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Espetáculo Gota d’Água leva vivências das marisqueiras para o palco

Adaptação da obra de Chico Buarque e Paulo Pontes chega nessa sexta em Salvador

Artur Soares
Artur Soares
Espetáculo rola nessa sexta-feira (21)
Espetáculo rola nessa sexta-feira (21) |  Foto: Reprodução/@Victor_BLVK

Um mar carregado de histórias, tradições e vivências vai desaguar nos palcos de Salvador. A partir de dessa sexta-feira (21), a capital baiana recebe o espetáculo Gota d'Água, uma adaptação da obra de Chico Buarque e Paulo Pontes. A nova montagem utiliza o cotidiano das marisqueiras como inspiração para elementos cênicos. A apresentação rola nesta sexta-feira (21), às 20h, na Caixa Cultural - Unidade Carlos Gomes.

A peça ficará em cartaz até o dia 30 de agosto e se apropria de elementos como a areia, lama e redes de pescas para construir uma atmosfera digna de uma verdadeira praia. A trama acompanha Joana, uma mulher que tem sua vida transformada após ser abandonada pelo marido, Jasão. A história retrata temas como abandono, exclusão, desigualdade, dentre outros. O universo das marisqueiras foi essencial para que a nova adaptação conversasse com o público baiano.

“O desejo de montar esse espetáculo é antigo. Quando resolvemos que iríamos montar, ficamos nos perguntando como esse espetáculo se aproxima dessa regionalidade de Salvador, porque originalmente essa é uma tragédia carioca, mas não queríamos trazer referências do Rio de Janeiro. Então, mergulhamos nos aspectos estéticos, culturais e sensoriais do Subúrbio”, disse Augusto Nascimento, ator e codiretor do Gota d'Água, em entrevista ao MASSA!.

A pesquisa foi um passo fundamental para a construção visual. A equipe do projeto realizou diversas visitas ao Subúrbio Ferroviário para coletar referências e inspirações sobre a vida de quem vive próximo ao mar. “Colocamos eles no protagonismo. Toda nossa encenação, construção, movimentação e os cenários, tudo é inspirado nesse lugar e nessas pessoas. É sobre colocar eles no foco da narrativa”, pontuou

Além de assinar a direção, Augusto também vive Jasão em cima dos palcos. Dividindo sua atenção entre a atuação e a coordenação do projeto, o baiano ressaltou os desafios de cada uma das funções. “São duas funções muito desafiadoras. Eu acho que essa coisa da idealização, de fazer o projeto acontecer, é muito trabalhoso, custoso, mas também muito prazeroso. Estar em cena é muito desafiador, mas são sabores diferentes”, contou.

O ator conta que, durante seu processo criativo, buscou trazer um pouco de humanidade para seu papel. O principal esforço foi que seu personagem não se tornasse apenas uma caricatura do homem machista. “O desafio de fazer Jasão é justamente trazer uma humanidade para esse personagem, porque é muito fácil a gente cair na caricatura, na embalagem do macho escroto. Apesar dele ter sim muitos traços machistas, ser estruturado nessa coisa do patriarcado, ele também tem sua humanidade”.

Montagem utiliza o cotidiano das marisqueiras
Montagem utiliza o cotidiano das marisqueiras | Foto: Reprodução/@Victor_BLVK

Mesmo sendo essencialmente um musical, o foco da apresentação não são as músicas. O movimento, a potência do texto e as temáticas sociais são os pilares que sustentam a trama. Evana Jeyssan, que interpreta Joana, enfatiza o privilégio de poder protagonizar a peça. “Eu sou muito grata por tudo o que está acontecendo, as premiações, o reconhecimento, e também estar crescendo junto com esse personagem, me entendendo como atriz, como mulher negra periférica”, destacou.

Trazer holofotes para as vivências das marisqueiras foi uma grande realização para a artista. A profissão acaba carregando um significado simbólico para sua personagem. “As marisqueiras vieram como uma base estética para a gente conseguir dar corpo a essa personagem. Poder homenagear essas mulheres, poder homenagear o Subúrbio Ferroviário, é uma preciosidade. A história de Joana vem exatamente desse lugar de lama que entrou em ascensão”, contou.

A identificação é uma certeza para o público feminino. A personagem de Evana não é apenas uma trabalhadora do mar, mas também uma representação da mulher brasileira e suas faces. “Ela é uma representação da mulher brasileira, da mulher preta, da mulher periférica que sofre tanto com a desigualdade, descriminação e violências. Ela serve como base, como cuidado, de toda a sociedade e muitas vezes se mutila para que isso possa existir”, acrescentou a atriz.

A narrativa de Gota d'Água fala sobre urgências de nosso tempo. Para além do abandono e machismo, a montagem dialoga com questões que se conectam com o contemporâneo. “Joana fala de outras urgências, não só sobre o abandono. Ela fala sobre essas mulheres que estão na margem, da potência dessas mulheres que estão na margem e movimentam a sociedade. É pelo nosso trabalho, pelo trabalho de mulheres pretas, que a gente move o Brasil, as estruturas da sociedade”, finalizou.

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