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Coração quente, cabeça fria? - 22/06/2026, 08:00 - Kayky Menezes*

Psicólogo explica o peso que a Seleção carrega na Copa do Mundo

Profissional analisa o peso da cobrança sobre os jogadores da Seleção Brasileira

Brasil carrega pressão nessa Copa
Brasil carrega pressão nessa Copa |  Foto: Roberto SCHMIDT / AFP

A vitória sobre o Haiti diminuiu um pouco a pressão em cima da Seleção Brasileira e o técnico Carlo Ancelotti, mas não por muito tempo. O próximo jogo, contra a Escócia, na quarta-feira (24), em Miami, vale a classificação ao mata-mata e a liderança do Grupo C, mas um resultado negativo pode custar caro e fazer com que a tensão volte, como explica o psicólogo Lucas Freire.

“No Brasil, o jogador não joga apenas uma partida. Desde menino, ele foi a porta de saída da família da vulnerabilidade. Em muitos casos, o único projeto econômico viável de uma casa inteira. E quando veste a camisa da Seleção, vira termômetro do humor de um país que historicamente usa o futebol para medir o próprio valor. ‘Herói’ e ‘vilão’ não são categorias sobre o trabalho do atleta, são sobre o que a nação precisa projetar. O jogador vira uma tela em branco, onde 200 milhões de pessoas jogam a própria frustração ou a própria esperança. Ele não foi contratado para ser antidepressivo de um país”, detalha o profissional.

Atravessando seu maior jejum sem títulos mundiais, com 24 anos após o penta de 2002, é normal o brasileiro estar, cada vez mais, perdendo a paciência com a Seleção, mas isso, para o psicólogo, pode ser mais um fator para limitar a equipe. “O grupo que chega em 2026 herda uma dívida que não contraiu, acumulada por seleções anteriores, e entra em campo para pagar um boleto velho. Quem joga pra quitar dívida joga pra não perder”, relata.

Quando se trata de Copa do Mundo, o peso é diferente de tudo no futebol. O jogador representa não só o seu sonho, mas o de milhões de pessoas, o que aumenta ainda mais a pressão. “Repare na crueldade da equação brasileira. A gente exige do nosso jogador exatamente aquilo que a pressão destrói. Quer ginga, drible, alegria, liberdade e cerca o sujeito do máximo de consequência, ameaça, ou ‘é isso ou a vergonha eterna’. Pede jazz e constrói uma sala de interrogatório. É um indivíduo colocado pra sobreviver quando a gente queria que ele criasse”, lembra Lucas Freire.

Psicólogo Lucas Freire
Psicólogo Lucas Freire | Foto: Divulgação

Pensando em todas essas problemáticas, a preparação mental dos atletas se mostra fundamental para uma campanha de sucesso do Brasil e, em uma Copa do Mundo, precisa ser ainda mais especial. “É necessário que seja diferente, mas com muito cuidado. Existe uma armadilha, quanto mais você cria um protocolo ‘porque é Copa’, mas você confirma para o inconsciente do atleta que aquilo é anormal, fora da escala humana, e manda ele ficar em alerta máximo. O excesso de cuidado vira mais um holofote apontado para a ferida. Às vezes, o gesto mais protetor é o mais não convencional no Brasil: lembrar que aquilo ainda é um jogo. Por isso o trabalho psicológico decide quase tudo aqui, ele devolve ao atleta só o que é dele: a próxima ação”, conclui.

E o Neymar?

Principal nome desta geração brasileira, mas ainda sofrendo para entrar em campo nesta Copa, Neymar segue sendo o nome de mais debate na Seleção e deve estrear diante da Escócia no Mundial. Referência para os mais jovens, mesmo sem ir a campo, o camisa 10 tem sua importância também fora das quatro linhas.

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“Um nome dominante pode fazer uma de duas coisas. Ou ele funciona como para-raios: atrai a carga para si, vira o herói ou vilão, e com isso libera os outros para jogar sem o peso de serem ‘o cara’. Ou ele vira centro de gravidade, e todo mundo passa a jogar com um olho na bola e outro nele, com medo de errar diante do maior. Não é uma questão sobre a pessoa, é sobre como o time distribui responsabilidade, e isso é dinâmica de grupo, não atributo de indivíduo. E isso nenhuma lista de convocados garante de antemão, só o campo dirá”, explica o psicólogo.

*Sob a supervisão do editor Léo Santana

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