
Em um país com 55,5% de sua população formada por pessoas negras, segundo o último Censo Demográfico divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, o racismo é um problema cotidiano que se alastra em todas as partes da sociedade brasileira, incluindo o futebol. Os vários casos de ofensas racistas contra o atacante do Real Madrid e da Seleção, Vinicius Júnior, junto aos ataques sofridos por clubes, atletas e torcedores em competições sul-americanas, reacenderam a pauta da luta antirracista no Brasil.
“O racista é sempre o outro. Pesquisas apontam que maioria do povo brasileiro acha que o Brasil é racista, mas uns 3 ou 4% fazem a autocrítica. É fácil, por exemplo, apontar o racismo no argentino ou no espanhol, quando racismo tá muito enraizado no nosso futebol”, explica Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, em entrevista ao MASSA!.
Dados da organização ilustram uma das faces do racismo: a falta de pessoas pretas em lugares de comando. Números divulgados em 2024 apontam que apenas seis dos 81 treinadores que passaram pelas Séries A e B do Campeonato Brasileiro são negros, com destaque para Jair Ventura, atual treinador do Vitória, e Roger Machado, que passou pelo Bahia entre 2019 e 2020. Entre os presidentes/CEOs dos clubes, a situação fica ainda pior, já que em dados de 2023, nenhuma pessoa preta presidiu um clube da Série A do Brasileirão.

Enquanto isso, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) apontou que 57% dos atletas da primeira divisão de 2023 eram pretos ou pardos. “Não vemos treinadores, diretores e conselheiros negros nos clubes. A gente não vai combater o racismo apenas falando de casos individuais. Pessoas negras precisam ocupar espaços de poder no futebol, já que foram mais de 100 anos do mesmo grupo de pessoas nesses lugares e pensando as mesmas coisas”, destaca.
Duas regiões sofrem mais
As ofensas racistas aparecem nos mais variados estádios brasileiros, com “destaque” para as regiões Sul e Sudeste do país, que concentram 36% e 32%, respectivamente, dos casos computados pelo Observatório, entre 2014 e 2023. O Nordeste aparece em 3º lugar, com 16% dos casos, mesmo tendo maior fração de negros por região (16%). “A resposta mais eficaz envolve a combinação de sanções penais, administrativas e medidas educativas. No campo repressivo, são aplicadas penas de prisão e multa, além da identificação e banimento de torcedores, e sanções esportivas aos clubes, como perda de mando, multas e também a perda de pontos”, indica Dra. Thelma Leal, promotora do Ministério Público da Bahia.
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Aplicativo ajuda denúncias
Responsável por ‘fazer justiça’, mesmo sem qualquer ligação com os três poderes, o Ministério Público é quem denuncia casos de racismo para o judiciário aplicar as penas devidas. Diante deste cenário, o MP baiano possui o aplicativo “Mapa do Racismo”, que visa facilitar denúncias de episódios de forma anônima. “Em âmbito nacional, o Ministério Público tem feito campanhas de conscientização no combate ao racismo no futebol junto a torcedores e clubes. Além disso, atua no combate ao racismo por meio de instauração de inquérito policial e oferecimento de denúncias, com base na Lei de Crimes Raciais e Lei Geral dos Esporte”, descreve Thelma Leal.
*Sob a supervisão do editor Léo Santana
