

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A organização do Miss Brasil Supranational 2027, vinculado ao Concurso Nacional de Beleza (CNB), não cobra um valor pelas inscrições iniciais do formulário online, mas é necessário pagar as taxas de confinamento e participação, que inclui diversos gastos, para a franquia nacional. Outras despesas também surgem ao longo do caminho.
“O Miss Brasil, eu creio que a minha vida vai ficar ainda mais movimentada. Eu vou precisar cumprir compromissos em Salvador também por conta do Miss Bahia. E requer muito investimento financeiro, né? Então eu procuro parcerias, faço provadores e se for de vestido de gala, é algo que eu posso pegar emprestado e depois devolver”, disse ela.
A real motivação para continuar
Mesmo diante das adversidades, Ana Vitória Carvalho encontrou a motivação que faz os obstáculos parecerem pequenos diante do caminho que ela deseja trilhar daqui para frente. Para a jovem de Itabuna, a representatividade que ela carrega inspira outras pessoas e a deixa com a sensação de missão cumprida.
"Eu sempre quis ser uma pessoa cuja eu pudesse sentir que era minha representatividade, porque representatividade é muito diferente de representação. A gente vê novelas, filmes, em que tem pessoas negras, mas as pessoas negras não estão ocupando papéis de destaque, não são protagonistas, não são médicas, historiadoras, princesas. E a representatividade é você olhar para aquelas pessoas e saber que ela ocupa um espaço de destaque por méritos dela”, explicou.
Eu preciso ser representatividade, para ser para as pessoas o que eu não tive

A paixão pelo universo da moda surgiu ainda na infância, quando ela tinha cerca de cinco anos e desfilava para o irmão enquanto a mãe saía para trabalhar. Com o jeito inocente de criança, Ana vestia as roupas da mãe escondida e se imaginava sendo uma grande modelo. Porém, ao olhar para o mercado profissional na época, não conseguia enxergar uma possibilidade de tirar esse desejo do papel e torná-lo real.
“Em questão de contexto financeiro, familiar e social, eu vi que aquilo não era para mim, não via representatividade e achava que eu nunca ia conseguir ser modelo e seguir nessa área. Até que em 2024, eu tinha ali meus 17 para 18 anos, eu encontrei com uma agência aqui de Itabuna, liderada pela Elisandra Curvelo, que ela falou que eu tinha muito potencial para ser modelo e até para o mercado internacional. Ela acreditou em mim”, pontuou ela.
Miss Bahia 2027 não tem procedimentos estéticos
Diante das conquistas alcançadas nos últimos meses, Ana Vitória deseja continuar sendo um exemplo para a sociedade em todos os aspectos. Além de discutir sobre temas como antirrascismo, empoderamento feminino e ativismo social, a jovem faz questão de viver o que prega.
Para os palcos e passarelas, a baiana irá levar o seu cabelo crespo e volumoso, reforçar os seus traços negroides e muita força e alegria. Ela nunca fez e não pretende fazer procedimentos estéticos que alterem a sua naturalidade.
"Eu sou a mulher negra que quero levar para o mundo, para os outros, a minha ancestralidade. Então, para mim, no meu contexto, não faz sentido eu fazer procedimentos estéticos, sabe? Sem contar que eu tenho uma autoestima muito boa, eu me acho uma mulher muito bonita na minha própria beleza", afirmou.

"Não tenho nenhum procedimento estético. E o máximo que eu que eu fiz para o concurso foi drenagem, massagem linfática e radiofrequência, mas nada demais. Eu não faço porque eu sou muito conectada com as minhas raízes, eu tenho traços negroides e eu sei que eu preciso levar um pouco mais de mim, porque as pessoas, elas olham para mim e elas podem se enxergar tanto no quesito da história quanto no quesito da aparência", concluiu Ana Vitória.

